Quarta-feira, 12 de Fevereiro de 2014

(Des)ditosa

 

Leonilde já não sabia que voltas mais dar à cabeça e à vida. Tinham ido parar ao prego as últimas joias da família. Nas circunstâncias normais de funcionamento dos mercados, decuplicaria a importância recebida, mas em tempo de guerra não se limpa armas.

(O resgate das pedrarias penhoradas estava fora de questão.)  

À custa de privações, conseguira manter em sua posse aquele habitáculo rústico e anoso, cada vez mais valorizado pelo fisco, mas mais decadente a olhos vistos. Ali via desfilar os seus dias, à espera de melhores dias

(Os milhanos e os condores exercitavam contorcionismos de mau-agouro e crocitavam pelas redondezas.)

Muitos dos tarecos do recheio da habitação tinham ido à vida, em transação de poucos cruzados da sua transação. O casitéu estava a demandar obras, estava para ali tem-te-não-caias. Soprasse o vento sem tino e ficaria reduzido a monte de escombros e tralha.

(Casa de férias, casa de montanha, férias, recordações mirabolantes de um passado bem passado.)

Leonilde, entresilhada e entanguida de modos, maneiras e gastos, dava-se por satisfeita com um mínimo de qualidade de vida que conseguia manter. Incapaz de dar por paus e por pedras, mantinha uma fé cega que um milagre a afastaria do charco que bispava em sonhos de pesadelo.

(Estava ainda ali para as curvas, nunca quis sobraçar céu e terra, mas gostava das coisas boas que a vida pode proporcionar)

Felizmente que ficara para tia. Contava-se pelos dedos de uma só mão os parentes lhe cobiçavam a magra fortuna.

O chão da quinta já tinha dado uvas e azeitonas, mas já não as dava, por imposição do contrato de atribuição de subsídios comunitários que impunham as terras maninhas, em alqueive e as árvores inânimes ou exânimes.

Leonilde não se podia queixar, recebera bom dinheiro para levar a cabo tal desígnio, mas, agora que se haviam esgotado os fundos de maneio, provavelmente teria que fazer o que nunca fizera na vida.

(De roceira nem perfil tinha, mas de alfaces, couves, batatas e tomates toda a gente sabe cuidar, caramba! Também ela, pois está claro!...)

O que a tramava era aquela malfadada dor nas costas, persistente como a bruma dos dias, deixava-a nas lonas. Teria de trabalhiscar a custo, vergar a mola para dar ao serrote, paciência!

(Empalidecia só de pensar no que aí vinha.)

O merceeiro já não fiava e o banqueiro retirou-lhe todos os cartões de crédito e de débito. Para o carro, de baixa gama e fraca estima, o gasolineiro não fiava combustível.

(Os pergaminhos a defender não lhe permitiam encher o depósito e pôr-se na alheta, à má fila. Mas, já lhe tinha sobrevindo a ideia, uma vez, sem exemplo…)

Os trapinhos estavam no fio e o calçado quase na última? Paciência, melhores tempos sobreviria, tinha cá uma fezada numa mudança, para melhor!

Sugeriram-lhe que pedisse certificação que a habilitasse a descontos, que fosse à junta da freguesia. É o vais, o orgulho não deixava!...

Que fosse ao tribunal da comarca, sito a uns bons 100 km de casa, depois da última reforma do sistema judicial, a declarar falência, por estar empenhada até à raiz dos cabelos.

(As privações domam a autoestima e travam a clarividência.)

Leonilde estava na eminência de pôr pés a caminho, quando, se inteira pelo rádio – único meio de contacto com o exterior longínquo – da boa nova.

Vinham aí os fundos comunitários, arduamente disputados pelo Estado de cá que tinha de entrar com metade da vaca, para investir em infraestruturas (ou para acudir às PME, a conversa-de-chacha do costume.)

«Estou salva!!!» - a grita troou à moda do Ipiranga.

O sol havia de abrilhantar-lhe o resto da vida.

 

 



publicado por Jorge às 11:09
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