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oitentaeoitosim

11
Jul13

Matolinho

Jorge

Matolinho

   Era um gaiato reguila, com resposta na ponta da língua, espevitado. Devotado qb às brincadeiras da sua geração e do seu meio, também era tido por especulador nato. Nunca chegaria a descobrir as causas do seu medo desmesurado por cães.

    Gostava de estórias, uma por noite, de preferência inventadas na ocasião. Dispensava heróis, sobre ou infra humanos, fadas, duendes, génios ou coisa que o valha. Se nascessem de uma situação corriqueira, de um momento de tensão, de uma simples elocução, tanto melhor, contadas em tom chocarreiro, era o máximo. Alguém se atreveu a alvitrar que talvez fosse possuído de capacidades cognitivas ímpares, mas disso nunca se certificaria.

    A pieira da asma era useira e vezeira em pregar-lhe partidas e rasteiras que bem dispensava, mas ele já sabia que não se podia ter tudo. Aflito, pela calada da noite, lá vinha o pedido de SOS: «Os fuminhos, mãe» - pedia. Para se tirar de aflições, a mãe lá arrastava o pai para o carro dela, a rabujar, a caminho das urgências do hospital mais próximo, com o pirralho pendurado de todos os cuidados, em busca do oxigénio regenerador. Gostava muito de legos, puzzles e também estava calhado para de jogos com cartas, como confirmaria em convívio com familiares mais velhos.

   Um dia vai à varanda do apartamento e boquiaberto, dá de caras com uma luzinha ali a bruxulear no escuro. Pirilampo? Estrela? Um pirilampo é menor, uma estrela é maior e não lucilizia assim. Seria antes um raio laser, um ti-noi-nim mudo e perdido? Estica o braço, pronto para a acolher no recôncavo da mãozinha, convicto que ela lhe mediu e vai retribuir o gesto, mas nada, tímido, o lampejo mantém-se à distância. Ouviu, um dia, que a luz se apaga mais depressa do que se acende (afinal, quantos milhares de anos foram precisos para acender as estrelas?), porém ainda no seu alforje razões suficientes para dar crédito a tal.

    Lembrou-se então que tinha ali mesmo, à mão de semear, uma jarrinha chinesa, melhor eram várias numa só; com seus segredos e aprontos, talvez gostasse de ali ficar… Foi buscá-la a toda a brida, a excitação no máximo. Quando regressa ao balcão, a delusão, só a sua sombra se faz notar. Assombrado, ainda ali estaria, caso não o tivessem puxado para dentro de casa.

   Chorou banha e ranho, quando, taxativos, os cotas asseguram que a centelha provinha de um farolim rotativo, assente na carapaça de um carro de recolha do lixo, o popó ixo. Estavam a querer enfiar-lhe uma galga, ainda lhe vão dizer que não passa de um fanal, ou então de uma feiticeira … Aquela luz misteriosa há de ser sua! Onde já se viu uma carripana amarela, tartamuda, engasgada, gerar aquele luzeiro! Não terá sido antes uma ponta daqueles lumieiros do céu que se partiu e veio por ali a baixo à sua procura? E se usasse a rede do peixe peixe-vermelho-que-dá -sorte da sorte do  aquário da sua estimação? Se os peixinhos se deixam enredar nela, talvez que as luzes… Haveria de tentar amanhã. Tá bem, abelha, vou-me deitar, não precisas de repetir 10 vezes a mesma coisa, em estilo de ameaça.

    No dia seguinte lá estava ela, outra vez, a luzinha amarelada, tremeluzente, mais debilitada pela canseira, talvez. Ele parece que cresceu. Sacou da rede, uma tentativa, 2 tentativas, 3... e fica de mãos vazias. Pode lá ser?! Mas, espera aí, aquele é o pó-ixo, não é? Coincidência… Algum daqueles senhores se apaixonou também pela luz, às vezes deitam-se fora coisas preciosas. Deu-lhe para espreitar os movimentos da carripana e dos senhores, a medir os seus atos. De pequenino se torce a vontade de saber.

   Por isso, era frequente a vizinhança ouvir, ao início da madrugada, o grito do Ipiranga: «O pó-ixo!» Alguns dos vizinhos espreitavam pelas gelosias, seguiam-lhes os movimentos e só então seguiam para a deita e dormiam a sono solto. O puto dormiria de um fôlego só, despreocupado, mas desconfiado que muita gente da sua idade não dava importância às luz. Um dia, haveria de tentar saber por que razão candeia que vai à frente alumia 2 vezes.

   A observação durou meses, que ele não era de desistir; se tirassem o cavalinho da chuva os que o julgavam vergar. Chovessem picaretas, houvesse visitas em casa, lá estava o puto, à hora certa lá estava a espreitar. Um dia, o carro do lixo não apareceu. Uma desfeita para ele, que se queda desfeito em lágrimas. No dia seguinte a mesma coisa e no terceiro dia a seguir também. Os pais tentam consolá-lo: «talvez se tenha avariado», «houve mudança de horário», «algum dos senhores estará doente». Serviram aquelas palavras de fraca consolação; tristonho ia resistindo ao apelo das brincadeiras e da comida (tinha um travo amargo, não era). A luz já não gostava dele e lágrimas para que vos quero. Porém, como a esperança é a última a morrer, esperava tirar a coisa a limpo, resolvê-la a seu favor, não estava neste m mundo para outra coisa.

    Ao 4º dia, ei-lo de regresso, o «pó-ixo»! Não cabe em si de contente, voa até à varanda e atroa os ares com sentido grito de alegria, havia já vizinhos mal dormidos. Os senhores da recolha, que já o topavam de ginjeira, vão de rir gostosamente. Acenam-lhes, ele corresponde e dali não sai e goza até à última cintilação a atração pirilâmpica, uma gostosura. Nesse ínterim, ouve que falam em greve. «Pois, então é isso, os senhores fizeram greve» - esclarece a mãe. «É assim: os chefes dos senhores da recolha acharam de lhes baixar o soldo. Os senhores não gostaram e pararam o trabalho durante vários dias». «Que maus, esses chefes!» - atirou. Mais tarde veio a saber que uma greve e uma luz, cada qual à sua maneira, projetam luz, como já foi justamente investigado.

    Não vão acreditar, mas ele conseguiu capturar a centelha – ao que se diz um pedacinho da luz primeva -, com a ajuda inefável da rede do peixe e da jarra chinesa (ou oriental?) Consta que também lhe terão valido as borbulhadas indicações do peixe-vermelho-que-dá -sorte, os conselhos dos cotas. Sabe-se – isso sim -  que não foi suficientemente expedito, que deixou escapar um átimo luminoso. Uns dizem que por bem, outros dizem que por distração. Mais tarde, ele haveria de esmiuçar se a luz só se deixa captar a bem e se a vida é uma tocha ao vento, como lhe diziam e ele não entendia lá muito bem.

   Quando não viram o gaiato, por muitos dias seguidos, desconfiaram os senhores da viatura amarela que já estivesse noutra. Perguntaram por ele, que estava doente, que mudara de casa, que mudara de vida, pelo que tinha sido pouco visto nos últimos tempos. Ficaram tolhidos num desconforto só comparável à perda de um ente querido, da ausência da sua companhia benfazeja. Haveria de descobrir, lá mais para a frente, se, de facto, a sombra passa e a luz fica, ou vice-versa (talvez se quedasse pelo estudo do vice-versa).

    Atualmente, quem com ele lida jura e trejura que lhe vê a luz lhe está estampada todos os dias no rosto, tal a alegria; também há aquela centelha marota nos olhos e aquele riso travesso e resplandecente, facto raro nos tempos decorrentes, de reinstalada corrida ao ouro. Ele sabe que nem tudo o que luz é ouro, mas tenciona denunciar, lá mais para a frente, quem transformou a vida em pechisbeque.

    Nunca mais o farolim funcionou, mas não foi substituído, os senhores do pó-ixo a isso se opuseram, depois de terem notado que, todos os dias eram seguidos por um esteio luminoso que, dos céus os segue preclara e teimosamente.

 

PS -  Era uma vez uma cobra que começou a perseguir um pirilampo que só vivia para brilhar.
Ele fugia rápido com medo da feroz predadora e a cobra nem pensava em desistir.
Fugiu um dia e ela não desistia, dois dias e nada.
No terceiro dia, já sem forças, o pirilampo parou e disse à cobra:
-Posso fazer três perguntas ?
-Podes. Não costumo abrir esse precedente para ninguém mas já que te vou comer, podes perguntar.
-Pertenço à tua cadeia alimentar ?
-Não.
-Fiz-te alguma coisa ?
-Não.
-Então porque é que me queres comer ?
-Não suporto ver-te brilhar!

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