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oitentaeoitosim

05
Mai13

Ar condicionado

Jorge

Asdrúbal (que vivia num delta) tinha ido à deita, a madrugada já se instalara. Levanta-se cedo, não porque lhe tivesse dado a espertina, mas por convicção na ancestral sabedoria que promete crescimento perene a quem cedo erguer. Salta do tálamo e encafua-se na casinha, para as abluções e ablações higiénicas da praxe, após uma noite de concentradas libações. Era um páter-famílias respeitado e que se dá o respeito, primeiro a levantar-se, primeiro a tomar o pequeno-almoço - preparado pela consorte - e primeiro a pôr o pé fora de casa, primeiro a embarcar no popó que o leva ao local de trabalho. Chefia um departamento público, onde é tido por persona grata por todos, tal o seu desvelo. Um homem de sorte!

De ciranda pela cozinha, pela sala, pelo quarto do filho, abandona-se ao conforto do ar condicionado, sempre. Se a humidade e a temperatura ambiente porfiam em tropicar o conforto, recorra-se à tecnologia, para tanto foi ela criada.

Não abandona o lar, sem ter a certeza que tem embarque imediato no ascensor, também este munido de dar condicionado. Estará na cave, dentro de 60 segundos, onde se encontra o popó, com motorista às suas ordens. Instala-se no banco de trás e no conforto do ar climatizado lá vai cumprir o turno da manhã. Almoça em restaurante abastecido de ar condicionado topo de gama que espalha conforto arrepiante. Lá volta pela tarde ao seu mundo e no regresso é mais do mesmo: ninguém o demove do recurso ao ar que lhe mitiga a vida.

Um técnico de saúde já lhe diagnosticou dependência ventilativa (distinta da sua tendência de meteorizar)). E não há rinites, pneumonias ou outras doenças do foro otorrino que se metam com ele.

Um dia, perguntado, no escritório, em dia de onda de calor abrasador, sobre o clima local, atestou que fazia sempre bom tempo.

 

 

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