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oitentaeoitosim

11
Jul13

Cheirinhos kafkianos II

Jorge

 Em busca do elixir 

    A quinoa foi elevada à glória de superalimento, cada vez mais requerido e consumido nos países mais desenvolvidos, onde os preços são cada vez mais exacerbados. Os importadores e exportadores, seguidores especiosos dos ditames logicistas do capital, acumulam bagalhoça.

    Cayo, um habitante da região de origem, diz que os preços da quinoa aumentaram espetacularmente também na sua terra, que muitos dos pequenos produtores seus patrícios, useiros e vezeiros em remar cada um para seu lado, estarão na iminência de mandar às malvas o cultivo da espécie indígena, por fraca produção e fragilizada competição com os latifundiários convertidos à causa, detentores de alfaias topo de gama e pródigos contactos sociais, dentro e fora de portas. Fragilizados, muitos dos pequenos agricultores, numa atitude de sobrevivência, mudam-se de armas e bagagens para o arroz que não é um superalimento, mas para lá caminha.

 

Remédio santo

   A senhora tinha sido detentora, vida fora, de bons empregos. Num deles, viu-se um pouco embaraçada, pois escasseava o dinheiro de caixa, o défice nominal e estrutural da empresa engordava a olhos vistos, as garantias para novos empréstimos tinham sido reduzidas à expressão mais simples, etc… Para que o barco não desse borda, vai de assinar contratos de empréstimos do baril, CEdB na vulgata escritural (nacional ou internacional) com banqueiros que comiam do bom e do melhor, finos que nem ratos, dados a grandes mocas. Pelo código de honra destas operações, quem estende a mão assume os prejuízos da operação, que o mutuário se reserva para si réditos de leão, por ter a faca e o queijo na mão.

    A senhora assinou CEdB em nome de interesses públicos e de interessados cidadãos - sem lhes dar cavaco, que o exercício do poder, mesmo por procuração dispensa minudências - que teriam de ser pagos pelo erário público, num futuro próximo, fosse a conjuntura favorável ou adversa. Na hora da entrega das livranças, alguém pagaria e não bufaria.

     Anos depois, um antigo procônsul faz constar que tinha avisado o atual chefe da madama (integrada no poder executivo da santa terrinha) sobre os perigos dos CEdB, aquando da passagem da pasta, uma cerimónia protocolar que remonta a tempos ancestrais. A madama diz que nada constava nos dossiês, mas o chefe dela disse que sim, que o antigo procônsul abordara o assunto, à mesa de lauto repasto, razão pela qual nem se lembrava da missa a metade, só quando lhe mandaram a conta calada é que ficou com os papos em pé.

    A vestal fica-se na dela. E manda pagar a 1ª tranche de todos o CEdB (o que tem de ser tem muita força), fossem bons, como os que assinara de cruz, fossem maus, aqueles a que aludia o procônsul balhelhas, exarados e firmados pela malta dele.

   Não tarda, vem a terreiro o patrão atual da inescrutável dama, a tirar castanhas do lume. Fá-la chefe da Fazenda e não se fala mais no assunto.

   Esfíngica, promete continuar a fazer das dela e das dele.

 

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