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oitentaeoitosim

18
Mai15

Contos de fados (XIV)

Jorge

Juvino é acometido duma inflamação súbita do joelho direito, uma cena recorrente na sua já longa existência, por conta do ácido úrico, uma substância que faz estragos no organismo dos humanos, quando se passa dos limites.

- Os excessos nunca são virtuosos! - Sentenciou uma vez a sua avó e ele nunca a esqueceu.

Desta feita a inchação era descomunal. Nem se deu ao incómodo de visitar a médica da sua família, no centro de saúde que, apesar de bom governo, não se prestava à contingência. Fez-se deslocar à urgência hospitalar da zona, após alguns dias de hesitação.

(A talhe de foice, médicos de família têm cada vez mais pessoas a seu cargo, é como nas escolas com os profes. Profissões cada vez menos procuradas dá nisto!)

Juvino inscreve-se, paga a taxa moderadora (o quê?!), vai à triagem, dão-lhe uma pulseira e instala-se na sala de espera. Não vai tardar muito, a ver-se livre daquela arrelia, anima-se…

(Os nossos incómodos são incomparavelmente mais importunos que os de todas as outras pessoas, nas mesmas circunstâncias).

Juvino, na precipitação da decisão, não trouxe consigo um livro, um jornal, uma revista que fosse. Portanto, vai circunvagando a vista, que a tevê não o seduz. Olha-me aquela jovem (jeitosa, por sinal) ali tem-te-não-caias! Na flor da idade, este e outros desmandos no género podem fazer perigar um percurso laboral que é a razão de ser da existência…

(Tivesse ele outras posses e teria encaminhado os passos curtos a um estabelecimento de saúde privado, aí toca outra música!)

Juvino muda de posição na cadeira que ainda não está estragada, como outras ao alcance da sua vista, ora respira fundo, ora medita, mas acaba sempre por espraiar o olhar pela sala, a dar-se conta de quem foi atendido, das novas chegadas e da azáfama de bombeiros e pessoal médico das ambulâncias que vão chegando.

(Ninguém gosta de ser ultrapassado, ou não estivesse essa coisa da competitividade na massa do sangue!)

Juvino agora vai à máquina de vending, modelo antigo, a tirar um café, oxalá funcione. Funcionou, o café é que não é grande espiga, mas bebe-se. Já agora uma aguinha para fazer face à espera. Volta a sentar-se, noutra cadeira em condições. Então, ocorre-lhe à memória aquele aviso de «estrada em mau-estado», ostentado a par e passo na estrada que o trouxe ali, antes valia que a remodelassem...

(Uma espera em desconforto tem destas coisas, é sempre assim: deseja-se o melhor e espera-se o pior).

- Olha quem é ela, a Alzira, que te traz por aqui?!

- Vim acompanhar uma tia.

- Há tanto tempo que não te via!

- Igualmente.

- Estou reformado.

- Eu também!

- Então, o que tem a tua tia?

- Está para ali que nãos e aguenta de pé, um caso bicudo, pediu-me que a acompanhasse.

- Temos que ser uns para os outros, eu vim pelos meus próprios meios, não vejo a hora de me ver livre deste trambolho no joelho…

(Quem conversa não conta horas.)

Juvino reparava no chão, algo encardido da sala, quando entra porta dentro, lazarento, tinhoso, escanzelado, pestilento e chaguento, uma amostra de cão. Põe-se a vaguear entre utentes e muitos, carregadinhos de peninha, atiram-lhe um pedaço disto e daquilo; o bicho não se faz rogado, abocanha sofregamente os cibos e continua a passear por ali, como se fora convidado habitual.

Juvino nada dá aquela amostra de carnívoro digitígrado, antes abana a cabeça, em denúncia civicamente surda. Entretanto a criatura em estado de dissolução sai pela mesma porta por onde tinha entrado, de livre alvedrio, largos minutos depois, sem ser intercetado ou molestado, as coimas tolhem os movimentos mais atrevidos.

(Nos gabinetes de atendimento ninguém para um segundo, é toda a minha gente a bulir!)

Juvino é chamado e atendido por um clínico atencioso, disposto a reduzir o inchamento, em segurança. Tinham decorrido 4 horas sobre o seu ingresso, quando lhe extraíram líquido do joelho e ele pôde voltar mais folgado para casa.

Sai a pensar que a profilaxia um dia terá lugar cimeiro na saúde. Talvez, então, já não haja esperas destas para ninguém.

Por acaso, só então repara que a sala de urgência, exibe um alerta sobre procedimentos higiénicos tendentes a evitar infeções naquele espaço.

(- Deve ter sido colocado agorinha!)

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