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oitentaeoitosim

06
Jun10

Abyssus abyssum invocat

Jorge
Escreve a bom escrever o bom do coelho numa tarde soalheira, recostado a uma tília frondosa que prolonga uma sombra cobiçável. Eis senão quando ladino raposo, dominador de vastas fazendas, se aproxima em pontas de pés, acabadinho de sair da sessão de balé. Pelo canto do olho, o roedor apercebe-se da manobra de ciranda e do destino que o canídeo lhe quer traçar. Aguenta firme a investida o presumível pitéu. Diz o carnívoro, usando uma estratégia viperina: - Olá, coelhinho aplicado! Que fazes? Em tom preclaro, vem a réplica do herbívoro: - Escrevo a minha tese de pós-graduação. - Pode saber-se que tese é essa? – reponta o do regime carnívoro - «Os coelhos são predadores de raposos e espécies correlativas» - esclarece o do regime vegetariano. Rebola-se de tanto riso o canídeo, ao ponto do seu pêlo vermelho mudar para castanho e vice-versa. Jactante, aconselha: - Não vás ao médico não! Ao conselho o leporídeo responde com um convite. - Vem à minha toca e aí encontrarás as provas irrefutáveis que tenciono apresentar. Impante, o raposo segue as pisadas do coelho, até ao tugúrio. Palavras ainda não eram ditas, solta-se o assombro e segue-se, por esta ordem, o desossamento, o último requebro, a degustação de carnes requentadas e as eructações sucedâneas a uma opípara refeição. Da lura não sai mais ninguém, a não ser o coelho, embevecido, de orelhas espevitadas, pronto a retomar a tarefa interrompida. Põe-se de novo a escrever, desta feita, à sombra de uma bananeira de jardim, na tarde que se põe ventosa. A pituitária alerta-o para o andar gingão de uma loba, possuidora de imensas fazendas e possessa de grande curiosidade sobre cunicultura e suas aplicações culinárias. Vinha mesmo a calhar o petisco, ali armado em intelectual. Em jeito de meter conversa, arrota em tom marialva a leporina criatura: - Olá, coelhinho aplicado! Que fazes? Vai daí, em tom de falsete estudado, responde o semeador de caganitas: - Escrevo a minha tese de pós-graduação. - Pode saber-se que tese é essa? – responde o do regime carnívoro. - «Os coelhos são predadores de lobas e espécies correlativas» - esclarece o do regime vegetariano. Saracoteia-se de puro gozo a canídea, ao ponto de sua pele negra mudar para cinzenta e vice-versa. Ciente do seu poder encantatório, arremete em tom persuasivo: - Erros de médico a terra os cobre! Ao que o leporídeo respondeu com um convite. - Vem à minha toca e aí encontrarás as provas que tenciono exibir. Enfarpelada na sua prosápia, a loba segue o coelho até à lora, iam já as cataratas salivais em processo de erupção. Palavras ainda não eram ditas solta-se o assombro e segue-se, por esta ordem, o desossamento, o último requebro, a degustação de carnes requentadas e as eructações sucedâneas a uma opípara refeição. Da lura não sai mais ninguém, a não ser o coelho embevecido nas suas orelhas espevitadas, pronto a retomar a tarefa interrompida. Ao lusco-fusco, uma sombra esgueira-se a muito custo da toca. Pelas pilosidades da venta e pelo garbo magnífico, dir-se-ia bicho caudado; pela imponência descobre-se o estilo leonino de grande orientador de teses hagiográficas. Em gesto magnífico, palita os dentes, enquanto atira ao aterro as ossadas e as peles sanguinolentas dos predadores pouco precavidos, enquanto balbucia um sentido «paz às suas almas»! Tivesse moral esta estória e ela não diria: 1 - quem não quer ser lobo não lhe vista a pele; 2 – raposa de luvas não chega às uvas; 3 – se seguisse os conselhos da raposa, o leão seria astuto.

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