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oitentaeoitosim

29
Jun13

Com o mal dos outros…

Jorge

Cena primeira – Chega-se o caporal à frente e compõe a postura de díscolo, a que não falta uma cara austera. O cabisondo, de sorriso contraído, faz mimo, que sim, alinha. Todos os bonzos que povoam o palco da vida perfilam-se, só há abébias para amigos do caporal. O que manda ri-se com seus botões e dá evasão à alegria e ao éteres ruminados e alijados no mais profundo do seu ser, siga o baile. Nos entretantos, trabuca-se muito, pouco se manduca.

Cena dois – Chega-se à frente o caporal e compõe uma face austera, de mistura com alguma blandícia ensaiada, exercita uma chicuelina e avança a passo retesado. O cabisondo, de sorriso amarelo, diz que está nessa ainda, mas aponta os bonzos derreados. O que manda diz que o mal é do malim, que o alinhamento confere; vale a pena trotar a todo o vapor, queimar etapas, porque vencer antigos aleijões custa muitos dobrões e, se há quem não os tenha, que peça uns tostões para o S. António. A cada bonzo seu cubo de açúcar e toca a dar ao cabedal, a salmodiar! Os alcatruzes da nora são postos de novo em movimento, morra quem se arrenega!

Cena três – O caporal, de tez e fácies lívidas, como se tivesse mastigado cera, não sabe onde pôr as mãos, se nos bolsos, se no cós das calças, se no nó da gravata, se no nariz. O cabisondo, de riso extinto, pede explicações e aponta os bonzos alquebrados que não se têm nas canetas. O que manda diz que não tem culpas no cartório, talvez o comodoro sim, ele limitou-se a cumprir ordens, que um homem de honra nunca se acobarda, mesmo que acarrete a desonra de muitos bonzos, com ele não fazem farinha os desordeiros. Realiza-se com grande aparato distribuição generalizada de rebuçados dr. Bayard, que é para tolher as tosses. Porfia-se mais e mais na labuta pela paparoca - outras acessoriedades sociais são de somenos -, ter alguma papinha já chega.

Cena quatro – O caporal não se sabe onde esconder a cara de pau e passeia sem trelho nem trambelho. O cabisondo, de sorriso falimentar, ergue o punho e aponta os bonzos que não se têm nas canetas. O que sempre mandou disse que se limitou a seguir as imposições do comodoro, mas que este lhe disse, por interposta pessoa, que ele também se limitou a seguir as instruções do trierarca – só refocilando em mais do mesmo se afasta a sarna – que as terá ido beber a mandarins sanhudos, ciosos de seus alódios. Foram distribuídos pelos bonzos rebuçados contra a expetoração. O estado geral melhorou, mas pressentia-se que seria sol de pouca dura, uma maré viva em agonia.

Cena cinco – O caporal dá à soleta, de cenho de menino de coro e aponta o comodoro; o comodoro põe-se na alheta e aponta o trierarca; o trierarca põe-se ao fresco, pisga-se à vela toda e leva a arca da aliança, não arca com as responsabilidades, pelo que zarpa rumo ao vento que passa, um ar mau, por sinal. O cabisondo, de sorriso ressequido e ressabiado, põe-se à reza com os bonzos, oram às potestades dos abissos, sem pressas, embora aflitos, que o céu poderá despegar-se a qualquer momento e abater-se à desfilada sobre as suas cabeças. A confeitaria estava de laboração cortada, pelo que não havia maneira de adoçar as bocas ansiosas de carinhos. Pelo-sim-pelo-não havia que remar, às-cegas que fosse. Toma-se novas ordens, que há sempre tosquiadores onde se reúne a ovelhada; oxalá os próximos não se cocem só para dentro e finalmente apontem a porto certo, fique ele à mão de semear, na zona das calmarias ou nos cús de Judas. Assim seja!

 

 

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