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oitentaeoitosim

06
Fev13

Uma manhã televisiva

Jorge

. A coisa arranca com a entrevista 1001 do senhor que cria e recria espetáculos estilo Broadway dentro de portas. Também lá estava a principal intérprete do show. Sorrisos para a esquerda, mesuras para a direita, graçolas ao centro. Conversa mole e muita chinfrineira, numa demonstração de empatia esfusiante com as câmeras. A mensagem subliminar: venham daí gastar uns copeques, temos entre mãos uma criação boa a valer, fala da nossa querida diva, que era um espanto (a publicidade em todo o seu viço e pujança!)

. Uns rapazes e raparigas dão conta de negócios na net, bolsas, malas, sacos, pochetes, polainas, jarros, jarras, molduras e artefactos para bichinhos de estimação, mais da espécie canídeos, estão ali em exposição, ao alcance de quem tiver ducados suficientes. O desemprego é pior que as 7 pragas do Egito, não pode se lhe pode dar tréguas, que a árvore das patacas já secou (não há dinheiro, qual destas palavras não se percebe, pessoal?).

. Surge um friso de homens, pelos vistos, um painel useiro e vezeiro em discutir questões de alto gabarito. Desta feita está em questão o que os homens mais apreciam nas mulheres e vice-versa. Uma mulher prefere olhar em primeiro lugar para a cara? Para os pés? Para os olhos? Dúvidas existencialistas com respostas convencionadas, que as normas da boa ética são para todos, mesmo que em tempos de baixa moral... Que singulariza um homem nas mulheres? A cara? As mãos? As virtudes? Quem não duvida, nada sabe!… Em tempos pós-modernos, cuidava-se que as mulheres olhassem mais para o bigode, para a barba, para o queixo dos homens e que os homens olhassem mais os joelhos, os tornozelos e orelhas das mulheres. Pelo menos à socapa, era assim que se agia. Era e é!

   Sobre este lancinante tema, fica o registo de 2 tiradas magnânimas: «nas mulheres, só procuro qualidades» - diz um deles, com ar de Dom Juan de trazer por casa. Sem tibiezas, fecha a chave de ouro: «Deus é um ser perfeito; se ele fez a mulher, esta é perfeita». Só podia ser contemplado com uma ovação dos grandes momentos. Assim se fez naquele estúdio.

. Alguém destrava a roda e la busca um afortunado, antes necessitado de fazer muitas chamadas, a ver se os numes sorriem. A maré viva leva tudo… A assistência, contratualmente enlevada, berra histérica um número de telefone. O possidónio apresentante compõe nova tirada de mestre, gozando o pratinho.

. Houve tempo para um debate aprofundado sobre a sabedoria entretecida nos TPC. É uma prática discriminatória: se um progenitor dá uma mãozinha, o TPC sai bem, caso contrário, ó puto, aguenta-te à bronca! O TPC é uma infração aos direitos da criança, estilo homem do saco, bicho-de-7-cabeças. As operações formais, só a partir dos 12 anos podem ser conseguidas com sucesso, até lá os indivíduos precisam de mediador. Às vezes, os jovens de 18 anos não sabem que fazer das suas vidas, quanto mais os de idade inferior. Estes e outros argumentos judiciosos saíram essencialmente das bocas de um psicólogo e de uma profe universitária (intuição e patuá superiores). As crianças ganham hábitos de trabalho («hábitos de trabalho só a meio da adolescência», disparam os opositores). Há interação entre pais e filhos, aquando da realização dos TPC («não há interação coisa nenhuma», idem). O partido do «sim» consegue à tangente formular estes 2 juízos, cheio de sorte (palpita-me que o MEC vai passar a proibir os TPC). Mesmo no finzinho troa, por cima das cabeças, a ameaça: «em tempos de crise, se os pais é que têm de ensinar a matéria aos filhos, acabe-se com a escola» (pública, naturalmente...) Ora toma, embrulha e manda para a terra!

 

(Enquanto este programa decorria, um canal da concorrência debita outro, parecido nos meios, na duração, na interatividade e nas intenções: comida, segredos de bem maquilhar, voluntariado e da vida de um senhor que se licenciou aos 81 anos e mais comida, umas cançonetas e mais do mesmo. Mas não havia prémios para quem telefonasse, já era glorioso poder disfrutar da companhia dos apresentadores… Noutro canal, de grande audiência também, um médico que vai casar pela 3ª vez conta a sua estória («Nosso Senhor disse que nos amássemos), uma senhora donairosa fala da 2ª pele das mulheres, o senhor Futre fala febrilmente da momentosa época de um dos seus clubes preferidos - todos ao que parece- depois falou-se de casos de faca e alguidar.                                                                                                                            

Que não haja dúvida: a telenovela induca, a têvê instrói. «Só me saem duques e senas tristes»…

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