Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

oitentaeoitosim

29
Dez12

Pequenos nadas

Jorge

   As revoluções industriais foram fatais, para muitas práticas sociais, tantos os golpes mortais vibrados. As cidades frutificam como cogumelos e não são mais que uma pinhata de moradias, cheias de camaratas, apinhadas em torno do fumo de fábricas, das minas de carvão, das gangas e da poluição. Mas aí reside o poder de organizar tudo, desde a produção, passando pelos signos e terminando nos elementos compósitos das paisagens. Nelas se acotovelam proletários em todo o mundo, desejosos de lançar para trás das costas servidões imundas, atentos aos fundos do eldorado. O tiro ter-lhes-á saído pela culatra, confrontados com novas serventias, tolhidos e adstritos do trabalho repetitivo, quase não sobrando tempo para se coçarem. As novas fortunas fazem as delícias de poucos e o infortúnio de muitos. Nada de novo, portanto, naqueles reinos.

    As benesses ajustam-se, em primeiro lugar aos modos e artes de quem as sabe cavalgar, pelo que os afortunados são sempre mais diligentes, deixando as sobras aos indigentes. Há crise? Procure-se mecanismos de substituição. Há mau ambiente, procure-se ares mais dados à pureza – essa é a atitude dos vencedores da vida e depois há os vencidos. As cidades estão bafientas? Esperem aí – mas não de braços cruzados -  que chegue o carro e os leve para ambiências mais apetecíveis, seus garanhões!

   Sob o império do ouro negro, as multidões são gazeadas de forma mais diáfana (o oculto tem muita força nas vidas terráqueas). Longe dos olhos, longe do coração, aos efeitos nefastos do petróleo e derivados recebem o benefício da dúvida, os tubos de escape redimem-se, não se eliminam. Cidadão automobilizado não prescinde da sua dose de sujeiras que atafulham bofes e adjacências. Sobre as suas responsabilidades nos flagelos reconhecidos pela saúde pública, moita-carrasco. Fosse a profilaxia tomada a sério e teríamos outro galo a cantar, que este está depenado e afónico.

   Enquanto não são dados à estampa estudos taxativos da safadeza de esperdícios voláteis, em tom lamechas a pedagogia de trazer por casa diz que faz mal, os gases são um horror, mas vêm por bem da mobilidade e da renovação de stokes, o que está ao alcance da (in) compreensão de qualquer petiz. Também se apreende, em tenra idade, que a invasão sistemática de passeios e suas abrangências pode ser tolerada. Proibida por lei, é um ato ou uma obra que não merece qualquer contrição, faz parte da liturgia social, mesmo que pouco ortodoxa e não se fala mais no assunto.

   O ar inspirado nas grandes moles citadinas tem o apelo de telenovelas, assim a modos de venenos adocicados e contra isso, batatas. As cidades, ambientes artificiais de per si, atraem quem aposta na mudança, na melhoria de vida. A cidade cresce também com amor e patriotismo. As doenças sobrevivem na artificialidade e sem fronteiras, como o ar, fundamental, na sua aparente ausência.

    (Num dia, numa cidade – cujo nome não vem ao caso – é posta à disposição dos habitantes uma maquineta que fornece ar puro. «O ar é isto?», ouve-se com espanto. Antes que as esplanadas, ao longo das principais vias, se desertifiquem, antes que os corredores abandonem as vias dadas a correrias, a engenhoca é depositada no aterro sanitário em funcionamento, à data).

   Uma plêiade de estudos comprovou que o tabaco consome muitas vidas. Cadê os outros?

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2022
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2021
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2020
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2019
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2018
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2017
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2016
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2015
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2014
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2013
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2012
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2011
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2010
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2009
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub