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oitentaeoitosim

05
Mai15

Contos de fados (XII)

Jorge

Nota prévia: Tivera lugar uma paralisação atípica, mal-amanhada, de personalidades pouco afeiçoadas ao poder das ruas, que seu é o efetivo, o dos gabinetes. Reivindicavam para toda a gente (mas sobretudo para os seuis mais próximos) a liberdade de ser ensinado onde bem se quisesse, à pala de próprios nacionais, de preferência.

 

No banquete cerimonioso que se seguiu tem a palavra um senhor bem-posto e que não gosta que lhe falem à mão, fala ao coração:

- Mas que falta de consideração pela vida dos clientes das casas nossas, nunca se viu tal!

Os escutadores curvam-se reverentemente. Amém!

 

O senhor, diserto e com mãos de anéis, volta à carga e debita:

- Mas que falta de consideração pela vida dos amigos das casas nossas, jamais se viu um desplante destes!

Os escutadores acurvam-se reverenciosamente. Amém.

 

O senhor, bem-apessoado que dantes assentara a mão na governação, perora:

- Mas que falta de consideração pela vida dos amigas dos clientes da casa, não há memória!

Os escutadores dobram-se reverencialmente. Amém!

 

O senhor, um taful que fala pelos cotovelos, volta ao ataque:

- Mas que falta de consideração pela vida das mães dos clientes das casas nossas, abrenúncio!

Os escutadores vergam-se com reverência. Amém!

 

O senhor, cheio de verve e que não dá ponto sem nó, remoqueia:

- Mas que falta de consideração pelas vidas dos pais dos clientes das casas nossas, por amor à santa!

Os escutadores dobram-se com modos venerabundos. Amém!

 

O senhor, bem-posto e que fala ao coração, aclama:

- Bem-aventurados os que se opuseram firmemente à paralisação decretada por um bando de sacristas que querem mandar nas nossas casas, sem nosso consentimento!

Os jantantes ainda se torcem reverentemente. Amém.

 

O senhor, diserto e com mãos de anéis, proclama:

- Bem-aventurados os que dão o peito às balas e tudo fazem por ajudar a compor com as ajudas que são devida às nossas casas! 

Os jantantes ainda conseguiram contorcer-se reverenciosamente. Amém!

 

O senhor, bem-apessoado e que assentou a mão na governação, conclama:

- Bem-aventurados os que, como nós, querem que nos desamparem a loja os lesa-famílias e os lesa-pátrias, apostados em derrubar aos apoios devidos às nossas casas!

Os jantantes retorcem-se com reverência. Amém!

 

O senhor, um taful que que fala pelos cotovelos, reclama:

- Bem-aventurados os que, como nós, foram injustamente apelidados de pelegos, quando, ao invés, apenas se luta pela liberdade que temos de gerir as nossas casas à boa maneira!

Os jantadores ainda conseguem retorcer-se reverentemente. Amém!

 

O senhor, cheio de verve e que não dá ponto sem nó, com venera na lapela, declama:

- Bem-aventurados os que não rasgam compromissos por assinar, assim do pé-para-a-mão e que sabem, como nós, levar a água ao seu moinho, sem tergiversações!

Feitos num 8, os jantantes expetantes, mal têm forças para gritar. Amém! 

 

A vizinhança, farta de tanta falação e alta grita e a horas impróprias, diz-se vítima de desconsideração; feita a participação a quem de direito, chega a ordem de levantamento de rancho e do circo montado. O senhor, verboso prestidigitador de palavras e um mãos-rotas do parlapié, de venera solta da lapela, dá de mão da pregação. No entanto ainda lhe escutam:

- Mas que falta de consideração!

Amém!

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