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oitentaeoitosim

24
Out13

(Condição de) Recursos II

Jorge

Nova ária de novo cedê de uma menina prendada, acabadinho de chegar às bancas de feirantes , uma melopeia de estúrdia que faz troar o ar, a lembrar que os deuses não dormem na forma, que mais tarde ou mais cedo teremos o que merecemos, haja fé que S. Jorge derrotará os mercadores de fígados negros, brancos ou amarelos. Uns senhores bem postos tocam numa sanfona, numa guitarra campaniça e num reco-reco, dentro dos limites do aceitável. Um par de pretensos fraldiqueiros bamboleia-se freneticamente, espicaçados pela sanha de uns quantos ganaus impertinentes e impenitentes da assistência, convencidos que ali está gato por lebre.

Fala o regedor, o cura e o curandeiro, cada cabeça, sua mezinha. Os mercados deveriam pôr os olhos aqui, ficavam curados do lumbago, do bicho-virado e de mau-olhado. Já para não falar das belezas excelsas da zona, 7 estrelas, o turismo fará o favor de nos fazer justiça. Isto vai, meus amigos, isto vai!

(- Olhe, posso mandar um beijinho?

- Mande um, mande mil, mas deixe alguns para mim.

- Quero mandar beijinhos para os meus meios-primos que vivem em Fornelos de Espada para Cima.

- Boa tarde, Fornelenses, de espada para cima – foi assim que disse? - o pessoal aí deve andar sempre muito contente, sou eu a pensar em voz alta. Um dia destes passo por aí a tirar a prova dos 9, pode ser?)

-Estão com vergonha, ou não sabem marcar números de telefone? Já houve telefonemas de todo o universo e você ainda não deu uma para a caixa?! Mexa-se, se quer uns milhares a mais na sua conta bancária, esteja ou não a zeros. Se ainda sonha com a sua vivenda de luxo, com o seu carrinho e crio-sauna à CR7, ligue-nos, olhe que a sorte ajuda os ousados, atreva-se a passear a sogra num destes dias num popó de sonho. O dinheiro não traz a felicidade? Olhe que quem não tem dinheiro não beija santo. Mais, com bagalhoça, língua e latim, vai-se do mundo até ao fim, não é verdade, pessoal (tirem-me estes labregos e lorpas da frente)?!

As câmaras sobrevoam as pessoas que sorriem e acenam esperançadas às câmaras, aqui um pai estraga com mimos o filhote, ali 2 seniores tiram passos de dança a compasso, há brejeirice, feromonas e exultação no ar. «Só nos querem a fazer número» - agita-se um espontâneo. «Vai-te catar para outra banda, isto não é manife, não faz cá falta a malta do contra!» E não fez.

(Não há festa como esta, bora daí pessoal, suar as estopinhas, afugentar os males, dar um pezinho de dança, os pezudos também alinham. Isto não é como nas manifes em que o pessoal anda sempre a passo, à procura do paço.)

 

. Pisou o palco da festança um one-man-show que tocava 7 instrumentos. Faz-se acompanhar por uma arlequim, uma contorcionista e uma equilibrista. Atuaram ao som do Hino da Alegria. E foi uma tristeza constatar que as câmaras focavam lágrimas saídas do canto do olho, provindas do coração. Agora as pessoas olhavam, olhavam e não viam nada de bom agoiro, para lá do horizonte. «Tirem-me deste filme!». Deu-se a debandada geral e até caiu neve, por força do avanço de uma massa de ar frio continental, coisa rara na terra. A maioria retirou-se para o aconchego dos lares que também estavam cheio de ar frio, coisa que nunca sucede nas manifes (o ambiente tende a ser caloroso).

Agora é a vez dos vendedores de azeitonas fritas em azeite, de mel de beterraba, de champôs de giesta e de amêndoas recheadas com elixir da juventude, só que estariam a falar para o boneco, se nas casas não houvesse aparelhos de tevê. Mas, sem os mecos ali à frente, não dá gozo!

Os apresentadores – com cara de poucos amigos – ainda tentam tirar nabos da púcara e coelhos da cartola sobre a uberdade da região (os cartolas e os nababo continuam atrás do pano…), pois havia ainda tempo de emissão a ser preenchido, mas estava feito o mal e a caramunha.

(- Olhe, posso mandar beijinhos?

- Os microfones são seus - cuidado, não os suje! -, as câmaras são suas, a aparelhagem também.

- A sério?

- Rapaziada, toca a recolher o material!)

Muito se tem falado do assalto. Os autores da proeza tomaram posse da aparelhagem, dos emissores de tevê, dos técnicos e dos apresentadores, a modos de como não-quer-a-coisa e ter-se-ão sumido no ar, ou foi um ar que lhes deu.

Já não há só pesadelos a povoar o sono e os sonhos dos indígenas.

 

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