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oitentaeoitosim

21
Abr13

A crise dá para todos

Jorge

- Zé, vai à janela e diz-me o que vês.

- Um mar de gente, chefe.

- Quantos?

- Largos milhares, chefe.

- Gritam, apupam e chamam-me nomes feios?

- Vão a caminho do estádio da bola, fazem um charivari dos demónios e gritam impropérios, chefe.

- Lindos meninos, assim-é-que-os-quero, reguilas, mas coactos, sem deixar pupu fora do penico!

- Gritam contra a federação, contra os árbitros, contra os simpatizantes do adversário e contra a mãe deles, chefe.

- Melhor que isso, só as marchas-ó-filambó, o doce pipilar dos rapsodos românticos e similares e  as práticas animistas.

- Assim é, haja quem mande e muitos mais que obedeçam, chefe.

- Liga-me ao Macedo.

- Está tudo a correr sobre esferas?

- Tudo como os anjos na paz de deus.

- Alguma receita especial para o dia de hoje?

- Não o acompanho… Ah! Bastou pôr nas ruas uns quantos com colaboradores de viseira, bastão, olhar durão, pé e mão ligeiros.

- Aos díscolos estúrdios dá-lhes que contar, mesmo que sejam todos!

- Não o acompanho … Pois sim, porrada nos que refilarem, tá garantido pela constituição e até o Tribunal Constitucional nada diria.

- Lagarto, lagarto, fecha a matraca, Macedo!

- Por quem soides…

- Liga-me ao Maduro, o de cá, não o bigodudo da Venezuela, topas?

- Portaste-te à altura no briefing, ó maçarico, sorte de principiante, não achas?!

- Quer que faça um lifting, vou já tratar disso. Nas pudendas partes ou no espinhaço?

- Ouve, não brinques em serviço, já bem bastava do teu antecessor a metade…

- Sou todo ouvidos, mas antes, deixe-me aqui abrir mais uma porta. Pronto, obra feita, chute!

- Vê lá como falas. Só para confirmar, lá no briefing, falaste em consenso com aquela gentalha do largo do Rato 9 ou 12 vezes?

- Acho que foram 9+3, à dúzia é mais barato.

- Altamente, em tempo de crise, o barato é bom, seu malandreco!

- Conseguiste fechar-te em copas e não falar da porrada que a gente preparou no corrilho. Espremeste-te bem, aprendeste mais depressa que nas novas oportunidades, irmão!

- A minha boca é um moimento, quando é preciso. Agora vou ali empurrar mais uma porta. Acha que posso ser um novo Santana, chefe?

- Alto e pára o baile, para derriço, basto eu e só faço olhinhos de carneiro mal morto à patroa, que fique bem entendido!

- Já cá não está quem falou…

- Liga-me ao Tó, Zé.

- Alô, daqui é do inimigo, podia chamá-lo?

- Não tenho tempo para perder com brincalhões. Tenho mais uma carta escrita, para ti, cara bonita, não tenho por quem a mande.

- Ó Tó estavas a escrever para mim, mas que subida honra!

- Lê e vê se te consolas, estive a copiar Bocage e logo vês como elas te mordem!

- Ó amigo de curta data, vamos tomar um shot que logo te assume a vontade dos consensos.

- Consenso a tua tia, andaste a falar com a troica, com o tipo dos submarinos e com o padeiro, antes de mim e só queres terminar o mandato!

- E não me venhas com essa treta da fome, que no meu sacrificado país não há fome, óviste.

- Andou uma pobre mãe a criar um filho para isto! Sabes que mais, vai lá ver se chove na eira e se há sol no nabal!

- Então, até já, ó magano, nunca me enganaste.

- Liga-me ao Demétrio.

- Diz-me lá rapaz, como estão as estatísticas?

- Reformas: 1001; medidas de austeridade: 50 medidas de austeridade (as mesmas, para os mesmos); défice estrutural e o nominal: 500 melhorias, cantinas sociais: quase 1001 (só 62, em 2011, que vergonha!); mortos à revelia das medidas do 1º programa: incontáveis; humilhação, frustração e desespero, idem.

- Tudo razões para querer continuar, não achas, Zé?

- O tempo está melhor, de facto, chefe.

- Liga-me aí à Ângela.

- Meine liebe, achas que posso mandar malhar nos fanáticos amantes da bola, continuar com o Maduro, falar com o Tó e dizer que a gente está bem nas estatísticas?

- Ó quiducho e interrompes a minha sessão de fotografias oficiais, por questões de lana caprina?!

- Entschuldigung, mas não seria melhor que o seu parlamento se pronunciasse?

- Ja, mas agora, ó seu filho das malvas, desampara-me a loja ou põe-te à caça de gambozinos com a tua pandilha, num mínimo durante as próximas 11 horas, fazes de sendeiro, que para cão de fila reprovas de certeza. Próxima foto!

- Vês, Zé, sempre disponível para ajudar,

- Mas ele deu-lhe com os pés, chefe.

- Não te acompanho, ó gusano

- Já cá não está quem falou, chefe.

(Silêncio sepulcral, só interrompido por acordes de músicas derramadas da voz de Tonicha, «Não vás ao mar, Tonho», e «Tu és o Zé que fumas», em particular, ao fundo)

 

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