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oitentaeoitosim

12
Nov12

Croniqueta

Jorge

Junta-se a multidão à porta do estádio, para assistir a um jogo de futebol, um dérbi. Ali concorre muita gente, visitadas que foram a loja oficial e as carrinhas dos feirantes. Há polícia no ar, no mar e em terra, spotters, GOE, agentes à paisana, judiciária, polícias municipais, agentes da brigada cinegética, de choque, à paisana, fardados, em serviço normal ou extraordinário. Os espetadores confluem num ponto de controlo, onde meia dúzia de indivíduos conferem os bilhetes. Dizem das boas, aquilo é tortura pior que estar engarrafado na ponte. Depois vem o crivo das portas da entrada. Já mais aliviados e em larga superação dos adeptos do clube contrário, os apoiantes do clube da casa (c.c.) são presenteados com  uma bandeirinha do clube, de forma a garantir um ambiente mais feérico.

   Faz parte da praxe: em primeiro lugar, entram para o aquecimento os 2 guarda-redes do clube de fora (c. f.) que são imediatamente mimoseados com um coro de assobios (para uma melhor esquentação de ideias e orelhas) aquecimento. «Agora vêm os nossos!». Zás, irrompe uma revoada de aplausos, assobios de apoio (vá lá, façam-nos felizes, sff!) Salta uma farpa para o mister: «então sicrano nem no banco fica, ele que é o melhor guardião da gente! Ouvi dizer que não vai à bola com o míster, ou então dá-se o contrário!». Para começo de hostilidades, nada mau…

   O speaker atira umas larachas, publicidade ao kit de sócios (um associado de longa data diz ser do tempo em que não se dava kilts a ninguém, modernices), atira palavras de ordem grandiloquentes - estilo «somos os maiores», «somos campeões» - numa tentativa, bem-sucedida, de despertar estados de alma estentóreos nos simpatizantes do peão, da tribuna, dos camarotes, das bancadas. Assim por esta ordem, todo o estádio dá testemunho do seu fervor clubístico e da fezada que percorre as hostes do c.c. neste jogo, nesta temporada e para a eternidade.

    Entram os restantes jogadores inscritos na folha do jogo, a dar toques, sobejando uma vez mais as ovações para os visitados, as vaias para os visitantes, mas destas feita acrescenta-se arruaças aos álvidros (a coprolalia afeta muito as moles de recintos desportivos), esconjura-se o poder maléfico daqueles homens de negro e amarelo, mortinhos por inventar cartões, livres, penáltis e foras-de-jogo inexistentes, a favor do adversário presente e do ausente, o tal que mais morde os calcantes do c.c. «Vai haver frutinha à sobremesa?», «Olha, vê lé se não desmaias como aquele espantalho boche». É que o chavelhudo não dorme.

    Quando se solta o hino oficioso do c.c. (música expressiva, letra gongórica), a devoção já é arrasadora e alguns adeptos cedem às lágrimas, mão direita sobre o coração, voz gorgolejante e alma pletórica de devoção clubista, por vezes confundida com alienação rasteira (o c.f. não tem direito a hino, o que abastarda o espírito de desportivismo que deve presidir a estes eventos).

    A anunciação dos nomes das 4 dezenas segue o mesmo padrão: pateada para os do c.f., salvas de palmas intermináveis para os do c.c. e assobiada monstruosa para os homens do apito.

   Os stewards, impávidos e serenos, estão à coca. Voltam o rabo ao campo do jogo e dedicam primordial atenção a potenciais espetadores predispostos a malfeitorias de cabo da esquadra. O acinte demove desacatos, já assim pensava a velha senhora. Muitos dos presentes prefeririam que aquelas criaturas fossem devolvidas à sua missão de controlo de assentos, de guias dos bons costumes, de amigos de ocasião. Há quem diga que uma boa provocação tura lustro à alienação…

   Dois dias antes da refrega, peroram os atletas de ambas as equipas e trejuram a pés juntos que só a vitória os move (alguém, disse que o contrário seria o óbvio?) As derrotas não os abaterão, mas, os do c.c. teimam que há contas por ajustar, isso é que há: o c.f. é um osso, há muito, atravessado na garganta, uma espécie de «besta negra». O c.f. pode estar abaixo da linha de água, mas os seus jogadores embicam para ali e, volta não volta, pregam uma partida de mau gosto ao c.c. O máximo aconteceu, há 2 temporadas, em que os visitantes impediram a consagração máxima dos visitados.

   Na véspera do encontro, o treinador do c.c. afiança que desta feita não haveria pai para o seu emblema, tinha a tática e a estratégia certas para quebrar o enguiço, do empate nem quer ouvir falar. «Ou vai ou racha!». O treinador do c.f. assume-se como seguidor das boas tradições: em equipa que ganha não se mexe, pelo que jogariam os mesmos atletas do ano anterior, fora os transferidos (5, «vendidos», segundo o calão do milieu) e os 6 de baixa. «Estamos aqui para as curvas, mesmo não sendo favoritos, queremos os 3 pontos em disputa». Todos me querem, eu quero a um… Há manos tão difíceis de corrigir  quanto as damas de espavento (por acaso estavam ali umas quantas)

   No dia da jogatina, o presidente do c.c. intima à lisura de processos; o presidente da SAD do c.c. (por acaso, o mesmo) afinou por outro diapasão, que os jogadores, caso fosse necessário, comeriam a relva. A afirmação valeu-lhe uma reverencial chamada de atenção dos seus correligionários, os quais o alertaram para a altura desmesurada dos pés de relva. «Os pequenos já não têm medo dos grandes, pelo menos no futebol, a vida real é outra dança, outro compasso» - atira o presidente do c.f. O presidente da SAD do c.f. disse que esperava que o tapete verde sintético não fosse regado antes do jogo. Também catalogou de «brincadeira de mau gosto» a inoportuna nomeação de um árbitro que tem o mesmo nome de um dirigente do c.c.

   Os mind games quedaram-se por aqui, mas consta que os árbitros nomeados não acharam graça nenhuma aquela tirada. O chefe de equipa, irá mudar o seu nome artístico, por causa das moscas, na próxima semana. «Esta malta embirra com tudo, qualquer dia até implicam com a tonalidade do apito, dos calções, ou a qualidade da brilhantina, safa!»

     Ambos os místeres escalonam os seus jogadores rumo à vitória («é disto que o meu povo gosta»!). Faz-se a troca de galhardetes, a escolha de campo, tiram-se as fotografias da praxe e dá-se o pontapé de saída. Está o estádio cheio que nem um ovo. A bola anda em bolandas, à flor da relva, poucas vezes, aos repelões, muitas vezes (pontapés para a frente, pontapés mal medidos, charutadas, biqueiradas a esmo). O c.f. assenhoreia-se mais da bola, não perdem um ressalto, calcorreia mais quilómetros, o keeper quase leva ao paroxismo os simpatizantes da casa, por sistemática retenção da bola (ouve nomes que envergonham a mãezinha dele), fizeram mais faltas e levaram mais perigo à baliza do c.c. (2 ameixas aos paus da baliza e 5 ao lado, após jogadas de envolvimento). Destarte, fazem 15 jogadas de perigo relativo, outras tantas de perigo iminente e mais umas quantas de perigo nenhum. Os atletas do c.c., confiantes na boa estrela e na superioridade do fator casa (são favas contadas na 2ª parte, guardado está o bocado!) ficam-se aquém dos adversários em todos os itens, metem os pés a medo, parecem estar a jogar com esférico quadrado, não dão uma para a caixa.

   Ao intervalo, vai tudo corrido a assobios (os árbitros espantam-se e depois compõem um risinho sardónico): roupeiros, o treinador, assessores, manager, delegado ao jogo, médico, fisioterapeuta, apanha-bolas e jogadores do c.c. ficam de orelhas a arder. «Parecem meninas prendadas», «Vocês estão cheios de caruncho», «Se não mudam de vida, acabam a jogar matrecos», «Já perdi metade do espetáculo, vejam lá se afinam as botas, na 2ª», «A minha sogra (que deus a tenha) jogava mais que vocês, suas alimárias». Só os incondicionais, animados por fumos e bombos, gritam incentivos.

    Há maior entrosamento entre sectores, com melhor sortido de passes certeiros na horizontal, na diagonal e na vertical, os atletas do c.c. espraiam-se mais pelo terreno de jogo. Os forasteiros acomodam-se aos novos parâmetros, criam 2 blocos baixos e usam e abusam da contraofensiva, cuja eficácia fica medida num golo obtido, por turbação de um defesa do c.c. recém-empossado no posto. É um duro golpe, contra a corrente, todavia «quem não marca arrisca-se a sofrer golos». Mas, em 10 minutos, o marcador vai de remonta, 2-1 para o c.c. Festeja-se sem parcimónia, beija-se o vizinho do lado, saem os cânticos de fervor e as bandeiras desfraldam-se a todo o vapor. «Agora é preciso aguentar até ao fim, sem cometer deslizes infantis!) Palavras não eram ditas e o mesmo jogador adaptado mete água pela segunda vez, olha que o diabo tece-as. Cai mais água gelada que impropérios, o que é verdade é que «o caramelo do treinador inventou». Como a esperança é a última a morrer, ouve-se alguns incentivos: «Ainda há tempo, seus paspalhos!», «Força nas canetas, até os comemos vivos!», «Somos campeões da terra e do mar!». Não há mais golos para ninguém. O c.f. dá o que tem e não tem, todos rilham os dentes, borram-se, sofrem de cãibras, mas não atiram a toalha ao chão. As jogadas de insistência, os múltiplos cantos e lances de bola parada, os dribles, as simulações, as triangulações do c.c. não conseguem demover o «autocarro» do c.f. «Vale tudo menos tirar olhos!», «ó sôr árbitro, não vê que foi penalti!» (o lance da possível falta ocorreu a 5 metros da pequena área), «expulse esse gajo, é a quinta vez que dá nas canelas!» Implora-se ao céu uma graça divina, mas os do outro lado fazem o mesmo, empate, portanto, divisão dos pontos. «Mesmo que insistissem a noite toda e outro galo não cantaria, isto como malhar em ferro frio, não dá!»

  De monco caído, o pessoal maioritariamente vestindo as cores da casa, desarvora, a caminho de casa, a butes, em transporte público ou em popó, ruminando a tragédia que está a alevantar-se no horizonte do seu emblema. Uma minoria dirige-se ao stand mais próximo, a afogar meia-mágoa, batendo-se com cervejolas, panachês e imperiais e sandes de couratos que amparem a queda das loirinhas. Os couratos têm travo a moedas e o cervejame está requentado, um fim de festa a condizer! «Ó amigo, abra mais 2 para a viagem»

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