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oitentaeoitosim

26
Jan13

Reconquista

Jorge

 

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
pedrarias de astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!...

        (Guerra Junqueiro)

 

    Há o regresso às aulas, temido pra burro, pela generalidade dos intervenientes no processo, quando se propagandeia o seu oposto, um momento de festa. Para os putos e novatos sim, para os tarimbados nem por isso. Para o comércio é um maná e tudo o que é bom para o comércio também o é para o povo.     

   Há o regresso ao futuro, uma fita que, no original, alerta para a responsabilidade que temos na escolha dos pais. Ninguém assina por baixo uma versão responsável sobre a proveniência da alma, sobre o momento em que ela adere ao corpo, sobre a escolha da família em que se nasce. A vida - sabemo-lo bem - surge aquando da fecundação, está tudo bem explicadinho. A escolha da senhora Maria e o senhor João para pais de infantes permanece no segredo dos deuses e arcanos. Ser menino responsável ou menina na linha ajuda a ter sorte no leilão da parentela.

   Há o regresso ao passado que, não terá assim tanta piada, mas dá para conhecer como é que os de antanho sobreviviam sem dinheiro, sem têvê, sem net, sem computador, sem telemóvel, sem aviões, sem cartões de crédito, com modas estapafúrdias e costumes nada brandos. Quando o recuo se dá até aos tempos dos dinossáurios, a coisa perde algum encanto…

    Há o regresso ao regime alimentar paleo (uma deriva do regime crudívoro, é crível). Os seres humanos no Paleolítico não tinham diabetes, colesterol alto, doenças cardiovasculares, obesidade, cancros, doenças neuro-degenerativas e enfermidades que tais, ditas de civilização. Abusavam da fruta e chegavam-lhe forte nos tubérculos, frutos secos, raízes e legumes; carnes magras, peixe e marisco também marchavam, quando estavam à mão de semear. Caprichosamente vivia-se menos, à altura…

    Há memória daquela cena galharda dos militares da guerra colonial que, por alturas do Natal, enterrados em saudosismo das cebolas do Egito, mas cedentes à propaganda da conjuntura que os empurrava ao sacrifício, de baioneta encostada às costelas, ajuramentavam que tudo ia bem «no reino da Dinamarca». Disso davam testemunho a pais, mães, filhos, filhas e restante família. O estribilho nunca mais será esquecido: «adeus, adeus até ao meu regresso»! Se aquilo não era reconfortante!

   Há, no presente, o regresso aos mercados secundários da massa (a hierarquia dos mercados é um busílis), um feito de governantes que embicaram para o reviralho dos bolsos dos ostracizados pobres governados, sem dó nem piedade. Ainda ribombam os foguetes, os petardos, o fogo-de- artifício, cobrem-se os passeios de confetes e serpentinas, ecoam vuvuzelas, apitos, mailas buzinas. Saiu algum na raspadinha, no euromilhões, na lotaria, no joker, nas apostas dos jogos de futebol, na quiniela das corridas de cavalos, na luta de cães ou grilos? Não, mas saber que os mercados nos amam é um bálsamo para os sacrifícios arrancados sob coação aos bichos-caretas alistados e comprometidos na redução da despesa e no aumento da receita. Traduzindo em miúdos, a partir de agora os mercados (caso a corte suprema não levante ondas) dão uma caixinha devidamente certificada ao pobre esmoler. Diz-se que há pedintes capazes de tudo, até de amealharem cruzados suficientes para mandar fazer aeródromos, vias rápidas, portos de águas profundas e estudos para prospeção de minérios, ouro negro e novos mercados.

  Com a evolução na continuidade e saudade do pelintrismo, perfila-se o regresso às origens. A regeneração, numa palavra (uma despesa pública a ultrapassar 120% do PIB promete, finanças de lixo também, pressões sobre a corte suprema idem-idem, aspas-aspas)! Afinal, a independência financeira não é um mito, da mesma forma que já se apanha moscas com vinagre ou rabos de bacalhau. A regressão - marinha que seja – está em marcha.

 

 

 

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