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oitentaeoitosim

15
Out15

Em Batatívia (19)

Jorge

Todos os dias passo pelo jardim cá do sítio uma espécie de oásis que em boa hora o regedor fez questão de assentar no meio da argamassa dos carros e da poluição dá gozo cirandar por ali respirar ar um pouco menos poluído fazer algum exercício e até de provar da água do fontanário plantado ao centro daquele mini bosque incipiente de ervas arbustos e árvores que trazem um pouco de alegria à vista sim a vista também precisa de ser apaparicada que a beleza faz bem à saúde no jardim por exemplo não levo com os carros em cima o que é muito bonito como o respeitinho embora já se diga à boca pequena que está em andamento um abaixo-assinado dos mais modernos que são assinados por peticionários e visados que solicita a disponibilização de um pedacinho do jardim precisamente aquele fragmento com bancos e mesas onde os velhotes costumam jogar à bisca lambida e à vermelhinha quando calha e as velhotas se sentam a dizer mal da vida há muito que os comerciantes das redondezas pequenos e médios sobretudo reclamam dos poucos lugares de estacionamento e não há direito que a peste grisalha deite mão a regalias que não têm os potenciais clientes deles e até não está mal vista a petição que facilita a vida a toda a população seniores inclusive que também compram.

    Quem gosta muito de palmilhar o jardim é a Gertrudes uma mulheraça dona de casa assumida e bem informada que tem por caraterística marcante do seu caráter a capacidade de indagar sobre este e aquele sobre isto e mais aquilo não perde uma gosta de aproveitar as horas vagas a recolher dados de forma a manter-se atualizada na sequência aliás duma longa prática política e a uma não menos extensa práxis cultural da santa terrinha que estabelece que saber da vida alheia e às vezes ignorar o que vai por casa dá estatuto e frutos claro que Gertrudes tem orgulho em manter vivos usos e costumes de antepassados ilustres que se puseram a bilhardar feitos andarilhos por terras nunca visitadas por gente interesseira um dia alguém se interessou a sugerir à Gertrudes que procurasse uma ocupação mais sonante que não aquela apagada e vil tristeza de tomar conta de tachos e de trapos podia ter futuro garantido na espionagem industrial ou desportiva mesmso que não que se sentia realizada e a conversa morreu por ali ou não fosse ela azedar.

    Sabe-se de fonte segura que na semana passada Gertrudes evitou um triste desenlace como de costume tomava o pulso à situação ali para as bandas do jardim que esteve 12 anos à espera de ser construído eis senão quando lobriga pelo canto do olho direito a Ernestina toda aperaltada quietamente sentada num banco recatado do jardim pulgas me mordam se aqui não há gato e ato imediato assesta as vistas na Ernestina que às tantas se põe verde depois fica alagada em suores frios e aí a Gertrudes sopesa bem a situação e prevê um fanico com queda à frente e se a Ernestina caísse quase de certeza que havia de malhar com os ossos em cima de uns contentores metálicos de lixo postados ali mesmo ao lado vai daí Gertrudes corre a bom correr a tempo de amparar a Ernestina e de chamar o inem depois a Ernestina recompõe-se rapidamente a ambulância cai inadvertidamente num buraco e ela recupera a tempo de pedir que parassem que a deixassem sair por tudo o que mais de sagrado que tivessem nesta vida perante tanta aflição o pessoal médico e paramédico cede viviam na ignorância que o homem dela trabalhava no hospital mais próximo pior ainda era muito ciumoso e logo podia somar 2 com 2 que fazem 4 podia cheirar-lhe a passo falso da legítima companheira e estava montado o cenário para uma tragédia grega.

   O senhor João que é outro frequentador habitual do jardim queixava-se num dia destes da quantidade de plásticos garrafas sacos preservativos embalagens de comida etc. que jazem em maior abundância no jardim e por todo o lado enquanto passeava o seu cão sem trela à vista por uma espécie de atalho que é um autêntico depósito de presentes daqueles bichinhos de estimação dizia ele que a santa terrinha anda numa bagunça anda toda a gente preocupada em poupar que não resta tempo para outras coisa como cuidar melhor do ambiente então o lixo qualquer dia toma conta de nós aí a sua companheira de longa data a senhora Teodora igualmente reformada disse não vás sem resposta e põe-se a zurzir nos fumadores que abandonam montes de priscas se houvesse tantas beatas nas igrejas ou nos salões deus estaria mais contente se esses indivíduos gostam de fazer mal a si próprios que o façam estão no seu legítimo direito mas deitem as bias nos cinzeiros fica feio e deixa mal a santa terrinha perante quem nos visita e isto não é culpa do nosso primeiro mailos seus apóstolos tenham lá paciência tomara eles terem tempo e arte para sacar e nos deixarem nosso e na pele.

     Antontem dei comigo a reparar na falta de tinta nas marcações das ruas que vão dar ao jardim pelos vistos custa uma nota preta cada balde porque ela mal se vê depois pus-me a contar os buracos não sei bem porquê mas deu-me para aquilo olhem perdi-lhe a conta agora das 3 uma ou há falta de alfaias adequadas em tempo de crise poupa-se nas reparações pelo que alguns engenhos do estaleiro não passam sendo por vezes abatidas ao ativo segunda há falta de tinta de alcatrão ou de betumes ou lá que raio é na santa terrinha terceira as matérias-primas estão a preços incomportáveis e estava para ali meditabundo até já tinha eliminado as 2 primeiras hipóteses quando topei a Teresa uma amiga que é administrativa numa empresa que importa crude e exporta óleos para alegria do nosso primeiro e seus acólitos que me asseverou que ela também não percebe por que razão as estradas estão esfarrapadas segundo ela o crude está ao preço da uva mijona o que me deixou banzado e patati-patatá avançou com uma explicação profunda e eu para ali a fingir que percebia mas pesquei pouco da explicação dela.

   Diz a Teresa que os preços das coisas que fazem falta a todos os homens e a todas as mulheres da terra são apostos nas bolsas de valores quanto a estas há umas mais importantes que outras por exemplo as bolsas de valores da santa terrinha não valem um chavo comparada com a maioria das bolsas de valores dos States por isso estas fixam os preços das coisa em todo o lado sabe-se lá por que manigâncias financeiras ora os preços do crude nas bolsas dos Sates têm vindo por aí abaixo logo o preço do alcatrão dos betumes ou lá que raio é também vem igualmente por aí abaixo até já deveriam constar dos pacotes da caridadezinha não fosse a entronização da inflação que é uma coisa intocável sobretudo nos países à rasca que é para eles crescerem mais depressa ora se os preços do alcatrão dos betumes ou lá que raio é estão suportáveis então não é por aí que o gato vai às filhoses também não há faltas de operários tal o desemprego se calhar as tintas estão caras mas isso só explicava a faltas de marcações nas ruas que não os buracos.

   Ao Fernando que é um amigalhaço e peras já ouvi comentar que não é vergonha ser pobre mas pobre e desmazelado à vez envergonha pior ainda só um rico releixado que não é propriamente o caso da santa terrinha ele é dos que acha que a má apresentação e o desleixo promovem o turismo contrariando assim a postura da senhora Teodora salvo seja.

 

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Receio que seja tarde para limpar a secretária sem perturbar o delicado ecossistema) 

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