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oitentaeoitosim

24
Jun17

Grande sorte é sobreviver.

Jorge

   Uma vida que parte é sempre uma dor que fica .                   

 

O fogo consumiu áreas vastas no centro do país, desta feita um pouco antes do início oficial da época veranil.

O fogo, desta feita, não se limitou a reduzir a cinzas vegetação e vidas animais; derribou, de forma acintosamente cruel, muitas vidas humanas.

O Homem gosta do fogo, mas controlado.

O Homem regista dolorosas perdas frente ao fogo selvagem, muitas conquistas tecnológicas depois.

Por estes dias, o centro de Portugal foi palco de inenarráveis pesares.

Por estes dias, o centro de Portugal terá sido palco de uma das piores desgraças, senão a pior, de que há registo.

Depois, avançaram os pêsames que são sempre endereçados às famílias das pessoas que partiram sem querer ainda.

Depois, avançou o rol das causas, das autoridades a especialistas.

Que as situações meteorológicas de downburst são invulgares ali, ou em qualquer lugar.

Que tais situações meteorológicas nefastas derivam possivelmente das alterações climáticas definitivas, impostas pelos excessos das atividades económicas e podem ocorrer aleatoriamente.

Que o caro sistema de comunicar entre as entidades que supervisionam a desastres naturais mais uma vez não correspondeu à chamada.

Que as disposições legais (e avaliações específicas, previstas em Lei) que acolhem a prevenção e o combate aos fogos raramente ficam total ou parcialmente operacionalizadas, em devido tempo.

Que a aposta no combate aos incêndios sai mais cara, por isso é mais estimada que a prevenção.

Que o cadastro das propriedades não está atualizado e não se sabe, por vezes, a quem responsabilizar por incumprimentos de disposições legais específicas.

Que a propriedade sem responsabilidade social é degradante.

Que os impostos são brandos para quem tem a posse de terrenos ao abandono.

Que a biomassa acumulada nas áreas verdes aumenta todos os anos e não se exclui manchas verdes encostadas às habitações das localidades.

Que a composição das florestas, bosques e parques é orientada pela indústria papeleira.

Que são evidentes deficiências de construção em vias de transporte da região que nunca chegaram à opinião pública.

Que os guardas florestais não deveriam ter sido integrados na GNR.

Que a burocracia não é entrevadinha, mas entrava.

Que quem manda ou mandou no país não deu o seu melhor.

Entretanto, está identificada a árvore, atingida por um raio, que terá iniciado a tragédia.

Entretanto, mais vozes se levantam a retirar protagonismo à dita árvore, que ali andou mãozinha de pirómano (os cacos de vidro ficararam esquecidos).

Entretanto, sabe-se que as autoridades recorreram a carteiros que ajudaram em buscas na área atingida, um bom princípio, que a prática enforma a sabedoria.

Tenho para mim que o instinto puro se sobrepõe à razão, em momentos de pânico, quando está em questão a sobrevivência (o recurso sistemático ao automóvel deseduca).

Tenho para mim que nenhuma vida humana se deveria finar assim, em sofrimento atroz.

Tenho para mim que a dor não merece exposição.

Tenho para mim que a dor por tanto horror deveria ter merecido menos indiferença, nos estúdios das tevês (que tal terem suspendido execráveis e alienantes programas de pura ocupação do ócio por música sacra, por exemplo, ou essa suspensão só pode ser assumida aquando da morte de manatas?).

Tenho para mim que os incêndios bravios desalojam com mais despiedade quem vive em áreas mais deprimidas.

Daí (também) a minha dor.

 

À gente feliz é fácil a virtude.

 

P.S. 

Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,

quando alguém morria perguntavam apenas:

tinha paixão?

quando alguém morre eu quero saber da qualidade da sua paixão:

se tinha paixão pelas coisas gerais,

água,

música,

pelo talento de algumas palvras para se moverem no caos,

pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,

paixão pela paixão,

tinha? (...)

(Que Herberto Helder me perdoe a citação.)

 

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