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oitentaeoitosim

21
Set14

Fé púnica

Jorge

O moiral disse que fazia questão em pagar a quem o país devia, com o dinheiro da nação, com o seu e o dos seus amigos não.

Era uma conta calada, um valor incomportável para quem produz sol, vinho, azeite e tecidos, os quais ocupam os baixios da tabela dos valores de mercadorias, nas bolsas, ora pois.

O moiral disse que, quando tomou conta do cargo não sabia que o caurim chegasse a tanto, com ele a comandar nunca se teria chegado a semelhante desplante.

Entraram no país uns senhores e umas senhoras que disseram que representavam os credores - nunca tinham aparecido por estas longitudes -, a reforçar a autoridade do capital, a partir da capital; impuseram as leis da selva e da rolha revisitadas e decretaram a escassez pelintra. 

(As vítimas do colapso contam-se por milhares, mas não se chegam à frente!)

O moiral disse que não há desculpas para o desconhecimento dos mecanismos da bolsa: não sabes lidar com os produtos financeiros, não percebes patavina de econometria, de ratings e de subida e descida dos juros de dívida pública, mas soubeste ir ao banco pedir empréstimos, não é verdade? 

As senhoras e os senhores bem ataviados e aviados que puseram a santa terrinha de braços no ar disseram que aquela era uma verdade do senhor La Palisse e que somos todos por um e um por todos logo se vê…

Chegaram-se à frente muitos cidadãos insubmissos a falar em direitos adquiridos que não podem ser perdidos de ânimo leve: a saúde, o trabalho, a educação são património de todos.  Uma vida digna não é monopólio de alguns, mas de todos.

Os senhores e as senhoras que tinham a faca e o queijo na mão esclareceram que há, de facto direitos adquiridos basilares que devem ser cumpridos: a propriedade, em primeiro lugar, depois a respiração, a sobrevivência, a procriação, a alimentação, a defeção, etc., nada de confusões!

Vieram outros cidadãos bastante indignados a garantir que a nação nunca tinha vivido acima das suas possibilidades. Onde há vontade, há possibilidade! Se querem o deve-haver da nação à maneira, vão pedir contas aos manhosos que, na sombra, comandam o barco, os que fizeram o mal e a caramunha e ainda o fazem...

As senhoras e os senhores mamposteiros dos credores lembraram que se deve dar a César o que é de César, ao Abreu o que é dele e que todos tinham culpas no cartório. Alguém contesta o pecado original, alguém lhe foge às represálias?

(Valha-nos Adão e Eva que não são santos por causa de uma serpente e de uma macieira!)

Um dia um ancião abordou o moiral, as senhoras e os senhores representantes dos credores e pediu-lhes que mostrassem fotos dos queridos benfeitores.

- Convém conhecer os rostos, quanto mais não seja para beijar-lhes a mão, o anel, a bochecha, agradecer, enfim, o bem que tinham feito pela nação e que não nos entalem à má fila!

Ao moiral e às senhoras e os senhores seus delegados só lhes saiu duques do aipode, o Adamastor, o Ieti, o Judas, S. Mateus, a Madame Min, o Homem do Saco, O Lobisomem, auras de alminhas do outro mundo e até Mario Buda e o corcunda de Notre Dame (por dó).

- Com quem eu casei minha filha, tá queto, ó mau! – deu em fugir a 7 pés o nestor.

(A conta calada tem inflado a olhos vistos: dívida passiva puxa dívida ativa, são assim os altos desígnios, e, por enquanto, não há pai para essa torrente!)

 

 

Uma vez salvei um homem que tinha sido atingido por uma avalanche de dívidas...

 

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