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oitentaeoitosim

01
Mai15

Eu quero aplaudir!

Jorge

O ancião entra nas catacumbas do metropolitano, arrimado à sua fiel bengala. Com passo incerto, desce um-a-um os degraus – recusa a sugestão do elevador, ainda está para as curvas! - que o deixarão na plataforma da linha vermelha berrante. Pele encarquilhada, cabelo escasso, passada insegura, gestos (agora) imprecisos, assim se apresenta a um exame mais atento que não o dos passageiros apressados que o ultrapassam sem olhar a quem, sem dó nem piedade.

Se alguém nele reparasse mais atentamente, veria que o matusalém vai apresentável na sua farpela, fatinho de todas as ocasiões, gravata de tempos idos e sapatos acabadinhos de serem bem tratados pelo engraxador de quem é fiel cliente há décadas e que tem um magro sustento, coitado! Sapatos de couro (tá queto, ó mau!) migraram para as altas esferas, o que mais abunda para aí é chanatos de lonas nas gáspeas e borrachas nas solas e adjacências. Também se percebe no seu andar e no seu olhas resquícios de modos e modilhos de sedutor dos bons velhos tempos, mas isso é assunto que não vem ao caso. Olhado a preceito, dir-se-ia que andava pelas 80 primaveras.

Chegado à plataforma apinhada, apercebe-se que há uma composição em manobras de aproximação, não precisa de olhar para o placar a se certificar. Coloca-se no sítio julgado mais a preceito, de forma a conquistar um assento na composição, o que não vai ser fácil. Portas abertas, a máquina a guinchar, aí ai ele, em busca do lugar que já julga perdido. Mas não, ali está um espaço digno de ser ocupado, num banco de 3 posições, é a do meio, pouco importa. As juntas dos braços e canetas já não ajudam, queixam-se, revelam alguma intolerância às deslocações, mas o melhor é não lhes ligar!...

Mochilas e mochileiros barram-lhe o caminho, colegas de viagem que têm por norma estacionar na entrada da carruagem dificultam-lhe a manobra, mas consegue chegar ao ponto desejado, quando se fecham as portas todas. O comboio arranca, no preciso momento em que ele, se apresta a conquistar o seu objetivo.

A alguns dos passageiros parece que ele não vai conseguir tirar-se de apuros; uns, mais pessimistas, já se veem a ajudar a acondicionar-se numa padiola, por conta de ossos partidos; outros julgam que há uma defunção a caminho.

Algumas piruetas depois, (e a bengala que bate à direita e à esquerda!), ele consegue sobreviver ao arranque – um dia talvez estes arrancos caprichosos sejam minorados – e assenta-se donairoso no lugar previsto.

É então que estrilham salvas de palmas.

O seu destino era a estação seguinte, mas sai na última, a tirar partido da situação, lia-se na cara.

À saída, assume que também será capaz de se entender de uma vez por todas com a net, com a caixa automática e com a imensidão de títulos de transportes que lhe abarrotam os bolsos.

 

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