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oitentaeoitosim

09
Fev13

A circunstância do homem

Jorge

«Q’ria que o mundo soubesse/Que a dor que tortura a vida/É quase sempre sentida/Por quem menos a merece»

António Aleixo

 

O sr. Fernando não é homem de muitas falas em público, dá-lhe mais o quebranto para as ações, em privado, terçando armas na busca incessante das boas e tentando despachar as más para o quintal do vizinho, para debaixo do tapete. Deus tem-se aliado ao seu trabalho, é capital que não falha, nem dispensa. Mais, não se limita a apontar o céu, faz por merecê-lo, com a criação e manutenção de boas, pias obras.

O sr. Fernando diz que o povão pode alombar mais e a história está do seu lado. Os chanatos do povo quase sempre foram menores que o tamanho dos pés.  Custa assim tanto, nos tempos que correm, meter de quarentena uns quantos direitos, (são mais que muitos, porra!), se o bem comum se encaminha para o ralo?! Não faz sentido bloqueios de viaturas oficiais, arremessos de ovos, tomates podres, farinha, água (no carnaval vá, que não vá…), a austeridade é necessária à assunção do status quo e à ressurreição das finanças. Um bom cristão não foge necessariamente ao massacre do próximo; o céu, máxima compensação dos oprimidos, conquista-se no sofrimento.

O sr. Fernando diz que, os sem-abrigo alombam forte e feio e não desistem (os gajos são uma caterva de madraços, isso são!) Por que raio há de queixar-se quem tem ainda acesso a cama, pucarinho e alguns bifes (cambada de panhonhas!)? Ninguém gosta de ir malhar com os ossos a um vão de escada, a uma gruta, a uma barraca, a um arco de ponte à nossa espera, tá certo, mas a vida que nos vem do alto é para ser levada às últimas consequências. Ponham os olhos no sem-abrigo que voltou ao quentinho dos braços do pai milionário e do milionário sem-abrigo. Enternecedores! Deus tem mais para dar do que o diabo para tirar!

O sr. Fernando diz que não proferiu palavras ofensivas, pelo que não tem de submeter-se a penitência alguma, prestação pouco consentânea com os ensinamentos adquiridos com o leite materno (se um justo peca 7 vezes ao dia!) Olha-me estes camaleões a fingirem que o dinheiro não conta, as pessoas é que sim!... Ficam de cú na mão, se a carteira não lhes cheira a notas novas, até me viriam comer à mão! Andam para aqui armados aos cucos, vejam só a latosa! Eu lhes digo, quando me vierem pedir batatinhas! Querem virar o bico ao prego, a mim são devidas desculpas, eu que amassei grande fortuna, para honra e glória do meu povo, amem!

O sr. Fernando ficou agoniado por pressentir que estava a ser vítima de auto de fé, em pleno senado. Ele até tinha vindo ali para falar do seu sucesso, de lucros assombrosos. Pronto, saiu-me a fava, estes fedelhos e velhos bacocos a azucrinarem a minha paciência, a moerem o meu juízo! Quem se julgam eles?! Vão marrar com o comboio de Chelas! Eu digo o que me dá nas ganas e não é qualquer zé-dos-anzóis a tapar-me a boca. Vejam só os pedantes, armados em carapaus-de-corrida, como se tivessem estatuto fiduciário e moral que lhes permita mostrar cartões amarelos a quem deveriam fazer mesuras! Dá Deus nozes a quem não tem dentes…

 

(O sr. Fernando passou-se, cometeu um chorrilho de pecados mortais. Irá à barrela, a confissão com  frei Tuck, assunto arrumado. Parece que não obterá mesmo perdão por se ter metido com o ordenado de Jesus, sem se desbarretar. Presunção e água benta…)

 

 

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