Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

oitentaeoitosim

27
Jul10

Semana para inglês ver

Jorge

   A primeira personagem propôs a semana-inglesa, cansado da exploração hebdomadária imposta sem rebuço, nem tibiezas, pelos ases de trunfo.

   A segunda personagem reivindicou a implementação da semana-inglesa, sem acrimónia, fiada na parcimónia dos intervalos de lazer e prazer, ao longo da hebdómada.

   A terceira personagem tenteou a semana-inglesa, na sua coutada, depois de perceber que tecnologias novas geram rendas mais capitosas, com menor dispêndio de energias.

   A quarta personagem mandou pôr em letra de forma os preceitos da semana-inglesa, mediu-lhe os proveitos e aplicou-a sem preconceitos.

   A quinta personagem disse que era bonzinho, dado que as mais-valias suplantavam as menos-valias, em regime de democracia.

   A seguir surgiram as variantes de estilo «muda o disco e toca o mesmo».

   A primeira apodaram-na de semana americana, com folgança durante todo o santo dia de sábado, dando de barato e ao desbarato o dia oficial de parança. A expressão não se popularizou, mas a sua prática vingou, pois vinha depositado nos cistrões a certificação de garantia. É assim que acontece com as denominações de origem protegida.

   A segunda alcunharam-na de semana espanhola, a da alternância entre 48 horas com outras 40 de labor hebdomadário. O inventor desabafou com alguém da sua entourage que, depois de carapaus, mexilhões, bacalhau, molho, frango, padrinho, eliminação e crise à espanhola, vinha mesmo a calhar uma semanada nos mesmos moldes.

   A terceira esteve para ser nomeada de semana dinamarquesa ou mesmo xinamarquesa. Ela era sobretudo um convite à negociação das tarefas e das horas de labor, ao longo do ano. O artífice quedou-se por flexisegurança, epíteto que proporcionou reacções contrastantes: os especialistas e intérpretes chamaram-no de anódino, inodoro e insípido; cheio de verve e músculo acharam-no os contratantes.

    A quarta quase foi alomeada de semana chinesa. Ausente das pautas, dos alfarrábios e calhamaços das ciências da laboração, o termo trazia no bojo a ideia de homenagem ao trabalho. Dez horas de adrenalina quotidiana, no mínimo, trazem promessas de felicidade, de prosperidade fortuna e dores de cotovelo aos outros («se tens inveja do meu viver, trabalha, malandro»!).

     A quinta há-de receber a seu tempo a alcunha de semana indígena. Assim será feita justiça à pertinácia de quem inventou novos mundos, lágrimas salgadas, adamastores, velhos do restelo e a globalização. A cena proporcionou-se quando o derradeiro tetrarca afastou, com a prestimosa ajuda da sua grande barriguinha, as tenebrosas névoas madrugadoras que instilavam a insipiência, a indigência e a modorra nas almas dos súbditos. Harto de injustas qualificações internacionais, alguém o ouviu gritar, quando tomava reconfortante banho de imersão «alto e pára o baile»!

     Foi esse o ponto de partida para a transfiguração. Montou o velho espírito messiânico que impregnava o húmus dos céspedes e atirou-se às fauces do Minotauro anticíclico, sem tardança e com menor rebuço. Completada a frequência de um retiro espiritual, tinha-se mudado de armas e bagagens para o lado da barricada dos profetas que previam o fim do mundo antes de 2013, caso o pecado venial não fosse expurgado da crosta, do manto e do núcleo terráqueos. As teses, antíteses e sínteses em voga imputavam o pecado venial ao alastramento do vírus da dívida. Não havia vacinas para tal quebranto, a salvação adviria da esterilização dos bondes, dos cuidados intensivos da produção maciça e do entubamento das massas. A exorcização do igualitarismo na divisão dos emolumentos completava o edifício teórico.

     De uma penada impôs: 10 horas obrigatórias de trabalho de domingo a sábado, pagamento horário igualitário, fim dos feriados, regressão salarial anual, férias pagas à empresa pelo trabalhador, fixação de residência nos locais de trabalho, pagamento de tenças e bulas próximo do limite superior e fim dos sindicatos, das sindicâncias, das previdências e das providências.

     Numa primeira fase a economia vicejou, as lágrimas ao canto do olho soçobraram e ninguém se deixou abater por desfalecimento. Todavia, a banha da cobra não vingou como esperado nos mercados, pois os níqueis dos outros grudavam-se aos colchões e fronhas e as bolsas fecharam-se nos cordões. A falência destilou a sua peçonha, não sem que antes Prestes João se tenha decidido à aquirição dos estoques presentes e futuros.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub