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oitentaeoitosim

15
Jun15

Cenas (2ª)

Jorge

Eram 5 amigos, que, depois de muita conversa, decidem ser altura de levantar âncora da sua zona de fraco conforto e triste consolo (o habitual para a maioria destas bandas), no tempo da velha senhora. O que lhes é permitido ganhar mal dá para o pão e para o tabaco, só para aquecer e a recruta ali tão perto... Usar e deitar fora, é a prática habitual.

Fartos daquela sociedade oligárquica, com cada macaco obrigatoriamente em seu ramo, em que se põe e dispõe bel-talante das pessoas que não nasceram de rabo voltado à lua, pois o destino traçado à nascença assim o determina, decidem ser a altura certa de se porem ao fresco. Vão desarvorar dali-para-fora, assim não dá!

- Para onde vamos, por onde vamos? – A questão é levantada pelo mais expedito.

Pensam em voz baixa, durante algumas noites, até que fica claro o destino: irão para terras de França, a salto, não pode ser de outra sorte, ora bem!

Alguns dias depois, há novo encontro dos 5, às escuras e às esconsas.

- Como vamos, quando vamos? – A questão é levantada pelo menos expedito.

É isso, é preciso encontrar um engajador que cumpra com a sua palavra, como qualquer empresário que se preze. Fica decidido que vão abordar Fulano-de-tal, para que os levem a porto seguro, no mais breve lapso de tempo. Logo ali é sorteado qual deles estabelecerá tal contacto.

Não há tempo a perder, rapidamente se chega à fala com o tal Fulano-de-tal, um perito em candongas, que aceita a incumbência, por isso acerta custos e trâmites a seguir. Será daí por 2 meses. Seguirão de táxi, sicrano de tal é pessoa de confiança, não vai dar com a língua nos dentes, ele leva-vos até um sítio que eu cá sei e depois pelos próprios meios, até Paris.

Famílias avisadas, reúnem os parcos teres-e-haveres em malas de cartão ou mochilas mal-enjorcadas, pela calada, que o seguro morreu de velho!

Pela idade, estão proibidos de deixar o solo pátrio (mal sabem eles que num futuro próximo a saída sem peias e sem pieguices será incentivada), a guerra quando declarada é para todos os mocetões da pátria que se faz amar, pacta sunt servanda, que é como quem diz que dos pactos assinados (à nascença?) com deus, pátria e família, não se lhes pode fugir. Outros há que acham que tais pactos nem lembram ao diabo e não têm ponta por que se lhe pegue. Estavam neste último caso os 5 amigos. Era ainda cedo para ir ter com os anjinhos, sem terem tomado o pulso à vida!

No dia aprazado, saem antes da alvorada, lágrimas contidas e coração desfeito, são encaminhados ao chofer que os levará a Nice, abrindo de par em par as portas do eldorado. Na hora são feitos os pagamentos acertados, arrumam as trouxas na bagageira e ei-los a caminho da aventura, coração nas mãos e expetativas no máximo. Os pontos nevrálgicos – há muitos agentes que não transigem! – são evitados a todo o custo, o dia até ajuda, chove que deus a dá, pôs-se o tempo de má catadura, isto vai, malta, isto vai! Tudo correu sem grandes sobressaltos, de facto.

Transcorridas horas que parecem infindáveis, alpardinha, volta-se o chofer para os 5 amigos:

- Chegámos, amigos, chegámos à terra prometida, ora vejam! – Diz, apontando uma placa sinalizadora, onde se lia Nice.

- Já chegámos a França, sempre julguei que demorasse mais tempo, até pelo guito?! – Comentou um que não era nem o mais nem o menos expedito.

- Peguem nas vossas coisas e mexam-se ou ainda damos nas vistas. Paris fica sempre em frente, não há que enganar! Mais cedo partam, mais depressa lá chegam e tanto melhor para vocês e muitas felicidades!

Apressam-se a seguir o trajeto indicado e chegam a Paris, bastante tempo depois, diga-se de passagem. Quando isso aconteceu, já houvera tempo para que fossem declarados trânsfugas e para que as autoridades da terra natal tivessem tentado tirar nabos da púcara junto de familiares, amigos, inimigos e assim-assim sobre o paradeiro deles. Até as guerras a que se haviam furtado estavam a dar as últimas e eles já tinham comido muito pão amassado pelo séquito de rabudos que tinha escolhido França para palco das suas safadezas.

Transcorre inexorável o tempo, o tal que baralha tudo e que não perdoa alguma vez, atitude pouco louvável diga-se. Por isto e por outras coisas mais, o tempo foi escorraçado do éden.

Anos depois, os 5 amigos voltam às berças, contentes e felizes com a nova vida, e in loco se asseguram-se que ninguém lhes levou a mal a saída extemporânea. Antes foram sempre apontados como heróis, por terem desfeiteado o regime dito de novo, mas que era mais velho que a sé de Braga. Mais, era-lhes gabado a virtude de terem ocorrido sempre às suas famílias nas suas necessidades.

Por isso, apreciam aquele mês muito intenso, decorrido entre recordações, emoções e paixões.

Ainda arranjam tempo para uma combinação: o reencontro com o chofer que os tinham levado, no local de partida, à mesma hora, do mesmo dia e do mesmo mês.

O chofer foi mais tarde encontrado com 5 balas alojadas na cabeça e disparadas de uma arma comprada de véspera.

- Com que então Nice de França, deixaste-nos em Nice de Portugal, cabrão!!! – Regougaram os 5, à vez.

Aqueles amigos nunca mais voltaram às berças, está bem de ver.

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