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oitentaeoitosim

29
Dez12

Tratados

Jorge

Dava um tratado esta coisa das moedas de menor valor terem cara e coroa mais escuras, assim a modos de coisa mais prensada, ou temperada a temperaturas mais subidas. Quiçá a cunhagem diferenciada radique no valor de troca de todas as coisas, talvez. Que a diferença de mercadorias sobressai no requinte das inscrições, escolhidas na razão direta do valor facial, isso é verdade adquirida. A logicidade mercantil ressumbra nas peças monetárias, em todas as latitudes, mesmo que a globalização não seja um dado adquirido em todas as praças e bolsas fortes do globo? Caras e coroas alouradas ou esbranquiçadas são sempre mais valorosas e mais desejadas, por todo o lado?

 

Dava um tratado esta coisa da despromoção dos porta-moedas, em vigor nas 7 partidas do mundo. O papel-moeda e o papel-plástico impuseram-se, por isso os porta-níqueis foram atirados para as arrecadações, ou desapareceram de circulação; carteiras, bolsas e pochetes ocupam o lugar vago, sabendo-se do horror da sociedade ao vácuo. Olha-se de través para quem usa porta-níqueis, da mesma forma que, nos idos do século anterior, se mirava quem ousasse guardar trocos, num lenço de rosto ou de assoar (ou no colchão). Longe vão os tempos em que as algibeiras foram acrescentadas às calças, para se dedicarem à recolha de trocos. A inflação terá tramado os porta-moedas? É politicamente correto usar porta-moedas? («tens o bolso cheio, ou estás contente por me ver?»)

 

Dava um tratado esta coisa do desamparo votado a moedas pequeninas, mais escurinhas e de menor valor, as quais se quedam quietinhas no remanso do lar. «Olhe, não tem uma nota mais baixa? Olhe, não tem mais pequeno? Olhe, fica-me a dever 10 cêntimos, dá-me na próxima». Esta é uma práxis atenciosa que pode valer um novo cliente pode, mas não depõe em favor das boas práticas de aumento de produtividade. Não é em vão que se apaparica a autoestima: pagamentos com ceitis denotam proteção social, maila velha querela de deixar cair os parentes na lama e traduz por igual rendimentos de trazer por casa e abastardamentos na produtividade. As notas de 50, 100, 200, as quinhentinhas afamadas e mesmo as de 20, nos tempos decorrentes – conferem estatuto social, ou fazem gastar menos; as restantes denunciam debilidades que se querem a recato e a precato. Então, por que razão há falta de notas de 5 euros, por todo o lado? Não deveriam as maquinetas multibanco ser obrigadas a debitar notas barbudas, em tempo de todas as pragas do Egito?

 

 Dava um tratado esta coisa da valoração das coisas, do trabalho, das mercadorias. Uma arroba de níquel troca-se por uma nota gordanchuda, mas 15 kg de batatas não valem um caracol. Ei-los que discreteiam sobre a raridade do níquel, sobre as especificidades da lei da oferta, ou sobre as virtudes, virtualidades e virtuosismos dos mercados, os especialista da matéria: revolvem mundos e fundos, trocam por miúdos o economês e, gemebundo, cada um fica com a sua. Como se chama o deus menor inventor e inventariador do proprietariado que assegura benesses a meia-dúzia de indivíduos e instigador da relevação de tantas culpas a tantas dúzias de pessoas, cujo principal pecado é a geração de sobrevalias (e menos-valias)? Até quando se prolongará esta ideia que no mercadejar é que está a virtude?

Dava um tratado esta coisa do caráter epidémico do dinheiro. Foram criados normativos que proíbem o manuseamento próximo de moedas, notas e cartões e produtos não embalados, no ato da venda. É o caso do magarefe que agarra nos bifes e faz trocos a seguir, do vendedor de alfaces que deposita a quantia exata na gaveta, dos senhores que nos restaurantes manuseiam as sardinhas de qualquer jeito, com o argumento que vão a grelhar e o fogo destrói todas as excrescências, muitas das vezes com a aquiescência dos participantes nas operações de troca. Terão que explicar a estas pessoas que façam como os senhores da alta finança, não sujam as mãos, enquanto tripudiam preços, do peixe, da carne e das alfaces também. E depois diz-se que há micro-organismos perigosos atascados nas moedas e que passam. Seria, pois, uma medida profilática acabar mesmo de vez com as moedas, com o dinheiro? Ou o dinheiro tem tantas virtualidades, sendo uma delas a pureza de propósitos?

 

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