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oitentaeoitosim

26
Jul09

A lógica

Jorge

 

 

   As contas públicas estão mal? Receita: aposte-se na solidez da receita do Estado. Como consegui-lo? Da mesma forma que a linha recta estabelece a distância mais curta entre 2 pontos, assim o curativo para este mal é bem linear: arremete-se contra os proventos dos dependentes da força de trabalho. Só estes são capazes de usar o cinto uns furos mais abaixo. As lágrimas de crocodilo não comovem ninguém.

   Não chega? Reduza-se as comparticipações municipais, regionais, nacionais e internacionais nos medicamentos, nas canadianas, pensões, nos subsídios, nos ordenados, nos óculos, nas próteses, nas bolas de naftalina. O mexilhão já tomou  gosto nisso, quando o mar bate na rocha.

   Não chega? Reescalone-se o irs, com pouco alarido, pela calada da noite, com punhos de renda, de forma que os mais baixos passem ao escalão de cima, uma promoção para todos os efeitos. Suprema felicidade essa de passar à frente de outros, sem dar nas vistas. É um garante de superioridade nas discussões de bairro, no que toca a quem é mais quem.

    Não chega? Imponha-se o trabalho por toda a vida, até às portas do paraíso, que o inferno até lá foi vivido. A vida pode ser gasta de muitas maneiras, a mandar, a rezar, a ensinar, a prender, a subornar, a enriquecer. Importa que o seja até se cair de velho. Convença-se os infantes, os púberes e os maduros que os espera a mesma receita. E que a alternativa é a lua por habitar.

   Não chega o trabalho até ao último suspiro? Venham os descontos até ao último estertor, recusa das reformas dá vantagens na linha de partida para a felicidade suprema. Em lume brando, aperalte-se com todos os requintes da poupança energética, da agricultura biológica e da alimentação racional estoutro pitéu: um segundo e mesmo um terceiro emprego que vivificam a felicidade. A alternativa do subsídio de desemprego até ver deverá ser colocada de parte, por razões de sobrevivência nominal.

    Num dia destes, deus porá na mão de possidónios possidentes máquinas pensantes capazes de gerar automaticamente todos os dividendos. Então, mais se clamará contra os excessivos excedentes de terráqueos deserdados pela tecnologia. Valerá a pena ser decretada a igualdade entre os supervenientes, cuja existência escorrerá para todo o sempre, sem défices.

 

   Dias de Melo pôs na boca de uma das suas personagens isto: «Em todo o mundo são escravos dos homens os homens que trabalham por conta de homens».

 

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