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oitentaeoitosim

02
Jun13

Sair melhor que a encomenda

Jorge

A Tibúrcio eram indiferentes as moscas, pelo que mal algum lhes fazia e ninguém o temia, ou levava a mal (um paz d’alma, assim é que é).

Num belo dia passa-se dos carretos e adeus minhas encomendas. Mais tarde haviam de fervilhar desencontradas versões sobre este acaso; a mais especiosa, posta em discurso terso, consubstancia a correlação dos antecedentes e subsequentes com a baixeza dos valores das temperaturas estivais, por comparação com as normais da época.

Ei-lo numa curva de uma autoestrada de fartos pórticos, à coca e logo manda estacar a primeira viatura que se põe a jeito. «Mãos ao ar» - faz acompanhar uma diatribe com 2 tiros também para o ar. Priscilo, homem de maquias e capitais grossos, um páter-famílias à boa maneira do burgo e amante de folguedos abraseados e nada experimentado nestes assados, afrouxa e amouxa.

A família nuclear do refém, pouca afeita a estes assados, é avisada por pombo-correio (acaba assado, à guisa de vindicta), paga e faz-que-não-bufa, mantendo os agentes da autoridade (espionagem e contraespionagem incluídos) longe do cenário de operações.

Priscilo, insonte, é atirado a covil improvisado e insonorizado, onde permanece muito tempo insone, alimentado de sobras, raspas e migalhas. O autor da proeza ata-o, de pés e mãos, com cordame e nós de marinheiro; por isso- avalia o detido - cavar dali-para-fora seria um bico-de-obra, questão arrumada. Em dias de céu carregado de nuvens, tem direito a tabefes de criar bicho, a privações de necessidades primárias e a pau no lombo. Má-sorte a dele ter embicado para aquele itinerário, para encurtar distâncias e razões com um cliente de velha data da empresa de um compadre para quem tem vindo a trabalhar denodadamente, que nem um escravo. «Eu, porquê?»

O constrangimento vai em semanas, quando se esgota o pecúlio a Tibúrcio. Este, numa operação overnight prepara segundo round forçado. Contactada a família de Priscilo, por pomba-correia (acaba em guisado e nem as penas escapam, marcha tudo), ela recorre ao contado remanescente, a joias depositadas em cofres de bancos, aos porquinhos, a divisas postas a resguardo em colchões, a depósitos bancários dos reformados consanguíneos e ainda a ajudas da junta de freguesia, do município, da bolsa alimentar e de ONG e IPSS, no arredondamento do montante exigido. Tibúrcio bem que tinha avisado: ou vem o graveto, ou eu despacho-o, racho-o!

Não é necessário, sim as autoridades ficam ao largo (só à autoridade tributária se apercebe que ali há gato, que Priscilo nunca dantes se havia atrasado na entrega da declaração de rendimentos, o que até dá jeito).

Priscilo, já mais conformado, vê reduzir-se a liberdade de movimentos e a ração; amplia-se a malhação, a reclusão e a delusão. Julga ver uma centelha ao fundo do túnel que tinha começado a escavar, mas tratou-se de miragem.

Noutro belo dia, o sequestrador liberta o sequestrado, feito num 8, na mesma curva da mesma autoestrada, de pórticos a dar com um pau. Uma comissão de voluntários, dinamizada por gente de coração ao pé da boca, tinha-se batido, com sucesso, pela libertação de Priscilo. Soube-se mais tarde que a dita comissão havia contado com o empenho de Tibúrcio que continua pachorrento, a fazer das dele, por aí.

 

 

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