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oitentaeoitosim

15
Ago15

Cão que não ladra com razão

Jorge

Aquele casal mailo seu rebento são amigos de animais de companhia.

Para os três, todos os bichos irracionais são animais de estimação, mesmo os que acabam no pratel, uma chacina bárbara a que se deveria pôr termo. «Todos os animais precisam uns dos outros» - ouve-se regularmente a um ou outro. Desde que tinham memória presente, sobreviviam graças a um regime alimentar vegetariano bem ponderado.

Aquele casal mailo seu rebento adotaram um cão minorca, pouco peludo, mas esforçado. Come do bom e do fino e ladrava, quando se trata de assustar. A precato e armado em raçudo, quando não reconhece alguém, ou quando topa um bichano ou outro qualquer ser de nível trófico inferior, a rondar a porta de casa, faz os possíveis por alertar os legítimos donos e vizinhos (omnis canis in porta sua magnus est latrator).

O cãozinho acastanhado daquele casal e do seu rebento tem ordens explícitas para não arriar o calhau dentro de casa, tão pouco distribui o xixizinho pelos 4 cantos das assoalhadas. Cumpre rigoroso para aliviar a natureza: todos os dias, manhaninha e alpardinha não dispensa um passeio higiénico, sem trela, no jardim, numa travessa, numa praia, nas proximidades de uma árvore, arbusto ou erva, tanto lhe faz, a Natureza nunca o deixará de atrair.

O cãozito acastanhado do casal mailo seu rebento obedece caninamente (como é timbre dos da sua raça) e é muito brincalhão. As visitas, uma vez apresentadas pelos donos legítimos, cede aos mimos que lhe prodigalizam, faz uns números aprendidos com os três, para grande enlevo dos presentes.  

Ao canito acastanhado daquele casal e do seu rebento estão reservados outros desvelos: casota à maneira, comida de cão comprada em loja da especialidade, coleira anti pulgas, banho semanal, vacinas em dia, aconchego contra o frio e tinha direito a aquecer os pés ao casal, em tempo de frieiras.

Acontece que, todos os dias, exceto ao fim-de-semana, o casal e o seu rebento saem ao trabalho.E é um deus que nos acuda: o cão late, ganiza, rosna e uiva, um dó de alma! De sol-a-sol, a crise repete-se, todos os dias de semana e às vezes durante o fim-der-semana, guardado para contactos sociais pelos três legítimos senhores (sendo um deles uma senhora).

Um dia, um desconhecido ter-se-á amerceado do bicho de companhia, daquela vida de cão. Vai daí, atira-se à porta de entrada, com as ganas todas, pespega meia dúzia (o relatório oficial da ocorrência aponta para uma dúzia) de pontapé e desfere uns quantos golpes com instrumento adequado, encontrado ali à mão de semear. Resultado: aporta principal cede e, na queda, de raspão, atingiu o au-au de estimação de horas vagas.

Para azar dos pecados dele, o casal e o seu rebento, acabavam de dar à costa, sem aviso prévio, está claro, naquele preciso momento e foi um ver-se-te-avias de taponas, biqueiradas, socos, cabeçadas, cuspidelas, os três molharam a sopa no infeliz, o qual um pálida aspeto de Cristo na cruz. No exercício de represálias daquele trio (a força de um trio supera a de um duo, para já não falar dos singulares), a patroa não deixa os créditos por mãos alheias; curiosamente é dela o golpe de misericórdia: um movimento muito bem executado e bem dirigido às partes baixas deixa o arribadiço prostrado, até à entrada triunfal das autoridades policiais todas.

Last but not the least, o homenzinho metediço vê-se a braços com um par de processos na justiça, um deles por violação de propriedade alheia e outro por sevícias agravadas a animal de companhia. Ainda intenta abrir um processo por maus tratos, mas desiste assim que os circunstantes, para cima de uma dúzia, se riem na cara dele e fazem-lhe ver, a bem, que é um despropósito. Ele não resiste aos argumentos entendidos.

Fica então o intruso preso em casa, com polícia de atalaia à porta, pois já havia recusado o uso, à primeira, de uma pulseira eletrónica e, à segunda, de uma tornozeleira do mesmo jaez, por ser alergia comprovada. Eis que se levanta uma missão (quase) impossível para os agentes de autoridade que andam numa fona, é que o indivíduo anda por aí, sem teto fixo.

O au-au, à conta de trauma do episódio, perde o pio e, embora rosne de mansinho, passa a abocanhar e a morder tudo o que apanha pela frente, de tal sorte que o casal mailo seu rebento – continuam a fazer sempre igual, todos os dias - já se voltam contra ele. Inclusive sofreu a ameaça explícita de o porem a andar porta fora, a sua conversão em teatino, caso não supere esta fase de mau relacionamento. A manter-se a conjuntura atual, na melhor das hipóteses, tencionam os proprietários legítimos trocá-lo por um perdigueiro, que a caça tem futuro.

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