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oitentaeoitosim

22
Mar14

Cenas do País Tetragonal (XIX)

Jorge

Contemple-se esta paisagem: uma vila sóbria, arejada e aprimorada (conquanto azarada, vai saber-se depois).

De uma assentada perde duas escolas primárias antigas e outras duas, recentemente inauguradas, com pompa e circunstância, há um par de anos, por autoridades centrais, regionais, locais e clericais, devidamente aquilatadas para o evento.

Razão aventada: estava em marcha uma reforma para implementar um ensino de qualidade e de proximidade.

Essas ex-escolas de 1º ciclo são adquiridas ao preço da uva-mijona, por familiares de ex-autarcas entendidos no assunto. Estão por inaugurar a breve trecho hosteles aprovados pela edilidade num abrir-e-fechar-de-olhos.

Meses depois, toca a mesma sorte à agência dos correios da vila, a funcionar em instalações catitas, recentemente inauguradas com o contributo de figuras gradas do poder central, regional, local e clerical, devidamente certificadas. Vai à vida, enquanto o diacho esfrega o olho são.

Razão avocada: estava em marcha uma reforma que visava reduzir à expressão mais conveniente os próprios nacionais, em todo o território pátrio, que isto de menos Estado é para ser aplicado em todo o mundo.

O edifício continua às moscas, apesar da chusma de potenciais compradores. O charivari, levantado na ocasião, à volta do futuro da empresa-mãe - não se sabia se cairia para Coa ou para a Bolsa – tem vindo a protelar uma decisão rápida, tão usual por estas bandas.

Meses depois a simpática vila vê-se amputada do centro de saúde e do SAP que funcionava em instalações há pouco inauguradas por autoridades das tutelas todas.

Razão aduzida: estava em marcha uma reforma que haveria de proporcionar mais quantidade e melhor qualidade das valências na área da saúde, a todo o território pátrio.

O uso da ex-repartição foi endossado à Santa Casa a qual logo tratou da implementação de uma clínica polivalente bem capacitada para reduzir a cinzas a concorrência num raio folgado de quilómetros à volta…

Meses depois fica minguada de juntas de freguesia, 4 por acaso, todas elas bem instaladas e de fresco, com todos os matadores, por quem de direito.

Razão trazida a lume: estava em curso uma ampla reforma das autarquias, destinada a servir melhor os eleitores.

A solução para as instalações supervenientes ainda não está decidida, não se sabe ao certo se haverá extensões das juntas de freguesia que continuam em exercício de tarefas. No entanto, crê-se que ficava melhor no espírito da época, se dessem lugar a delegações locais de associações ligadas à caridadezinha.

Meses depois a repartição de finanças vai ao ar (salvo seja!), a qual  operava num prédio de traça moderna, recentemente inaugurado, com todo o luzimento, pelas autoridades representativas dos interesses da  localidade, da região, do distrito e do país.

Razão invocada: estava em execução, no espaço nacional, uma reforma profunda que serviria melhor os contribuintes que pagam e não bufam, bem como os prevaricadores do território pátrio.

Uma empresa chinesa ofereceu-se para investir na compra do mamarracho por crer que os segredos amplamente guardados possam ainda pairar por a, o que facilitaria a formação de uma joint venture com emboabas das cercanias que dão garantias. A decisão ainda não está tomada, pelo facto de as (muitas) entidades envolvidas no trespasse persistirem no empolamento de indemnizações compensatórias.

De tresantontem chega a notícia que a vila irá perder o tribunal, recentemente inaugurado, com a presença das autoridades afins, com bênção das instalações e seguida de animado beberete.

Razão avançada: estava em aplicação uma reforma destinada a aproximar os cidadãos da justiça, no território pátrio e ali não se cometiam delitos suficientes para manter a porta aberta ao domus iustitiae.

Presume-se que as instalações, de primeira água e fresca data, hão de acolher a futura delegação governamental do jogo-do-bicho, a nova coqueluche legislativa dos senhores do mando.

Na senda das reformas que conduziram a fechos em nome da austeridade, estão muitos lotes para construção, muitas vivendas e andares que valem pouco mais que tuta-e-meia. Muitas estão por inaugurar, poucos lhes pegam. Por isso os empresários do ramo estão a tentar comprar as águas dos munícipes e a deposição de lixos em aterro municipal. Prevê-se muito choro e ranger de dentes nos próximos tempos.

Têm sido vistas pessoas, recatadas de modos, a cheiricar, pelas redondezas. Diz-se que algumas terão ligações ao desporto-rei, ou serão espiões de grandes emblemas. Já se imagina a funcionar ali um entreposto de futuras aquisições por fundos financeiros internacionais ou um reformatório de árbitros.

Um bichaço da terra acaba de sugerir a adesão desta recatada vila à federação internacional das cidades-fantasmas, o que poderia valer a montagem de desfiles de fantasmas, de bruxas e bruxos e mesmo de zombies.

De resto a paisagem mudou um pouco, mas dá para sobreviver.

 

 

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