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oitentaeoitosim

24
Jun10

Vieram ao engano

Jorge

    Juntou-se uma multidão amedrontada paredes meias com as portas do sacelo. Os promotores venderam uma catréfia de bandeiras, bandeirolas, bandoletes, efígies, tríquetros, cêdês e vulgatas com autógrafos e apógrafos. Considerando que os potentados celestiais não se apoucam com questões de lana caprina, imprecavam os circunstantes a evasão às crises estruturais, conjunturais, mensais, semanais. Esgotaram-se incensos, rituais de agradecimento, profissões de fé, novenas, renovação de votos, desfiles de bandos precatórios, sessões de autoflagelação pública e até casamentos indiferenciados. O sumo arúspice revelou, em vernáculo dialecto local e tom laudatório, a última versão sobre as verdades absolutas e as relativas à predicação, à missionação, à pederastia e às fugas para a frente. Estava-se nisto, quando os céus se abriram e deles brotou forte bátega, que se metamorfoseou, por esta ordem, em enxurrada, em inundação, em catástrofe e em questão nacional. Seguiu-se o deus dará dos aflitos, pois muitos dos presentes pressentiam o juízo final. Nunca mais foram vistos nas redondezas.

    Juntou-se uma multidão ululante paredes meias com os muramentos do paço do burgomestre. Os promotores venderam uma catrefa de cartazes, panfletos, bandeirolas, palavras de ordem, livros de memórias, garrafinhas de água, bonés alusivos, t-shirts com dizeres do estilo «Eu estive na manif» e «I love charivari». Exigiam ao mandador e sicários que desarvorassem da coutada e, se possível fosse, do orbe terráqueo. Lidas as listagens das prevaricações, foram anexadas ao cardápio de reivindicações. Nelas se dizia, a título mirífico de exemplo, que o dinheiro para alfinetes, sacado pelos sitiados aos sitiadores, era afinal usado para subsidiar lautos festins. Um decantado tribuno incitou à tomada do fortim. Os escadotes já beijavam as ameias, os mais sôfregos já pensavam em tirar a barriga de misérias, quando se deram conta que os sitiados se tinham eximido ao veredicto de desagrado da plebe. Foi quando choveram impropérios contra os arautos da rebeldaria. Salvou-os de boa um postilhão oficial que os demoveu a uma audiência em parte incerta, para entrega de uma moção, ali redigida a trouxe-mouxe. Nunca mais foram vistos nas redondezas.

    Juntou-se uma multidão cantante paredes meias com as vedações do palácio do cantochão. Os ajuntadores venderam uma caterva de autocolantes, pirilampos mágicos, luzinhas de néon, skates personalizados, discos de vinil e tridimensionais, canóculos, bejecas e britóleo aos jorros e aos molhos, além de entradas para as indispensáveis sentinas e mictórios. Uma dúzia de cantautores embalou corações, outros puseram-nos aos sobressaltos e aos pinchos. A festa pifou, à conta de um apagão, ao início da madrugada, quando já se dá os «bons dias». Meia dúzia de remelosos mecos, arrancados, pelo súbito breu, armam tal chinfrim à arte de cavalgar todos os drunfos, em menos de um fósforo, avançam para os escritórios da organização, entram pela porta do cavalo e partem a loiça toda. Depois, aconteceu o habitual tresmalho de contentes e descontentes. Nunca mais foram vistos nas redondezas.

    Juntou-se uma multidão palpitante paredes meias com os muros e vedações do campo da bola. Os ajuntadores venderam uma catrefada de canetas, isqueiros, bugigangas, psichés, cachecóis, camisolas, calções, meias, luvas, roupa íntima, preservativos de bexiga de porco, cachecóis com dizeres estilo «Sou anti, porque sim» ou «O meu clube é o maior devedor» e esféricos autografados. Uns bisbórrias acrescentaram ao menu soquetes, botas de biqueira de aço, veryligths e tacos de basebol. Fizeram-no por saudosismo e por aversão à modorra dos ventos sociais. No relvado as equipas evoluíam ao som das cornetas, ao encanto da »hola» e aos percursos da bola. Bastou que um mirone clamasse «E quem não salta é coxo!». Da diatribe assumida passou-se à acção, a confusão campeou, o fogo ateou, pelo que os zeladores do templo andavam num virote. No levantar das tendas do acampamento constatou-se que, em vez do jogo que faltava, muitos prosélitos foram ver o sol aos quadradinhos. Outros tantos malharam com os ossos na clínica mais próxima. Os que escaparam ilesos juraram que nunca mais, que preferiam caras-metades e prole. Deram aos calcantes. Nunca mais foram vistos nas redondezas.

    Por que o mundo é redondo, as 4 multidões encontraram-se à esquina. Foi quando os invasores extra-galácticos constataram que o tempo era soalheiro e que o terrunho estava ermo. A ocupação legitimou-se, enquanto Satanás esfregava um olho tiçonado.

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