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oitentaeoitosim

15
Jun13

Setores

Jorge

- Zé, vai à janela e diz-me que vês.

- Vejo muitas professoras e menos professores sobressaltados, chefe.

- Mas afinal, que querem eles, Zé, dá para perceber à légua?

- Querem pôr um travão à erosão continuada das suas carreiras e dizem que o chefe lhes quer comer as papas na cabeça, com mais trabalho, menor ganho e mais despedimentos.

- Nada disso, fui claro ontem, hoje e sê-lo-ei amanhã: apesar dos sacrifícios que o povo tem feito de ânimo alegrete próprio de pobrete, ninguém vai para o olho da rua.

-Trazem cara de poucos amigos, gritam que o chefe esconde trunfos nas mangas, nas peúgas, na cinta e debaixo da mesa e que vão às greves, chefe.

- Cá entre nós que ninguém nos escuta: por mim só ficavam os profissionais efetivos competentes, com mais trabalho e menos tustos (ganham uma pipa de massa!), que a malta sem vínculo não tem ainda estatuto. Está por decidir se não ratamos nos currículos.

- Cautelas, chás e caldos de galinha nunca fizeram mal a alguém, ao que dizem, chefe.

- Ouve lá, Zé, vai ver se eu estou lá em baixo. Tás aqui não tardas em ir tirar senha para a bicha do centro de emprego ali da esquina e eu não te acompanho.

- Equívoco, chefe, é os profes que o enunciam em cartazes. Pessoalmente como o chapéu que ainda vou comprar se o chefe falhar à palavra, é tiro e queda!

- Assim estamos melhor, isso é música para os meus ouvidos e bálsamo para as minhas dores do lumbago, da espondilose e de espinhela caída!

 - Os docentes dizem que o chefe tem um problema com as horas, aumentou as horas de trabalho, vai aumentar as horas da componente letiva, vai eliminar as reduções do horário de trabalho…

- Que é lá isso, sou da geração que usava relógio com ponteiros. A propósito, não me ficava mal mandar este a conserto. Tratas disso, Zé?

- Eles dizem, com sua licença, que a honra do chefe tem residência fixa na rua da Amargura, logo lhe tiram a prova dos nove, durante as férias.

- Nas férias é que eles deveriam fazer greve, nesta altura é grave, porque prejudicam alunos indefesos cujo maior anseio é ser examinado, Zé.

- Sem faltar ao respeito, há docentes que apregoam que nunca se viu tanta falta de respeito da tutela, desde a sinistra ministra e que o chefe estava a pedi-las, pois só agora se descoseu…

- Fossem eles uma classe que se desse ao respeito e deixavam a greve para 27…

- Também há exames nesse dia, chefe.

- Em menor quantidade e qualidade! Por que razão estes gajos se arrogam de um estatuto especial, como os médicos, os militares, os juízes, não me dirás, qualquer um ensina?! Só lhes falta exigirem as regalias dos causídicos! Ora, o Sol, quando nasce, é para todos.

- Isso é verdade, fecham lojas, fábricas, clínicas, etc. e não há crise, a vida continua. Isto não vem ao caso, mas acha, chefe, acha mesmo que os credores nos vão obrigar a fechar muitas mais escolas do país, ou o país em si?

- Como posso eu impedir tal? O desemprego marca a hora, temos de agarrar as oportunidades, Zé.

- A acreditar nas palavras de ordem, tem faltado respeito às pessoas e também à classe docente que tudo faz por desvelo à classe discente.

- Então que trabalhem de graça, que o amor não tem preço. É preciso ter lata, agarrem-me senão eu!…

(De bons propósitos está o inferno cheio: acometido de um vaipe, o aspone faz brotar da aparelhagem do gabinete os primeiros acordes de «Another break in the wall», dos Pink Floyd, deixando o chefe virado do avesso.)

 

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