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oitentaeoitosim

02
Fev13

Escurinho

Jorge

 

   (Faz-se filas nas cantinas, nas padarias, junto às caixas dos supermercados, junto aos guichês de aquisição de bilhetes para espetáculos, nos cafés apinhados, junto a instituições do Estado, etc... Dá-se golpes - desprestigiantes para as vítimas, laudatórias para os fautores - nas bichas. As máquinas de senhas vieram morigerar esta pulsão, mas as velhas fileiras permitem troca de ideias, facto cada vez menos comum por aqui e por ali).  

---------------

 

    Uma alma circunspecta chegou-se a uma fila de autocarro e põe-se a cirandar por ali, feita basbaque, sem nela tomar lugar. O senhor não dirige qualquer saudação, não passa cartão a vivalma, limita-se a ficar por ali, impávido e sereno, como quem não quer a coisa.

- Olhe, amigo, o fim da fila é do lado contrário, tá a ver? – avisam-no cordatamente, não vá haver mosquitos por cordas.

    E ele que nem tuge, nem muge, a fazer ouvidos de mercador, atitude que merece murmúrios de desaprovação.

    Chega a camioneta e o senhor macambúzio esgueira-se e faz terceiro lugar.  

- Oiça lá, o senhor não respeita ninguém, não esperou pela sua vez, está a fazer-nos de parvos, a gozar com a nossa cara, é?! – tartamudeia uma  sénior que sofre muito com as varizes aperradas nas suas pernas.

- Cheguei cá, há quase uma hora e não vi vivalma aqui. Dei uma volta e comprei o jornal para matar o tempo. Está ali fora um senhor que não me deixa mentir.

- Estórias da carochinha, balelas! Lá prosma tem você (mau, já não é senhor!) – insurge-se outro ancião a contas com a gota.

- Quem diz a verdade não merece castigo – replica o fautor da confusão.

  Cavalo manco não trota, mas a animosidade não está aleijada.

- Pelo menos sentava-se nos bancos de trás, mas não alapou-se num assento junto à janela, próximo da porta, o melhor de todos. Está à espera que alguém se roce em você? - Atira-lhe uma donzelona senhora dos seus direitos.

- Venham desbancar-me, se forem capazes – desafia o réu, de má catadura, com os azeites em ponto de ebulição.

- -Olha, (já chegámos à Madeira?!), sabes que mais, vai mas é para a tua terra, seu cara de cú, vocês lá não têm nem autocarros, nem filas – escarrapacha-lhe na cara, sem resquício de caridade cristã uma tiazinha.

- Tem piada, sou preto, mas nasci aqui – finaliza o senhor a quem todos apontavam o dedo acusador.

    Agora, aguenta-te à bronca! Há caras que se põem de banda, outras de asno, outras ainda de caso, outras assim-assim. Há quem assobie para disfarçar o enleio e há quem meta os pés pelas mãos. As expetativas voltam-se para o motorista (farto daquela confusão, esteve para os pôr todos no olho da rua, mas mordeu a língua a tempo). Alguém sorria para dentro, muito a gosto (tomem que já almoçaram!)

   A tensão quebra-se com a chegada de um passageiro retardatário.

- Olha-me, o Zé Escuro! A gente ficou de se encontrar na paragem seguinte, não foi? Como de costume armaste-te aos cágados, vê-se! Desculpem lá qualquer coisinha, ele não está a bater bem da bola, por conta dos ventos sujos que sopram não se sabe donde.

   Sentam-se lado a lado e saem na 2ª paragem, a camioneta mais aliviada. À saída encontram outro amigo, trindade completa, 3 da vida airada. Saudações contidas, alguma pilhéria e logo zarpam para um vetusto prédio público. Era janeiro e chovia que deus dava e eles 3 de sapatinho branco.

   Outra fila (isto já parece os países do lado de lá da cortina de ferro, porra!),monitorizada por um segurança apessoado, calmeirão, com pinta de estar habituado a desmandos de discotecas. Todos avançam direitinhos que nem círios, o respeito é muito bonito, ninguém passa a perna a outrem.

   De senha na mão, os 3 amigos do coração, assentam arraiais numa tasca manhosa das redondezas, a fazer tempo, fartos de negaças do mesmo.

- Então, Zé, alinhaste, sem piar, como manda a sapatilha! Quem diria?! - puxam por ele.

- O desemprego tira-me do sério, que querem?! – desabafa, zonzo e folgazão.

- Põe-te a pau que os afros são apontados como indutores da má situação – sentenceia o primeiro amigo do peito.

- Sabes que mais?! Vocês são possessos do racismo e acabou-se a conversa, como os almoços grátis - volve Zé.

- Isto de respirar todos os dias ar poluído pode laquear a massa cinzenta dos opinativos – volve o 2º primeiro amigo do peito.

- Já as classes e as castas, não fazem escumar as boas consciências. O diminutivo duma palavra sim! Vão pôr-se num porco! – finaliza Zé.

- Mas, deixem fermentar as uvas - finaliza o 2º amigo do peito.

  Quando pensam que já deveria ter chegado a sua vez, voltam ao prédio gasto e ancilosado e dão com o nariz na porta.

   Separam-se taciturnos, com vontade de estrafegar a má sorte de terem de amargar as passas do algarve, por conta de SEXAS incógnitas, mas receosas de exibir os trombis. 

    Amanhã é outro dia e contam voltar ao ministério público, onde se propõem apresentar queixa contra pessoas incertas, que teimam em fazer-lhes a vida negra (tanto pontapé até ferve!) Será desta?

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