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oitentaeoitosim

22
Ago09

Heróis do asfalto

Jorge

 

  Feliciano é um estudante encartado por vocação e, por mor disso, recusa todas as oportunidades de passar além do nível básico. Um dia perde as estribeiras e despeja tremenda sarrafada nos queixais do energúmeno que o tinha provocado no intervalo entre duas aulas de 180 m. O colega de profissão sobrevive em estado vegetativo durante 5 anos, período durante o qual definha a olhos vistos, até se resumir a pele e osso, pelas vésperas do último suspiro. Tivesse ele aplicado o golpe em cima de um ringue, com um comparsa da mesma idade e peso e ninguém levava a mal. Ossos do ofício, dir-se-ia e ninguém pagava um chavo, azares todos têm na vida. Por isso lhe deram a escolher: a deportação ou o suicídio provocado. Claro que optou pela segunda, a longo prazo. Enjaulado preventivamente numa instituição de bem-fazer, é  condenado a assar leitões e derramar asfalto nas veredas e becos, durante um período probatório de 5 anos. Quanto à indemnização devida, livrou-se de boa, pois se provou não ter lugar onde cair morto. Recuperado do abalo, retoma o lugar na escola, até que cai nas garras das novas oportunidades e chega a mestre em pontes e portos, em 5 anos.
   Tereso, jovem esperança da empresa em que labuta por um cheque verde, abusa dos púcaros e dos fumos num meio-de-semana com amigalhaços e amigalhaças. De madrugada solta a arreata dos muitos corcéis mecânicos do coche eufórico de uma namorada de ocasião e bolina estrada fora. O carro não rola sobre o asfalto, ele é que paira sobre a fita preta do macadame, qual herói provindo do espaço exotérico disposto a entregar de mão beijada a liberdade à humanidade. A cabeça está atordoada de gritos histéricos de pais, irmãos, primos e primas de gema ou adoptivos «Tu és o mais bonito!», «Tu és o maior!». Nisto há um clarão que se levanta na noite escura, uma espécie de sarça misteriosa que se extingue em 5 minutos e com ela fenecem 5 jovens existências. Para mal dos seus pecados, Tereso sobrevive incólume e todos lhe caem em cima. Se as 5 vidas não estivessem de volta, daí por 5 semanas, teria de optar entre a deportação e o suicídio provocado. Escolhe a segunda à primeira, mas a primeira à segunda. Abala desarvorado para a parvónia mais próxima, sobraçando uma mala de cartão. Repete a acção, sem ganhar qualquer arranhadela em mais 5 locais do globo; reivindica e obtém o estatuto de herói.
   Recém-chegado de uma viagem de comboio a electricidade gerada pelo vento, Ambrósio vinha de pôr as pantufas, quando a campainha da porta gemeu. Borrado e intrigado, alcança-a de um salto em comprimento, para a escancarar a 5 indivíduos, enfarpelados de gato pingado, pinguim, iupie, ceo e espantalho, respectivamente. Que fizesse o favor de os acompanhar ao precinto mais próximo. Pois sim, tartamudeou um Ambrósio cor-de-caliça. Fazem-lhe 5 perguntas e tiram a coisa a limpo. Afinal, ele tinha acabado de passar a alfândega da estação central da parvónia sem nada declarar, com documentos do irmão gémeo. Que mal havia nisso, se a prática era corrente nas outras parvónias todas?! Nada de especial, pois. O seu problema, amigo, é que a gente sabe que o seu irmão gémeo acaba de tirar uma licenciatura, um mestrado e um pós-mestrado de engenharia de estrada, às escâncaras, aqui ao lado. Foi então que lhe ocorreu a simpática ideia que as estradas haviam sido abolidas por despacho constitucional. Por isso lhe deram a escolher: a deportação ou o suicídio provocado. Saltou da janela, antes que lhe pusessem a corda do suicídio ao pescoço. Em cima da cama da espelunca clandestina que havia alugado, foi encontrado o «canudo» que certificava Ambrósio com o curso de demolidor de estradas e vias correlativas.

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