Domingo, 22 de Julho de 2018

Onde mais fundo vai o rio, aí menos ruído faz.

Adágio

 

    Não anda com muito tempo, por acaso dei atenção a certa reportagem incluída num serviço informativo das 13 horas a que dou atenção em diferido, à uma porque fujo a notícias desinteressantes, em segundo lugar porque detesto o conúbio entre notícias e publicidade.

    Não se pode despachar os anúncios todos no fim dos telejornais? Assemelha-se contraproducente e rebarbativa a mistura entre passível factualidade e a factual boçalidade. Estão a ver o género, depois de uma notícia de um acidente fatal numa estrada, entram anúncios (quase sempre do estilo lingueirão, acéfalos, portanto), tendo à cabeça semblantes voluptuosos de quem curte estar ao volante dum popó altamente, mas ao preço da chuva?!

    A peça em questão dava conta de uma iniciativa de um grupo de cidadãos portugueses – militantes duma associação benemérita -, que se manifestavam, na capital, a favor dos direitos dos animais que são exportados vivos, em barcos, mas em condições tidas por degradantes, às 3 pancadas, para certas partes do mundo.

    Manifestamente há aqui desvios às normas instituídas, quando:

    - Os animais são embarcados pela porta do cavalo, para que não sejam visíveis as tropelias cometidas já no acesso a bordo.  

    - Muitos dos animai exportados vivos morrem, ao embarcarem, durante a estadia (más condições de peação), ou no desembarque.

   - Os animais, uma vez embarcados, não dispõem de condições de assistência a bordo, são postados a trouxe-mouxe no espaço a que ficam confinados, comem os que podem, não conseguem descansar em condições.   

    - Como se não bastasse tais condições degradantes, as fezes acumulam-se, sem que haja um esforço mínimo de higiene, inclusive os animais podem ser vítimas de sevícias, durante a viagem, ou mais tarde nos matadouros, antes de lhes desfecharem o golpe de misericórdia.

    Antes a morte que tal sorte! Já vai sendo tempo de serem implementadas a sério as disposições internacionais que regulamentam estas trocas comerciais. Melhor fora a proibição cabal das trocas de rezes vivas, sejam elas destinadas ao consumo de pessoas que, antes do abate, as querem ver vivas e sujeitas a normas teologais estritas, seja por razões reprodutivas.

    Foi então que me dei conta da presença do Sr. Geraldo, um meu conhecido de fresca data, no meio dos manifestantes, naquela manife comemorativa do Dia Contra o Transporte de Animais Vivos.

 

    Conheci o Sr. Geraldo, no fim duma caminhada - prevista para todos os dias, mas nem sempre cumprida, para mal dos meus pecados e problemas de saúde –, a qual se prolongara por largos 30 minutos.  

    Na oportunidade, surpreendi-me ao ver um senhor, debruçado sobre o seu cão - devidamente atrelado e aparentando estar bem registado - e que limpava um presente que o bicho depositara no passeio público. Pareceu-me, que trazia igualmente uma garrafa com água de litro de água, decerto para acorrer à limpeza assim que o bichano vertesse águas.

    Aproximei-me do senhor que não conhecia de parte alguma:

    - O senhor merecia um prémio!

    - Desculpe, se não o acompanho! – replicou o Sr. Geraldo.

    Dei-lhe os parabéns pela correção da sua atitude, pois tenho visto poucos amigos de cães dispostos a cumprir com recomendações e normativos. O espaço público é fruído ao sabor da real gana de cada um, sem incómodos por-aí-além, a não ser que surja um reparo mais vivaz de um outro circunstante, logo devolvido à procedência (se todos os amigos de cães dispusessem de mais espaço habitável, outro galo cantaria!).

    - Aqui onde me vê, acho que se deve cuidar bem dos bichos, sem multiplicar incómodos para a vizinhança!

 

    Desde então, tenho trocado amiudadas opiniões e tido frequentes tocas de cumprimentos com o Sr. Geraldo. Mais, já está apalavrado que, num destes dias, vamos trocar mais ideias, num restaurante, o que pode ser o início de uma boa amizade.

    Por conta dessa proposta, ando preocupado: não me conto no número crescente de apreciadores de animais de companhia (escusada); não sou muito de touradas, mas aceito plenamente exibições de bichos nos circos, em zoológicos, oceanários, aquários e correlativos; mais, resigno-me perante o quadro de muares e equídeos a alombar com carregos; não recrimino as caçadas e sou apreciador de um bom naco de carne de animais criados em cativeiro (que, por acaso, na hora do derrube, passam suplícios tantálicos).

    Por gentileza, terei de omitir estes meus pecadilhos ao Sr. Geraldo?

    Temas para conversa não faltarão: à cabeça, como não podia deixar de ser, as condições indescritíveis que presidem ao transporte de animais exportados vivos para abate ou para reprodução; naturalmente que o desrespeito pelas disposições legítimas ao lidar com bichos de estimação; eventualmente, para não fugir muito ao tema, os métodos dilacerantes usados no abate de bovinos, porcinos, patos e frangos, etc. são um bom tema para mais 2 dedos de conversa, não esquecendo; os direitos dos animais (entre os quais o acesso ao seu ambiente e/ou reserva natural).

    Não seja por isso, assunto para conversa à mesa não faltará!

    Mas, outra coisa me traz preocupado: será o Sr. Geraldo vegan ou vegan? É provável, não tem ar de quem frequente casas de pasto banais (antes freegan!)...

    É que quem opta por sistema de alimentação alternativo raramente abdica uma só vez dos seus princípios. Por uma vez sem exemplo, eu não me importarei de abdicar de uma comidinha enfarta-brutos. Mas, há por aí boas alternativas, como sejam as especialidades provindas da Tailândia, da China, do Japão e até da Índia e do Nepal, para variar, não fica mal...

    Afinal, sabe bem viver econviver em países em que os bichinhos de estimação já ocupam uma boa talhada das conversas (moles) da malta...



publicado por Jorge às 09:35
Segunda-feira, 09 de Julho de 2018

Chora por mim ó minha infanta
Escorre sangue o céu e a terra
Ah pois por mais que seja santa
A guerra è a guerra

Fausto B. Dias

 

    Não anda com muito tempo, por acaso, dei atenção a certa notícia incluída no serviço informativo das 13 horas que vejo e ouço sistematicamente em diferido, à uma porque fujo às notícias desinteressantes, em segundo lugar, fujo à publicidade - quase sempre rasca -,porque detesto o conúbio entre notícias pungentemente patéticas com anúncios formalmente patetas.

   A voz da locutora, límpida e clara – por aí campeiam comunicadores que não investem muito numa dicção precisa – dá conta de mais uma impiedosa ação de guerra, no Iémen: junto a uma cidade portuária, 250 000 pessoas estariam cercadas por tropas da aliança saudita, um dos dois contendores da guerra dita civil que incendeia aquele país (conta com a colaboração insidiosa de potências estrangeiras e aliados extremistas).

   Mesmo em guerra,infelizmente,o Iémen recebe migrantes em trânsito, provindos doutras latitudes com conflitos; agora há mais iemenitas a juntar-se aqueles no trajeto seguinte.

   A voz da locutora, límpida e cristalina continua a debitar esclarecimentos: dum lado estão lutadores sunitas da coligação saudita, do outro, combatentes xiitas, gente temente ao mesmo deus, cada um à sua maneira.

  (Os conflitos bélicos eclodem após decisões de altas esferas, mas não tão altas que cheguem ao Céu...).

   Está dito, redito e comprovado que as proclamações de guerra se fazem por amor ao vil metal, logo, por mor da propriedade da liderança (quantas vezes os nacionalismos são malsãmente chamados à pedra!).

   A voz límpida e cristalina continua a dar conta de pormenores: a arremetida militar poderia estar a pôr em questão a assistência humanitária não apenas a 250 000 iemenitas civis, mas a um total de 8 milhões diretamente dependentes dos bens aportados  aquela cidade, ora sitiada.

 

   As guerras hodiernas têm uma componente bélica propriamente dita e outra humanitária; esta última cinge-se a rígidos códigos de conduta. A Cruz Vermelha, o Crescente Vermelho e outras organizações que ostentem um cristal vermelho oferecem os seus préstimos, de forma a minorar a crueldade

  (Do mesmo modo, organizações sociais, em tempos de paz, são apontadas à assistência aos derrotados da vida que bem existem, para contrastar com os heróis.)

    A guerra do Iémen, iniciada em 2015, segue de perto os regulamentos das convenções e protocolos de genebra, daí que, por um dos lados no mínimo, esteja submetida a avaliação, monitorização e até prestação de contas, sobre atropelos e sevícias infligidas.

   (A guerra, justa ou injusta, é uma púrpura debaixo da qual se ocultam homicídios.)

   A Organização das Nações Unidas – um arremedo de governo mundial - faz o que pode e pode pouco; sempre que se proporciona a ocasião, apresenta uma moção de censura do conflito,na sua sede,mas há sempre um vencedor da 2ª GM disposto a vetar o texto, porque lhe serve o contexto.

    Na disputa iemenita, a ONU tem no terreno uma Missão de Observação - é o melhor que se pode arranjar - que dá conta dos desatinos cometidos, das epidemias em desenvolvimento, das falhas de socorro, sempre na esperança que o conflito se extinga amanhã. 

   A ONU também não se importa de gerir zonas neutras, potenciais ou efetivas. Mas, às vezes também se oferece para gerir as chamadas zonas neutras. A soberania dos países exige respeito e contenção nas palavras, atos e obras.

   (Quem tudo abarca, pouco ata.)

    Conflito terminado, será tempo de discursos em Nova Iorque e noutras capitais do mundo, por parte do vencedor, se a democracia intramuros seja instaurada, bem entendido...

   Por aí se diz que quem compra terras, compra guerras.

 

   Eu vi-te, Alzira, naquela reportagem, enquanto a voz, límpida, cristalina continua a denunciar, galhardamente. Ao colo de tua mãe, decidida a pôr-se dali-para-fora, tu choravas copiosamente,angustiada talvez porque pressentisses que te aguardava o desconhecido, a contragosto. Lia-se no semblante da tua procriadora determinação em dar o fora, duma vez por todas, mesmo que isso implicasse deixar para trás entes queridos, objetos estimados e uma terra prezada. A tua mãe,face ao alvoroço,estendia-te um manto protetor.

   (Dói muito, mas o que tem de ser tem muita força!).

   Só consigo imaginar a aflição superveniente à fuga empreendida, para fora do alcance de tiros, de bombas e do barulho ensurdecedor dos carros de combate e aviões - provavelmente apenas com a roupinha sobre o corpo -, rumo a desejado porto seguro, onde seja possível acreditar que amanhã terá de ser outro dia. A esperança, sempre a esperança que a sobrevivência se faça com dignidade. Por aqui se dizia muito que ninguém foge ao seu destino, mas isso era a canção do velho bandido...

    (As guerras modernas são sempre comandadas à distância, onde corre o leite e o mel; é sempre a arraia-miúda que vai mais para o maneta e para pouco conta no momento de afirmar heroísmos.)

    De pouco vale dizer-te que lamento a tua sorte, mas digo-o e quando o digo fico tomado de impotência. Esta sensação que a maioria nasce para ser joguete nas mãos de poucos não me larga!

    Em nome das vítimas efetivas (tão pouco se lhes dá importância, a não ser às grandes patentes!) e colaterais, maldirei sempre, a plenos pulmões, a guerra, quem a faz e apoia, seja ela civil, aberta, fria, intestina ou santa, de pouco me importam!  

    (A medicina ensina a curar os doentes, a arte da guerra a matar os sãos.)

    Oxalá encontres arrimo e coragem suficientes, até ao dia em que te possas valer a ti própria. E não me saiu mais nada, lamento!

 

    Calada a voz clara e nítida, cai um anúncio não-institucional na pantalha, enquanto ainda matutava na tua desventura, miúda. Estive vai-não-vai para atirar ao plasma o livro volumoso que estava ao alcance da minha mão, mas recuei o braço a tempo, que os afetos não se exibem, sentem-se.

    (O Sr. Júlio Dinis escreveu que há aparências de dureza que ocultam tesouros de sensibilidade e afeto,mas também há afetos que se prestam a subjugar.)

    Sabes, Alzira, que, viver num país livre de operações militares geoestratégicas, económica e financeiramente desenrascado e avonde de boas consciências, facilita a sobrevivência... Desculpa lá qualquer coisinha!

 

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publicado por Jorge às 19:23
Domingo, 01 de Julho de 2018

 

Debaixo de belas palavras, pode estar o engano.

Adágio (adaptação)

 

    Para o Sr. Miguel Sousa Tavares (MST, doravante) há uma paixão assolapada pela educação que carateriza os sucessivos governos da nação, os alunos, os pais dos alunos e até os contribuintes, como ele, e que é tratada com desdém pelos profes (leia-se professores do ensino básico e secundário, oficial entenda-se).

    Assim argumenta o Sr. MST, no «Expresso», do dia 22/6/2018:

   . Os profes andam constantemente em lutas, em protestos, em manifestações, em greves.

   . Assim, os profes protestam por conta dos horários de trabalho, das aulas de substituição, da avaliação do desempenho, da contagem do tempo de serviço, das promoções automáticas, da integração nos quadros em concurso, das salas de aula onde fazia frio, da abertura do ano letivo sem que milhares de escolas estivessem prontas e por-aí-fora.

    . Os sucessivos governos têm cedido aos profes, senão vejamos:

    1 - Horários – No horário obrigatório estão incluídas horas de trabalho caseiro, até perfazer as 35 (tempos houve em que o horário das docentes e dos docentes se limitava às horas de aulas efetivas, vejam só o desplante!); foram criados inclusive «horários zero», em benefício de profes atingidos pelo «cansaço» e «desmotivação (?); estarão para avançar as reformas antecipadas (bonificadas?).

     2 - Salas de aulas em que fazia frio - Elas acabaram, em todas as escolas; mais, além do aquecimento e do ar condicionado, todas elas dispõem de relvados sintéticos e mais uma série de mordomias dignas de países do primeiro mundo.

     3 - Avaliação do desempenho - Deu lugar a uma autoavaliação de anedota.

     4 - Integração nos quadros do MEC - É feita sem concurso, conta apenas a antiguidade.

     5 – Escolaridade obrigatória e nº de alunos por turma - Para encaixar todos os profes nas escolas oficiais, alargou-se a escolaridade obrigatória (!) e diminui-se o nº de alunos por turma (?), façanhas só atingidas por países do primeiro mundo; assim se compreende que, em anos letivos anteriores em que se verificou a diminuição de entradas na faculdade, o nº de profes tenha aumentado (isso também tem a ver com o absentismo progressivo da malta docente).

     6 – Programas e manuais escolares – São linearmente delineados por profes que chegam ao ponto de impor os conteúdos dos exames que são feitos - pela amostra deste ano -, com ou sem notas finais publicadas previamente.

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     Depois de tanta cedência, de tantas benesses, concedidas, depois de tanta massa empatada, o ensino dos profes tem melhorado? A crer no crescimento da procura de explicações, é caso para duvidar... Mais, metade das criancinhas de 11 e 12 anos não sabe apontar Portugal no mapa o seu país e quanto à história das Descobertas estamos conversados...

    Daí que, para que os profes não possam mais fugir à paixão pelo ensino, o Sr. MST reivindique que os sindicatos (um monte deles!) antes se atrevam a avançar com sugestões para melhorias do ensino dos programas, do acompanhamento dos alunos e se deixem apenas de lérias e da acumulação de lordismos.

  (Pobrezinhos, mas honrados! Já não lhes basta saber que colhem o respeito da maioria das comunidades escolares?)

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     Em abono da verdade, reconheço que o Sr. MST poderia ter carregado mais nas tintas, caso estivesse ao corrente destas seguinte 3 indicadores: a) - que os estudantes portugueses têm uma carga horária bem pesada, comparativamente à maioria dos países europeus e de um ou outro da Ásia, segundo um estudo revelado em 2017; b) - em Portugal há um profe a tempo inteiro para cerca de 10 alunos, um indicador mais baixo que a média dos países da OCDE, em 2014; c) - Portugal é um dos países da Europa em que mais se chumba, até ao 6º ano (2016). Escaparam de boa, os profes!

    Outrossim, as estatísticas mostram isto: no período 2005-15, os alunos portugueses de 15 anos que fizeram o exame PISA colheram dos melhores resultados dos discentes da UE; em Portugal, os alunos imigrantes obtêm resultados satisfatórios, contrariando o sucedido na generalidade dos países de chegada; os profes portugueses, no período 2005-15, contaram-se entre os docentes da OCDE que registaram maiores perdas nos seus salários.

    Digo eu que a solução final do Sr. MST (deixem-se de andar sempre com lamúrias e  pedinchas, a gente fala depois de) rescende a bafio e traveste-se de descaro, tal a pretensão de ensinar o padre-nosso ao senhor vigário.

    (É de palmatória, não é?)

    Aliás, o Sr. MST junta-se, voluntariamente, como de outras vezes, ao coro de mandantes da governação que não vão na conversa dos profes. No protesto mais recente dos profes (não mesmo vontade de os provocar?), os decisores políticos dizem que não há guito para repor a contagem do tempo e o bago perdido, durante quase 10 anos, durante os quais os profes marcaram passo. Para todos eles,  «não há nada para ninguém», assim se verga a frivolidade de desapaixonados.

    (Achei castiça a tirada do senhor ministro da tutela, segundo a qual o tango deve ser bailado a 2, apaixonados naturalmente, ele que tem todo o ar de pezudo!).

    Daí que, ou muito me engano, no caso vertente, vão ver Braga por um canudo. A bancocracia instilada já não cede a pretensas vagas de fundo de meritocracia social.

    (Essa de fazer greve e pouco largar para o patrão é de mestre, ó profes!).

    Com as férias à porta, a vontade reivindicativa dos profes pode esmorecer. Parece garantido que já se aposta nisso, o lazer bem dispensa chatices...

   A propósito, nunca ouviram dizer que a paixão nada remedeia, ou soluciona?!...

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PS – Continua a fazer sentido, numa sociedade representativa, a imposição legal da comparência de todos os intervenientes no processo do ensino/aprendizagem dos alunos, no momento da avaliação final, no fim do 3º período escolar? Um sorteio de avaliadores que perfaçam a maioria simples até acrescenta alguma emoção à cena...

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«Inocente? Você quer ensinar-me o meu ofício?»



publicado por Jorge às 20:04
Terça-feira, 12 de Junho de 2018

Como culpar o vento pela desordem deixada, se fui eu que deixei a janela aberta?

Autor desconhecido

 

 

O senhor está, desde há 5 anos, na presidência dum clube (e da respetiva SAD) que integra o tridente dominador do futebol cá do burgo.

Nesse espaço de tempo, adregou muitas taças em competições de n modalidades, outrora tidas por amadoras, cá dentro e lá fora. Mas, para mal de seus pecados, apenas juntou no museu da agremiação 3 títulos secundárias na modalidade-rainha, o futebol (bola), pelo que a seca de glória continuou, quando ele fizera questão de proclamar o fim das vacas magras.

Assim sendo, e para mal dos pecados do promitente senhor, começaram consócios, adeptos e simpatizantes insatisfeitos a apontar dedos acusatórios na sua direção, outros a querer fazer-lhe a ficha (afinal, quem se lembrou dele para ocupar o cargo?). Aí o senhor deu início a um complicado período de transferência de culpas para atletas, para staff técnico, para antagonistas, para dirigentes da bola (verdade seja dita, sempre se mantiveram impávidos e serenos!), para órgãos do Estado, para desconhecidos, para entidades sobrenaturais possivelmente malévolas e para o diabo a 4.

O senhor é comummente tido por habilidoso estratega em delinear cruzadas desportivas virtuosas (ele está sempre do lado do bem), em conseguir boas contratações de atletas para a miríade de modalidades suas, em fechar operações financeiras favoráveis à coletividade, ou por aí. Por isso, muitos sócios, adeptos e simpatizantes da coletividade o têm na conta de salvador da pátria.

Para mágoa do senhor, opositores há que apontam aos altos salários, bem como a outros valiosos emolumentos e a outras mordomias disfrutados pelo senhor, para tão fraca obra. Mas, sem provas objetivas, a maioria silenciosa (e não só) vai ficando do seu lado e tanto lhe basta!

O senhor é bem-parecido (tem confiado a definição de um perfil sedutor a quem percebe do assunto), a que junta uma voz cava, bem treinada e que lhe vai a matar com o jeito mordaz de enfrentar os importunos e conquistar prosélitos para a sua causa.

Opositores bem podem alcunhá-lo de mauricinho, de casquilho, ou mesmo de canastrão, é para o lado que dorme melhor, tem a maioria silenciosa (e não só) do seu lado e tanto lhe basta!

O senhor safa-se muito bem em debates na língua de Shakespeare (coisa rara entre os seus pares), para além de dominar a preceito o dialeto mátrio e pátrio, verdade seja dita que costuma impressionar, quando participa em simpósios, em conferências, debates, sessões de esclarecimento realizados à porta de casa, ou mesmo na AR (os seus congéneres têm mais pilim que paleio).

No entanto, opositores há que do senhor o que Mafoma não se atreveu a dizer do toucinho, outros consideram-no um narcisista primário, enquanto outros os batizam de mitómano chapado. E ele, nas tintas, desde que a maioria silenciosa (e não só) esteja do lado dele, tanto lhe basta!

O senhor será o detentor do recorde individual (nacional, pelo menos) do tempo e espaço atribuído nas tevês a convidados estranhos à política profissional e ao mundo das artes e das letras (numa das suas melhores atuações, debitou palavradura, por mais de 2 horas, sem parar). De resto, qualquer suspiro do senhor sujeita-se a ser dado em direto, ou em diferido (as redes sociais também o cumulam de atenções).

Os opositores não estão com meias medidas: ele é dono dum ego maior que o país, duma cupidez maior que o continente e duma lata maior que o mundo. E ele não lhes liga meia, a maioria silenciosa (e não só) não o dispensa e tanto lhe basta!

O senhor diz que ama o seu clube, até ao delíquio – como se fora sua família, vê-se pela cara! - e, a quem não lhe dá crédito, trata abaixo de cão, clama pelos seus nomes na praça pública, enquanto os recobre de opróbrio, chegando ao ponto de pedir aos circunstantes que o agarrem, ou vai aos fagotes dos pretensiosos contestantes.

Por conta disso, opositores há que o apelidam de abominável homem das neves, de monstro de Loch Ness e de homem do saco, entre outros (não cabem aqui os epítetos e palavrões soltados na Net). Ora, passem bem, a maioria silenciosa (e não só) está com ele, tanto lhe basta!

Mais, o senhor confessa trabalhar 24 sobre 24 horas, para o sucesso da agremiação que chefia e que quer continuar a liderar, dê por onde der («daqui não saio, daqui ninguém me tira»!), que a consagração está aí à mão de semear (para grande cortação dos detratores)!

Opositores estão noutra: ele deixou empresas em escombros, postou muita literatura daninha para os interesses do clube e não se cansa de fazer o mal e a caramunha, em desfavor do clube. Que vão bugiar, a maioria silenciosa (e não só) está com ele e chega!

De momento, a presidência do senhor estará por um fio, mas ele vai-se aguentado ao mastro, a desejar que os maus ventos (também os semeou) não tragam piratas a bordo, ou golfinhos esfomeados!

É que vinha mesmo a jeito um título supremo, na bola; agora só para o ano...

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Sempre que eu saio vencedora duma discussão, ele organiza uma cruzada para desopilar.

 

 

 

 



publicado por Jorge às 18:45
Terça-feira, 05 de Junho de 2018

«Vive como se fosses uma alface do Lidl» - assim, sem tirar, nem pôr.

O alvitre votivo está assente num folheto aparentemente anódino - dos muitos que caem, todos os dias, em todas as caixas de correio deste país -, a marcar o arranque de mais uma campanha de descontos.

(A poupança no papel ainda não incomoda grandemente as grandes redes de distribuição alimentar do país. Parte de mim acha bem, que a distribuição de tanta papelagem garante a ganha-pão a alguns respeitáveis cidadãos.)

Nas tevês generalistas (sempre predispostas a cavalgar a onda) também passa publicidade afim. Mas, para mim, propaganda só no papel...

À primeira achei que o pregão não tinha ponta por onde se pegasse e não liguei meia.

Mais, até fiquei de pé atrás: querem lá ver que houve engano na mensagem, uma publicidade capaz não se atreveria a fazer votos de vida curta!

(Decididamente não me pareceu uma ideia forte, daquelas que muita gente adota, estilo «tou xim, é para mim!»).

Pus nariz de palmo e meio, eu que me tenho na conta de cliente fiel da sobredita rede que, dispôs, a 2 passos de casa, uma loja catita (não tenho popó às ordens, pelo que tenho de alombar com os sacos de compras).

Pensei de mim para mim: aqui há gralha, ou então o autor da gracinha estaria descompensado, grosso, ou pirado, quando a pariu... Também há a hipótese remota de se ter deixado tentar por outras alfaces, as do dianho, por exemplo!

(Um senhor famoso, Henry Ford de sua graça, terá dito isto: «Sei que metade da publicidade que faço é inútil, mas desconheço qual seja a metade inútil». Ou seja, às vezes, ideias peregrinas funcionam, certo?)

Só um pouco mais tarde, achei alguma piada ao dichote, havia ali um misto de nonsense e de mensagem subliminar capciosa...

(Atração fatal?)

Faço questão de proclamar que me incluo no número de pessoas que acham que um crescimento humano sustentado passa pelo consumo de alfaces, verduras e hortaliças, em geral.

Faço questão de deixar claro que me incluo no número de indivíduos que sabem ser a alface fonte de vitamina C e outros microminerais, que ajuda a prevenir cancro de pulmão e da boca, que retarda a queda de cabelo, que uma infusão de alface ajuda a dormir melhor e por-aí-fora. Há muito que uso e abuso da hortaliça verde em apreço.

Mas, também me incluo nas pessoas que sabem que uma alface é criada, na varanda, em hortas, ou em estufas e que ele se faz num abrir e fechar de olhos; que será comercializada rapidamente, depois de colhida, numa frutaria, num lugar, numa barraca, num super, ou num híper próximo; que aí fica submetida às apreciações dos curiosos, um dos quais acabará por lhe lançar a mão e por ela pagar por ela modesta franquia; que, já em casa do novo legítimo proprietário, na devida altura, será lavada e deglutida, em 2 tempos, desaparecendo do mapa, em 2 compassos.

Curiosamente, até à data, nunca experimentara alfaces do Lidl. Verduras e frutas só as compro nos mercados, mas, por que não experimentar?

 

Assesto os óculos do perto no papelucho e continuo a ler: «Para elas (sim, no plural) não há amanhã».

Aqui chegado, ainda permaneço de pé atrás: uma alface dura pouco e quanto a viver intensamente, estamos conversados, está para ali posta em sossego, com o pé de molho, sossegadinha da Silva...

Mas, a música já é outra, já se fala no plural, em alfaces, quanto mais comer, mais fortunas acumularei, certo?

Pelo-sim-pelo-não, no dia seguinte dirijo os meus passos à loja do costume e, num impulso, encho 2 sacos com alfaces, junto quantidade à qualidade, vamos lá tirar a coisa a limpo!

Em casa, cumulo as alfaces de todas as atenções, depois debulho 2-3 delas, acrescento-lhe tomate, pepino e pimento verde e aí está uma ótima salada, a acompanhar o bife da casa, ao almoço e um picadinho à janta.

À hora da sesta, dou-me a escutar uma voz interior que me desafia a ir surfar as ondas gigantescas de Peniche. Olha lá, nunca, até agora, uma voz interior foi capaz de me desafiar assim, a deixar o meu círculo de conforto e viver uma experiência louca, isto promete!

Na madrugada seguinte, acordo cheio de pica e ponho-me a escutar a mesma voz interior que me desafia, desta feita, a integrar-me no próximo Nepal Trekking que se realiza ali para as bandas de Katmandu.

Nessa manhã, volto às compras e de lá saio com mais 4 sacos de alfaces, não vão elas esgotar-se. Preparo nova saldada, mais substancial, desta feita, a acompanhar umas favas com entrecosto, ao almoço e um peixe feito na chapa, ao jantar.

À sesta e durante o sono noturno habitual, a vozinha impõe-se, com novas sugestões

Nos dias seguintes, atirei-me a um fartote de terrines, tortas, focaccias, pestos, galettes e muffins de alface, do Lidl, naturalmente!

E aquela voz a desafiar-me para novas aventuras e eu a sugerir-lhe que aguentasse os cavalos.

(De momento, todas as minhas refeições incluem daquelas alfaces da marca e seus derivados. Estou na esteira de uma vida emérita, longa e esfusiante, quase não tenho dúvidas...).

 

Dou uma última espreitadela ao citado panfleto, com os óculos do perto: «Os nossos frescos são repostos todos os dias».

Antes assim, a malta apreciadora de alfaces proactivas agradece (dando de barato que alguns frescos sejam renitentes e gostem de se exibir mais que os outros, uma exceção a uma regra bonita)!

Já agora, para que conste, decidi abandonar o regime omnívoro, a comida de plástico (ao regime gourmet nunca me habilitei). Tenho agora para mim que o regime ovo-lacto (mas sobretudo) vegetariano é o melhor para mim e que seria bom para todos os cidadãos do mundo interessados em paz e amor.

Conselhos de amigo são aviso do Céu...

(Entretanto, tenciono buscar panaceia para esta soltura travessa que me acometeu e que faz questão de fazer-se notar, mesmo em horas desencontradas. Como se percebe, só depois de restabelecido, estarei habilitado a seguir à risca as instruções da tal vozinha. Estas alfaces têm, de facto, um potencial diabólico!).

 

 

Diletantismo 2.jpg

- Tens um pedacinho de alface metido nos dentes.

                                                                               - Obrigado!

 



publicado por Jorge às 19:02
Quarta-feira, 23 de Maio de 2018

Vai por aí uma polémica sobre a proposta de ereção dum museu das descobertas, na capital do país. Há quem opine pelo sim, outros pelo não a tal empreendimento: para os primeiros ele seria uma homenagem à coragem dos nautas afoitos que desafiaram mares desconhecidos, com o credo na boca; para os outros, a proposta valeria como uma consagração das safadezas cometidas por quem se apoderou de bens e pessoas, durante a expansão além-mar.

A questão mergulha efetivamente em ambas as vertentes. De facto, os marinheiros de antanho, a bem ou a mal, conseguiram demandar lugares desconhecidos dos europeus (que já lá estavam, há muito, diga-se de passagem, rezando a todos os santinhos que não houvesse monstros ali ao dobrar da esquina.

Foram os beneficiários políticos da Expansão além-mar – ou Descobertas, ou coisa no género – que se serviram dos achados para realizar milhões, com a traficância execrável de pessoas e também de bens. A defenestração de comunidades, imposta pelos poderosos do Retângulo e do continente europeu, em terras distantes, vista à distância e à luz dos direitos humanos do presente, é revoltante e é chaga que ainda não está sarada para quem teve ascendentes do «lado de lá».

(À época, seria provavelmente questão de fé a existência de etnias ditas inferiores, menos queridas das deidades, a par de etnias ditas superiores, mais estimadas por entidades superiores, que estariam votadas a fazer gato-sapato das segundas, o que se lamenta.)

Para bem da humanidade, há bastantes décadas, que se passou a fazer o elogio da diversidade cultural, da diferença.

(Atualmente o governo de pessoas e bens dispensa a escravização – Portugal foi das primeiras nações a libertar-se -, até porque são mais funcionais à submissão aos interesses económicos dominantes certas derivações dos códigos da ética e da moral.)

Muita da História hodierna – pelo menos a que se faz lá por fora - dá ligeira ênfase ao pioneirismo técnico lusitano, na expansão além-mar, mas não perdoa as trafulhices e pulhices consumadas por avoengos cá da terra.

(Continuasse Portugal nos lugares cimeiros da trama comercial internacional e já teria expiado os seus pecados.)

Já estive em contacto, noutras latitudes e noutras longitudes, com estrangeiros que se apresentaram, com orgulho, como sendo descendentes de portugueses de antanho, viajados até aos orientes. Longe dos olhos longe do coração, a autoafirmação pode trazer no bojo alguma mistificação da realidade...

(Quando se permite que o vento sopre sempre da mesma direção, a árvore crescerá inclinada.)

Por enraizada displicência, ou por má consciência, até hoje Portugal não dispõe de um espaço que vinque os méritos técnicos e (porque não?) os deméritos políticos dos Achamentos.

A existir, e desde que não se esforce por mostrar apenas o «lado bom», reputa-se de meritório.

O espaço museológico pensado até poderia levar o nome de Sagres, onde se apuraram, por exemplo, as caravelas - essa estrela das Navegações - que zarparam mar fora, beneficiando de conhecimentos bebidos de diferentes culturas.

(Museu do Mar Salgado, também não ficaria mal.)

Mas, num tempo em que elementos fundamentais do património material levam nome de viventes que acumularam fortunas ou fama, ou as 2 coisas, até que assentava bem  um museu Infante D. Henrique).

Para os que não querem, há muito, valha-nos Camões (estará ele chateado com a questiúncula da ereção dum museu comemorativo da expansão além-mar?)

PS1 – Há muitos anos, um chefe tribal, de um país do Terceiro Mundo, foi convidado oficialmente para um evento, num país da Europa. Mal pôs pé em terra firme, gritou, alto e bom som: «Descobri a Europa!». A verdade, nua e crua, dispensa enfeites!...

PS2 – O Sr. Eduardo Lourenço afirmou, num destes dias: «"Não sei por que é que neste momento parece haver uma necessidade de crucificar este velho país em função de uma intenção louvável, mas que ainda não redime aqueles que querem realmente a redenção, aqueles que foram objeto de uma pressão forte como o do nosso domínio enquanto colonizadores, de uma certa época".

PS 3 – O criador do «microcrédito». M. Yunus, escreveu, há uns tempos: «O único lugar onde a pobreza deve existir é em museus». Todos os tipos de pobreza, acrescente-se...

Diletantismo.JPG

 



publicado por Jorge às 17:28
Terça-feira, 08 de Maio de 2018

A Justiça branda faz um povo rebelde.

 

     A Comissão Europeia para a Eficácia da Justiça, há muito que acha que Portugal é dos piores países a fechar casos pendentes nos tribunais.

    A Pordata, em meados do ano passado, avançou que, por cada 100 casos resolvidos em tribunais cá da terra 172 ficam pendentes.

    A justiça por estas brandas bandas costuma ser estilo tartaruga, ou estilo caracol: lenta às vezes e muito lenta quase sempre.

    Estão em trâmites da Justiça, há muito, processos que envolvem altas personagens, a que a comunicação social sobretudo interna já dedicou e continuará a dar muita atenção, assim apareçam novidades (a lista não é exaustiva):

. BES/GES;

. BPN;

. Banif;

. Vistos Gold;

. Operação Marquês;

. Operação Monte Branco;

. Operação Rota do Atlântico;

. Operação Fizz;

. Morte de 2 Comandos;

. Desvio de armas em Tancos;

. Investigação a Álvaro Sobrinho;

. Investigações a políticos (Marco António Costa, Luís Filipe Menezes, v.g.);

    Estarão também em tramitação nas instituições da Justiça caseira outros casos que envolvem gente que torna os casos ilustres, como estes:

. Incêndios do Verão de 2017;

. O caso da Raríssimas;

. O caso da Fundação «O Século»;

- Benfica (processo emeiles, vouchers e resultados de jogos, combinados ou não);

. Operação Lex;

. Caso na Universidade Fernando Pessoa;

. Desvios de cheques da Segurança Social;

. Desvios de crianças adotadas.

    A comunicação social - justiça seja feita – dedica também largas franjas dos seus serviços noticiosos a casos de violência doméstica, roubos e homicídios, por exemplo, que envolvem a arraia mais miúda. Não dão tanto brado e têm pavio curto (raramente há massa para recursos). Como diz o outro, da Justiça o pobre melhor conhece os castigos.

    (Tempos houve em que pouco se recorria a tribunais. O meu pai - que deus tenha! -, por exemplo, desfazia-se em suores frios só de imaginar que seria submetido a juízo.)

    A Justiça, liberta e liberal, passa presentemente por muitos trâmites. Desconfio que, por via disso - não por estarmos num país de brandos costumes - ela precisa de mais gente a servi-la.

PS1 – A lentidão na Justiça está para ficar; por exemplo, constou que as decisões dum juiz (acusado de corrupção no caso Lex), irão ser revistas a pente fino.

PS2 – A exceção à regra: A Justiça morosa espreguiçou-se e deu um safanão: em 6 dias ficou arrumada, uma investigação ao ministro presidente do Eurogrupo, por causa duns bilhetes para jogos de bola, pedidos à revelia de códigos valentes e imortais. O caso ameaçava prolongar-se no tempo e no espaço...

 

Zelos XIV.jpg

                              Peixinho - Não há Justiça no mundo.

                              Peixe médio - Há alguma Justiça no mundo.

                              Peixão - O mundo é justo.

 



publicado por Jorge às 12:23
Terça-feira, 01 de Maio de 2018

 

Da dor todos somos escravos.

Aforismo

 

I - A revista «Sábado», no seu nº 693 (10-16 de agosto de 2017, como o tempo passa!), pela pena da jornalista Catarina Guerreiro, apresenta 3 denúncias de escravaria, em Portugal, perante os quais muita gente sentiu muita pena:

. Na Vidigueira, foi denunciado que imigrantes do leste da Europa faziam trabalho escravo na apanha da azeitona: mais de 80 ficavam numa oficina, outros 30 num apartamento, com homens e mulheres misturados

. M.A. cuidou de um casal e do filho deficiente, tratou da horta e dos animais, fazia as refeições, arrumava, limpava e quase não saía de casa. O filho e o marido morreram e ficou a cuidar da dona de casa (uma senhora à moda antiga), falecida aos 99 anos de idade. Nos últimos 20 anos, trabalhando nestas condições e sem folgas, recebia cerca de 150 euros por mês.

. Numa embaixada, R. era insultado, tinha de trabalhar sem limite de horas e sem tempo de descanso. Não tinha autorização para sair, na maioria dos fins-de-semana inclusive (casos similares ocorrem em várias embaixadas e missões diplomáticas.

   A senhora merecia que os abusos e outros similares tivessem conhecido um fim.

 

II - No mesmo nº da revista «Sábado», no mesmo artigo, a mesma jornalista, Catarina Guerreiro, dá a conhecer, com a força de dados, muitas outras situações que apontam ao mundo, perante os quais muita gente sente muita pena:

. Na Índia – as castas tornam a injustiça uma coisa divina, segundo Arundhati Roy - o pó de mica, mineral que dá brilho a maquilhagem e tintas de carros é extraído por 20 mil crianças, na Índia, um país de castas (,) e com 18 (ou 14?) milhões de escravos.

. Na R. D. Congo, 873 mil escravos são, sobretudo na extração de tântalo, muito usado no fabrico de computadores, leitores de DVD e telemóveis que nós consumimos na maior (são ameaçados por militares armados de facas e pistolas).

. Na China, 3,3 milhões de escravos chegam a trabalhar 300 horas por mês, na produção de roupa, flores artificiais, calçado e produtos eletrónicos.

. No Uganda, 244 mil escravos labutam na composição do carvão usado em grelhados, noutros países. Alguns estão ligados ao cultivo de chá, café, tabaco e arroz.

. Costa do Marfim e Gana controlam a produção de chocolate – 70% é feito por escravos.

. No Bangladesh, 15 mil crianças escravas enrolam cigarros à mão.

. Na Mauritânia o problema põe-se com mais gravidade (4% de população vive em regime de escravidão).

    A senhora não merecia a desfeita de saber que muitos destes abusos e outros similares (a bem do negócio) se mantêm.

 

 III – Não anda com muito tempo, uma notícia deva conta que muitas pessoas em fuga da Líbia eram feitas escravas por traficantes e aí muita gente sentiu pena.

       Na ocasião, um jogador de futebol, o senhor Geoffrey Kondogbia, nascido na República Centro Africana e a jogar por um clube de Espanha, no fim de um jogo em que marcara 2 golos, exibe numa camisola interior este dizer: «eu não estou à venda». No Twitter, o centrocampista reforçaria a denúncia: «A rebelião está em movimento. Apoio as pessoas exploradas na Líbia».

        (Sabe-se que a mensagem expressa na camisola interior, completa, rezava assim: «Fora do futebol, não estou à venda».)

       Mal-amanhada, a denúncia foi feita; o senhor merecia ter tido muitos mais seguidores, por mim falo. De mãos atadas, mais facilmente nos invade a dor, ou o estoicismo...

slavery_ndex.jpg

A escravatura (ainda) é uma triste realidade nestes países.

 



publicado por Jorge às 08:42
Sábado, 28 de Abril de 2018

i - As ordens militares soltaram-se, os peões de brega progrediram, as máquinas de guerra acometeram e houve devastação. Construções e património ficaram esfarelado(a)s, pontes foram derribadas e muitos outros equipamentos ficaram inutilizados. Mais importante, muitas vidas humanas (de não militares) foram ceifadas, outras ficaram definitivamente estropiadas e outras escaparam por pouco.

No cenário de guerra, umas quantas câmaras de gravação levaram as más novas ao mundo, sobre aquela hecatombe sem justificação formalizada, tirante a óbvia acumulação de espólios.

Por isso, ninguém apontou o dedo a ninguém.

Eu posso assegurar que fiquei com muita pena.

(Na guerra e no amor é tudo permitido?)

Guerra 1.jpg

Eu amo-te. Não me apetece falar de táticas militares contigo.

 

ii -Um grupo de senhoras proprietárias e moradoras em bairro habitado primacialmente por gente bem remunerada, desceu à praça pública, a contestar a construção de equipamentos urbanos numa área verde do bairro, paredes-meias com uma escola básica do 1º ciclo e uma creche ambas frequentadas por criancinhas que fluíam naquele espaço.

Para ali, a edilidade tinha aprovado a construção de uma novo templo, com adro, centro paroquial, estacionamento subterrâneo e casas mortuárias.

Que o projeto pecava pela volumetria em demasia, eis um argumento de peso.

Eu posso assegurar que, à mistura, havia muita pena dos menores.

(É penoso lidar ou fazer lidar com o fim da vida, quando se está no seu começo.)

 

EDEN.jpg

A minha mãe disse-me que Eva foi criada em segundo lugar, para que nós mulheres pudéssemos ter sempre a última palavra.

 

iii - Há dias, um senhor de longa prática de vida em regiões depressivas falava do contentamento que deveria sentir quem dispõe duma torneira ao alcance. Talvez metade da gente deste planeta que é de todos – seja permitida a aleivosia - usa sistematicamente água canalizada, potável e de qualidade aferida, mais dentro de portas, seja na alimentação, na higiene pessoal, ou na produção de mercadorias e geração de valores. Invariavelmente a água consumida cai das nuvens - que maldizemos, quando poucas bátegas nos dão, ou então quando se abatem em períodos de sobra, de lazer, ou a caminho do trabalho – e posteriormente é carreada até aos fogos habitacionais e de produção.

À outra metade que falta da população da Terra falha o precioso líquido que chega aos locais de produção e de habitação raramente límpido, cristalino e inodoro. E chega, quando chega, quando não as pessoas deslocam-se a armazena-lo nas nascentes, furos, ou poços. Depois essa água é dirigida para os veios que a leva aos diferentes locais de consumo.

O senhor falou daquilo com muita pena.

(O comentário do senhor deixou-me mal com esta vida, temos pena!)

 

Falta água.png

 

O outro desafio do balde

(Poço a 3 km)

 

 



publicado por Jorge às 12:09
Sábado, 14 de Abril de 2018

    Os pirralhos de seis anos da santa terrinha são obrigados a ir à escola do primeiro ciclo do ensino básico depois mudam-se para uma turma de segundo ciclo do ensino básico mais tarde passam a uma escola do terceiro ciclo do ensino básico e acabam o percurso obrigatório numa turma dum estabelecimento de ensino secundário caso não haja nenhum chumbo terminam a escolarização aos dezoito anos e até podem frequentar todos os anos no mesmo estabelecimento de ensino só que em secções distintas caso os pais ou quem por eles façam a vez se furtam salvo seja a enviar para a escola os seus rebentos são quase sempre chamados à pedra e levam que contar bem-feitas as contas são doze aninhos de aprendizagens para um dia dar o corpinho ao manifesto sem trabalho não se fica bem no retrato não se é bom pater-familias e não se sobrevive à maneira.

     Acontece que nestas escolas básicas e secundárias ninguém paga propinas as refeições são baratuchas e até os manuais pelo andar da carroça serão todos à borla quem faz questão de pagar propinas perdão matrículas inscreve os seus rebentos num externato ou num colégio privado que se enchem de betinhos que não gostam de misturas e onde se diz que a ensinança é mais esmerada e recatada o que geralmente produz melhores resultados e impõem os colégios e externatos no topo do ranking das escolas básicas e secundárias às vezes a coisa não é assim tão linear porque os colégios aceitam alunos por favor porque não há no horizonte local escolas oficiais e por conta disso as escolas privadas recebem fortes apoios do ministro da pasta certo-certo é que os governantes da santa terrinha gastam cada vez mais dobrões a contratar professores que cada vez menos gastam cada vez maiores boladas a contratar funcionários auxiliares que são cada vez menos para ensinar alunos que são cada vez menos porque a natalidade já não é o que era dantes.

     Nos politécnicos e nas universidades da santa terrinha a coisa pia mais fino aí cobra-se propinas altas aos jovens e às jovens que se atrevem a frequentar o ensino superior mesmo nos politécnicos e nas universidades oficiais se calhar por isso mesmo alguma malta que acabou o ensino secundário fica pelo caminho a verdade é que nem toda a gente pode ser dótor caso contrário não tínhamos gente que ocupasse postos de emprego vitaliciamente mais modestos em paga mas na santa terrinha também há politécnicos privados e universidades privadas para satisfação das necessidades dos universitários que não gostam de misturas e que apontam a cargos de topo que não empregos onde se tomam as decisões que guiam os agentes económicos e regra geral esses politécnicos privados e essas universidades privadas que ocupam os lugares de topo do ranking das instituições de ensino superior da santa terrinha e algumas até figuram em bons lugares do ranking das instituições universitárias estrangeiras e parece que a tendência é continuar a empregar mais profes que se fazem por geração espontânea ao que parece dando razão ao ditame que toda a gente sabe ensinar bem por acaso cada vez se gasta mais em profes que são cada vez mais cada vez se gasta mais em funcionários auxiliares para dar apoio a cada vez maior número de alunos que a baixa da natalidade não tem feito mossa no ensino superior até ver.

    Na santa terrinha as criancinhas de idade inferior a seis anos já chegam às escolas básicas do primeiro ciclo a dominar os rudimentos da leitura e da escritura da língua mátria e pátria antes andaram em creches infantários ou jardins-de-infância onde aprendem sobretudo a socializar e não só a ver televisão mas a verdade seja dita os governantes da santa terrinha não morrem de amores para o ensino pré-primário não constroem muitas creches infantários e jardins-de-infância isso é sobretudo negócio para os empresários privados do ramos e para as ipss que muito enformam os petizes e as petizas de qualquer forma os governantes da santa terrinha são uns mãos largas em apoios e subsídios ora sabe-se que os pais muitas vezes passam por grandes ralações para arranjar uma creche um infantário ou um jardim-de-infância para os filhos ou filhas eu acho que os governantes da santa terrinha não apostam muito no ensino pré-primário porque não é ainda a idade certa para o Estado intervir primeiro que tratem outros de burilar as mentes tenras caso contrário para apostar na preparação para a vida que é dignificada pelo trabalho aliás isso mesmo recomendam as correntes mais esclarecidas da pedagogia e da didática.

      Na santa terrinha a maioria dos anciãos e as anciãs são reformado(a)s ou pensionistas que já não tem de alinhar com a lancheira às costas com o estresse peculiar das jornadas de trabalho e com as viagens de ida e volta para as velhotas e os velhotes retirados do ativo e a alinhar no passivo é mais sopas e descanso pois já deram o que tinham a dar talvez por isso os governantes da santa terrinha não apostem muito na construção de lares de terceira idade ou de casas de repouso deixam isso mais a cargo de empresários privados do ramos e para as ipss tal e qual como agem em relação à infância primeira de qualquer forma os governantes da santa terrinha dão lautos apoios e subsídios às pessoas e instituições que criam e mantêm lares de terceira idade e casas de repouso mas mesmo assim é penoso às vezes arranjar sítio onde as velhotas e os velhotes possam exercer finalmente um descanso merecido pois bem se dignificaram a trabalhar sendo que merecem agora estar na sossega ou deambular pela santa terrinha e pelo mundo fora caso as reformas e pensões suportem tais ambições e não sejam consumidas a tapar buracos dos descendentes a comprar comidinha e a tratar dos achaques gerontológicos que são fatais como o destino.

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«Podes discordar de mim, filho, mas quando tiveres 500 anos, verás que tenho razão.»

 

 



publicado por Jorge às 11:58
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