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oitentaeoitosim

14
Jun13

Ouvi ou li (III)

Jorge

Sapatos de defunto

O senhor governador disse que os donos das sapatarias da rua Augusta não podem dar-se ao luxo de calçar os pés-frescos que se pavoneiam em frente às montras das suas lojas. E completou a metáfora: assim também a banca só pode reabastecer os cofres das empresas que forneçam garantias de que os suprimentos e interesses a boa casa volvam. É que, nos tempos que correm, um passo em falso pode ser um passo para o cadafalso, um par de botas difícil de descalçar. Falou bem o senhor governador, apesar de estatísticas – feitas sobre o joelho – apontarem para um conjunto vazio de pés-descalços. Palavra de senhor!

Sexo neutro

Zé tinha nascido homem e assim ficou registado no cartório – esperava-se -, per saecula saeculorum. Não foi o caso, porque veio a sentir-se menstruado e fez-se mulher. Estando as coisas neste pé, quis corrigir o registo. Fez finca-pé neste propósito original: o seu passava a ser sexo neutral. Por que nunca em tal ouvira falar, o funcionário escalado, pediu explicações. Zé exibiu montes de certificados, o que não demoveu o zelote. Que fosse pela sombra – aconselhou o manga-de-alpaca. Foi este chamado à pedra, por conta de queixa apresentada no livrinho de reclamações; daí ao Limbo das Requalificações foi um passo. Frequenta atualmente o hieropeu um estágio sobre a desenvoltura transsexual, sendo que lhe está prometido para breve a integração numa dependência estatal, locada no cú de Judas. Nem sempre a sorte é marreca!

Mau ambiente

O puto disse num intervalo de uma aula que tinha mau ambiente em casa. A conversa chegou aos ouvidos da diretora de turma e ao diretor do agrupamento de escolas da zona norte e sul da grande metrópole. Foram desencadeados os procedimentos adequados à situação. Chamada a encarregada de educação, a mesma confirmou a sina. Procedeu-se às mesuras exigidas pela profilaxia social. Ficou confirmado: havia mau ambiente dentro de casa, por conta de químicos baratos dos detergentes, ambientadores, conservantes, CFC, perfumes e outros produtos voláteis não identificados, que mais tarde soube-se corresponder a chulés e ventosidades. Também abundavam CFC, tão esquecidos nos últimos tempos, porque os buracos do ozónio já devem ser tantos que não vale a pena falar mais deles, é como falar dos malefícios dos popós, dos OGM ou da desvergonha de nomear um governante que ajudou os patrões a se governarem. Procedeu-se à desinfestação geral da área. Há males que vêm por bem!

Contratos de futuros

O artista aconchegou-se familiarmente dos microfones e falou grosso. Armado em faticano, vaticinou que a greve podia ferir de morte o futuro necessário da juventude hodierna. A sua preparação não pode ficar tolhida pelos seus mestres e pela espiral grevista que estão a preparar, (que vão preparar aulas) ou teremos de futuro uma infância desvalida e não futuros radiosos. Confessou galhardamente que tinha consultado a opinião abalizada de 8 profissionais da leitura do futuro: uma cigana de feira, uma bruxa, um xamã, uma rezadeira, um tiromante, um mago, um rabdomante e um teímante e que todos eram contra as intenções dos descendentes dos antigos usuários de ponteiras e de meninas-de-5-olhos. Porque o futuro a deus pertence, propôs, entre 2 piruetas, que se rezasse durante 3 dias e 3 noites, os rosários propiciadores da intervenção divina. Disse claramente dito que não se brinca com seres indefesos, quando sobre as sapatorras (já não tinham conserto ou concertação) caiu uma chusma de ossos arremessados por um grupo alargado de pais duplamente desempregados. Tropeçou e malhou com os ossos no chão. Recobrou a tempo de se sobraçar a sanfona, à qual arrancou uma ária deslavada. Não há pai para ele!

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