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oitentaeoitosim

15
Out14

A criança é pai do homem e da mulher

Jorge

Estava eu ali na horta, feito parvo, a coçar-me das urtigas, a tentar desembaraçar-me dum ervume que daria para alimentar 3 bovinos, durante uma semana. 

Estava eu ali a numa tentativa de amanho de berço para as cebolas e para os nabos, quando se chega silenciosa a Bruna, 3 reis de gente, com 3 anos bem espigados, uma fedelha querida com as birras, as aprendizagens, as brincadeiras e as vacinas em dia.

Quando dei por ela, depenicava um cacho de uvas americanas, de uma videira tardia. Tirava bagos, uns fugiam e lá se punha a persegui-los, outros apanhava-os a preceito e logo os levava à boca, assim verdosos. Pus-me a contemplar a cena, não lhe disse nem ai, nem ui, deixei correr o marfim.

Com que era ela a fautora dos cachos desbagoados!

Decidi intervir e dei-lhe a entender que não lhe faria bem comer os ácinos assim, por amadurecer, podiam causar-lhe um qualquer mal-estar à barriguita.

Ato contínuo, apanho uma uva arroxeada, suficientemente amadurecida, para ser deglutida. Ela, mãozita estendida e sorriso rasgado, aceita-a de bom grado e não tardou a abocá-la, mas só depois de lavada.

Gostou e quis mais, o querer para os infantes não tem limites, os adultos é que o delimitam. Então está bem, pu-la ao colo e mostrei-lhe outros cachos com uvas maduras, que tinham estado fora do alcance da sua vista e da sua altura. Atirou-se a um deles para não mais o largar. Colhi-o e ofereci-lho, já passado por água.

Contente da vida, não se fez rogada e lá se deliciou com aqueles frutos da horta. Papou os bagos todos, chamou-lhes um figo (também gosta, mas acabaram-se). E agora quem a demovia a dar por terminada a sessão? Pelo andar da carroça esgotar-se-iam os bagos maduros, em 2 palhetadas.

Falei-lhe daquele tipo de uvas, que as só se comem quando se lhe escurece a pele. Ouviu, deve ter guardado a informação num recesso qualquer do cérebro pequeno e deve ter dito com os seus botões:

- Passa para cá mais, deixa-te de conversa mole!

Ocorreu-me ir buscar um pequeno escadote, para o qual a fiz trepar, sob as ânsias dos avós e aí depenou os restantes cachos que se atreveram a ocultar-lhe a madurez dos seus bagos.

Deu para ficar de barriga atestada e contente com ela própria e com todos os que estavam à sua volta.

Depois atirou-se às flores, para oferecer à mãe, à avó e a ela própria. De há muito que não a via assim, confesso.

Veem, como tinha razão quem um dia escreveu e cantou que a vida é feita de pequenos nadas?!

Há magia no aprender a comer.

Agora ocorre-me aquele velho dizer: meninos e passarinhos merecem todos os carinhos.

Idem para a criança que sempre habita dentro de nós, os sobreviventes.

Foi um pormenor feliz de um dia sombrio passado numa horta suburbana.

(Ainda desconheço se a Bruna teve disenteria)Nova imagem (25).png

 

 

 

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