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oitentaeoitosim

21
Jul13

Axiónimos*

Jorge

I - Alguns cumprimentos charmosos

- Querida mãe, querido pai, então que tal? – Um formato que não serve apenas para dar música, ou encanto às letras, mas favorece a inteligência emotiva e os laços de parentesco. Já se imaginaram a usar as fórmulas alternativas, caro pai, cara mãe? Então na velhice fica feio para burro, não acham?

- Bom dia (consulte-se o relógio, com antecedência, a saudação termina às 12 h legais), minha senhora, gostou do nosso serviço? – Uma formalidade para clientes bons, aquele possessivo indicando que «nunca te veja a comprar na concorrência». A resposta afirmativa é dos cânones, impõe-se em 88,5% dos casos, esteja descansado que não lhe largo a porta. A versão máscula «meu senhor», cai em desuso, a partir do momento em que os suseranos arrumaram as botas, se armaram em benfazejos auxiliares do regular funcionamento da máquina social (excelência, meritíssimo, dom e doutor são alternativas mais aceitáveis).

- Tem passado bem, vizinho(a)? – Praxe a utilizar só em caso de comprovada vicinidade que pode ser demonstrada pelo comprovativo para estacionamento de moradores. Não deve ser usado, caso nunca se tenha visto mais gordo o destinatário da saudação. «Bem, obrigado (a), é a resposta recomendada pelos sãos princípios de convivência; alternativamente use-se a variante «bem, graças a Deus!», que as deidades rebolam-se de empáfia. Respostas estilo «vai-se indo!», «isto está mal, mas é preciso aguentar, que remédio!», «um dia fraco, outro forte!» e «vai-se vivendo um dia de cada vez» têm o seu cabimento, mas, cuidado, nem aos vizinhos se deve dar muita cúnfia, que os há muito quadrilheiros, sempre a cheiricar (bufos à moda antiga, assim é), sempre na disposição de levar e trazer e de nos deixar mal aos olhos dos outros.

- Diga lá, menina, em que lhe posso ser útil? – A etiqueta assim ordena, se não conhece a moça, a rapariga, a senhora de lado algum, cative, assim fica bem. Mesmo que já não seja menina e moça, mesmo que não queira flirtar, mesmo que a pessoa esteja a caminhar para o lado serôdio da vida, dá bons resultados puxar o brilho, dourar a pílula. Todavia, meça sempre bem as palavras, não está livre de encontrar mulheres sensivas, que não gostam que se lance a mínima suspeita sobre os dotes de atração polínica e aí entorna-se o caldo. Vá pela advertência: a açorda faz a mulher gorda e a menina formosa. A versão varonil caiu em desuso e desconfie se ela lhe é dirigida.

- Quantas camisas deseja, patrão? – Um formalismo que cai quem ginjas, enche as medidas, se dito em frente a uma assistência bem composta, mas cuidado não se abuse muita deste formato, em tempos conturbados, pode ser a expressão errada no lugar errado. Depois pode dar-se o caso do visado estar de candeias às avessas com a entidade patronal e assim não cativa, repele e neste processo dialético você perde. Navegar é que é preciso, cantar a canção do bandido, só na dose certa. A versão feminil não se recomenda, mesmo em tempo em que os géneros se aproximam como as miragens do real.

 

II - Outros cumprimentos, insinuantes, igualmente charmosos  

- O que toma, mestre João? - A fórmula ressuma a resquícios de medievalismo, mas soa bem aos ouvidos de um senior, reformado de preferência e na quietude dos seus dias e/ou profissão. Não são de bom-tom as versões femininas, embora houvesse mestras de catequese e escolares e até maestrinas, mas não soam bem a ouvidos mais sensíveis ou sensibilizados ou sensibilizadores.

- Como tem passado, dona Remígia? – Esqueça o medievalismo da atenção, chama-se a isto jogar pela certa, nenhuma mulher adulta (pelos padrões das formações políticas) desdenha o epíteto. Ter posses é donairoso, ser detentor d’algo dá estatuto social, mesmo que, na prática, não se seja dono de um tostão. Destarte, a prática desaconselha este tratamento formal a quem não seja dona da sua sombra e mesmo assim não fica mal. A versão varonil pode pressupor a posse de um título nobiliárquico, mas tem pouco impacto, pois em regime machista todo o homem é dono de qualquer coisinha.

- Gostou da prendinha, a minha princesa? (morgadinha não quadra tão bem e rainha pode ficar a matar, o que é de evitar) - Gentileza mágica que lhe pode garantir o acesso aos mais profundos recessos do paraíso ou para as imediações do mesmo, desde que a pronúncia e o tom soem com naturalidade e generosidade. Se alguma coisa falhar, adeus minhas encomendas, embarque noutra. Príncipe (mesmo real) é devaneio de horas concupiscentes, de cetro desembainhado, cuidado com os baixos golpes no seu estado.

- Vossa Senhoria, perdoar-me-á, mas é uma pena que abandone o cargo. V. Excelência deu o que tinha e o que não tinha para nos salvar do báratro, mas Vossa Reverência pôs e as circunstâncias dispuseram - Se a pessoa que distingue com a chapelada não fica melindrada, repita a dose sempre que puder, até que largue o cargo e a toga, se você divisa uma  sinecura, para cura dos seus pecados, desmandos, ou sacrifícios. Lembre-se que, na hora em que o corvo se pavoneou e cantou, a raposa ficou com o queijo e a faca na mão. Faça constar que as crises, sejam elas de lágrimas, de nervos, de valores, de emprego ou coisa que o valha, podem ser ultrapassadas com uma procuração acertada, ponha-se a jeito. Seja você a vender os lenços.

- A madame deseja que embrulhe? - Não, não vale a pena disfarçar, o seu cartão de crédito tem pinta, fosse o multibanco roscofe e nada disto se passaria. Pode aspirar ao jet set, se ainda não participou na cerimónia de iniciação. Aproveite, vista logo a roupinha que provou e procure, nas páginas classificadas, o local do chá dançante de beneficência mais próximo, o futuro é promissor. A versão masculina não consta que seja usada para cumprimento de pessoas sensíveis.

- O senhor comendador toma a bica com um travozinho, como só o faz em dias de comemoração? – Você recebeu uma comenda e o empregado do restaurante fino sabe-o. E também sabe que você carrega nos aperitivos, na vinhaça e nos digestivos, mas não lhe põe a calva à mostra, à frente de tantos patrícios, alguns deles pouco recomendáveis. Ele não o alcunhou de bêbado, nem coisa parecida, só está a recordar-lhe que agora tem outras responsabilidades e que as gorjetas terão de subir como os juros da dívida soberana.

 

III - Algumas saudações-padrão

- Senhoras e senhores deputados, senhores membros do governo, senhora presidente, minhas senhoras e meus senhores – Ninguém sabe donde vêm ou para onde vão; não prestam contas aos eleitores das suas circunscrições e são danados por contos do vigário, ou governam como lhes dá na bolha. Não conseguem fugir do mesmo pecadilho mortal, lá para as bandas do capital, por isso cada um à sua maneira interpreta uma parte da mesma liturgia. Depois vem a senhora presidenta e diz: «A proposta foi aprovada com os votos de todos os deputados do partido X, os votos contra do partido W e as abstenções dos deputados do partido Z. Haja pachorra!

- Obrigado pela nota que me deu, setor! – O profe fica de cara à banda, só deu a nota que o aluno merecia. O aluno não estaria à espera? Afinal deu-lhe positiva ou negativa? Não se recorda, não é, eles são tantos…É nestas alturas que convém olhar para a cara do aluno, para perceber se ele está a usar aquele tratamento de gozo, se em atitude de estima. Ou então fica à espera que termine o prazo para apresentação de recursos da avaliação.

 - Como está, senhor doutor? - Adereço equívoco, mas consagrado na gíria das feiras de vaidades e pode percorrer todo o arco das profissões liberais e a todos os cursos politécnicos, universitários, ou mesmo inexistentes. Em qualquer altura pode o genérico ser substituído pelo título a que tem direito a pessoa visada (engenheiro, arquiteto, jornalista, apresentador, etc.). Até que não fica mal tratar uma senhora por doutora.

- O senhor doutor mandou-me tomar estas pastilhas – Aqui não há dúvida, esta é a reserva dos médicos de profissão, a bem portuguesa e seu uso por estrangeiros. Dirigir-se a qualquer portador de licenciatura nestes termos pode ser uma tentativa de os engrandecer o senhor ou a senhora coisa e tal, mas vai contra os bons princípios da preservação da língua e sua divulgação por entre os estrangeiros. Cada vez está mais divulgado o correspondente feminista, tal a supremacia que se adivinha no ofício de Esculápio por parte do «sexo fraco».

- A lição vai ser dada pelo senhor professor doutor Álvaro Tiradentes  – O professor doutor chegou-se ao micro e propôs que o tratassem por Álvaro, que lá fora é assim. Fica mal, amigo, à tribuna vão os titulados, nessa não alinho, tenha paciência! Caso contrário, qualquer dia ninguém distingue um licenciado ou um mestre de um tipo com o 4º, o 9º, ou 12º anos e seria o fim da coesão social. O valor a quem o tem, pelas alminhas! (Cá se fazem cá se pagam, o senhor vai perder o tacho, é o que acontece aos sociais-alérgicos). A versão feminina continua em discussão, parece soar bem, tem musicalidade o epíteto de professora doutora, mas vai demorar muito em ser levada à prática, como o acordo ortográfico e pelas mesmas razões.

 

(Que aconteceria, caso inopinadamente todos desatassem a tratar-se pelo nome próprio, apelido ou cognome bom? Ali vai o Henrique, o Luís, ali vai O Fernandes, o Silva Teresa, ali vai o intelectual, o artista .... Seríamos obrigados ao uso de uma placa identificadora, ao peito?)

 

* Chulismos, catixas, neologismos, tribalismos e estrangeirismos aparte

 

 

 

 

 

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