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oitentaeoitosim

22
Jul18

Close-up 2

Jorge

Onde mais fundo vai o rio, aí menos ruído faz.

Adágio

 

    Não anda com muito tempo, por acaso dei atenção a certa reportagem incluída num serviço informativo das 13 horas a que dou atenção em diferido, à uma porque fujo a notícias desinteressantes, em segundo lugar porque detesto o conúbio entre notícias e publicidade.

    Não se pode despachar os anúncios todos no fim dos telejornais? Assemelha-se contraproducente e rebarbativa a mistura entre passível factualidade e a factual boçalidade. Estão a ver o género, depois de uma notícia de um acidente fatal numa estrada, entram anúncios (quase sempre do estilo lingueirão, acéfalos, portanto), tendo à cabeça semblantes voluptuosos de quem curte estar ao volante dum popó altamente, mas ao preço da chuva?!

    A peça em questão dava conta de uma iniciativa de um grupo de cidadãos portugueses – militantes duma associação benemérita -, que se manifestavam, na capital, a favor dos direitos dos animais que são exportados vivos, em barcos, mas em condições tidas por degradantes, às 3 pancadas, para certas partes do mundo.

    Manifestamente há aqui desvios às normas instituídas, quando:

    - Os animais são embarcados pela porta do cavalo, para que não sejam visíveis as tropelias cometidas já no acesso a bordo.  

    - Muitos dos animai exportados vivos morrem, ao embarcarem, durante a estadia (más condições de peação), ou no desembarque.

   - Os animais, uma vez embarcados, não dispõem de condições de assistência a bordo, são postados a trouxe-mouxe no espaço a que ficam confinados, comem os que podem, não conseguem descansar em condições.   

    - Como se não bastasse tais condições degradantes, as fezes acumulam-se, sem que haja um esforço mínimo de higiene, inclusive os animais podem ser vítimas de sevícias, durante a viagem, ou mais tarde nos matadouros, antes de lhes desfecharem o golpe de misericórdia.

    Antes a morte que tal sorte! Já vai sendo tempo de serem implementadas a sério as disposições internacionais que regulamentam estas trocas comerciais. Melhor fora a proibição cabal das trocas de rezes vivas, sejam elas destinadas ao consumo de pessoas que, antes do abate, as querem ver vivas e sujeitas a normas teologais estritas, seja por razões reprodutivas.

    Foi então que me dei conta da presença do Sr. Geraldo, um meu conhecido de fresca data, no meio dos manifestantes, naquela manife comemorativa do Dia Contra o Transporte de Animais Vivos.

 

    Conheci o Sr. Geraldo, no fim duma caminhada - prevista para todos os dias, mas nem sempre cumprida, para mal dos meus pecados e problemas de saúde –, a qual se prolongara por largos 30 minutos.  

    Na oportunidade, surpreendi-me ao ver um senhor, debruçado sobre o seu cão - devidamente atrelado e aparentando estar bem registado - e que limpava um presente que o bicho depositara no passeio público. Pareceu-me, que trazia igualmente uma garrafa com água de litro de água, decerto para acorrer à limpeza assim que o bichano vertesse águas.

    Aproximei-me do senhor que não conhecia de parte alguma:

    - O senhor merecia um prémio!

    - Desculpe, se não o acompanho! – replicou o Sr. Geraldo.

    Dei-lhe os parabéns pela correção da sua atitude, pois tenho visto poucos amigos de cães dispostos a cumprir com recomendações e normativos. O espaço público é fruído ao sabor da real gana de cada um, sem incómodos por-aí-além, a não ser que surja um reparo mais vivaz de um outro circunstante, logo devolvido à procedência (se todos os amigos de cães dispusessem de mais espaço habitável, outro galo cantaria!).

    - Aqui onde me vê, acho que se deve cuidar bem dos bichos, sem multiplicar incómodos para a vizinhança!

 

    Desde então, tenho trocado amiudadas opiniões e tido frequentes tocas de cumprimentos com o Sr. Geraldo. Mais, já está apalavrado que, num destes dias, vamos trocar mais ideias, num restaurante, o que pode ser o início de uma boa amizade.

    Por conta dessa proposta, ando preocupado: não me conto no número crescente de apreciadores de animais de companhia (escusada); não sou muito de touradas, mas aceito plenamente exibições de bichos nos circos, em zoológicos, oceanários, aquários e correlativos; mais, resigno-me perante o quadro de muares e equídeos a alombar com carregos; não recrimino as caçadas e sou apreciador de um bom naco de carne de animais criados em cativeiro (que, por acaso, na hora do derrube, passam suplícios tantálicos).

    Por gentileza, terei de omitir estes meus pecadilhos ao Sr. Geraldo?

    Temas para conversa não faltarão: à cabeça, como não podia deixar de ser, as condições indescritíveis que presidem ao transporte de animais exportados vivos para abate ou para reprodução; naturalmente que o desrespeito pelas disposições legítimas ao lidar com bichos de estimação; eventualmente, para não fugir muito ao tema, os métodos dilacerantes usados no abate de bovinos, porcinos, patos e frangos, etc. são um bom tema para mais 2 dedos de conversa, não esquecendo; os direitos dos animais (entre os quais o acesso ao seu ambiente e/ou reserva natural).

    Não seja por isso, assunto para conversa à mesa não faltará!

    Mas, outra coisa me traz preocupado: será o Sr. Geraldo vegan ou vegan? É provável, não tem ar de quem frequente casas de pasto banais (antes freegan!)...

    É que quem opta por sistema de alimentação alternativo raramente abdica uma só vez dos seus princípios. Por uma vez sem exemplo, eu não me importarei de abdicar de uma comidinha enfarta-brutos. Mas, há por aí boas alternativas, como sejam as especialidades provindas da Tailândia, da China, do Japão e até da Índia e do Nepal, para variar, não fica mal...

    Afinal, sabe bem viver econviver em países em que os bichinhos de estimação já ocupam uma boa talhada das conversas (moles) da malta...

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