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oitentaeoitosim

10
Mar14

Isto não dá para todos (IV)

Jorge

. Em julho e agosto, expande-se a lista dos carros de altas marcas. Emigrantes dispõem-se a demonstrar que não foram lá para fora ver passar a banda passar (aqui comiam da banda podre). A caminho dos conglomerados de férias do sul são aos molhos as viaturas de bruta cilindrada que calcorreiam as vias bem tratadas, apesar de tudo (não consta que as matrículas se repitam estrada acima, estrada abaixo). Línguas maledicentes insinuam que, em áreas de habitação desprestigiada também se veem «bombas» de bargantes e galopins laçados em altos voos e pícaras mamatas, a quem não costumam doer as mãos. Séries estatísticas (que as há para todos os sexos e idades, como na farmácia) entretanto reveladas sugerem: as grandes máquinas do asfalto vendem-se que nem pãezinhos quentes. Enriquecimento lícito ou ilícito, exibicionismo ou sentido prático (o melhor dura mais), provocação aos libidinosos voyeurs cá da praça ou vontade de contrariar a desfortuna? A versão do pobrete, mas alegrete, na realidade, colhe poucos votos, embora a sociedade vote predileção especial por quem tenta tapar o sol com uma peneira (dar parte de fraco não granjeia atenções). E se não fosse uma mise-en-scène de quem não tem onde cair morto, mas sim erro da base de dados?

 Ter bom popó (ainda) é glorioso.

 

. Bigode farfalhudo, andar desembestado, 2 baldes numa das mãos, canas de pesca desmontadas na outra, o senhor dirige-se à paragem da camioneta cujo destino final fica a 2 passos contados do local preferido para lançar o anzol ao engano de cardumes desprevenidos. Chega a caminheta. Era o único candidato à entrada, dá a ideia que o motorista já o conhece de ginjeira (pelo nome duvida-se), faz questão de franquear-lhe o espaço disponível, exíguo, por sinal, estando a lotação quase máxima. Daí que, só a muito custo o veterano pescador-por- desporto instalasse teres e haveres no chão, do lado esquerdo, «faça favor, deixe-me pôr isto aqui no chão, chegue-se um pouco mais para lá, obrigado e desculpe o incómodo». Contrafeitos, os outros passageiros facilitam, ensaiando autêntico salsifré. Não se fizeram tardar as rezinguices, os resmungos, a cena ia virando peixeirada. «Eu cheguei primeiro, não há direito de incomodar tanta gente, já bem bastava que trouxessem cães e bicicletas, este traz canas, só faltam os foguetes!» Cabisbaixo, o bigodudo senior faz soar a campainha de paragem e abandona a camioneta, na paragem seguinte, longe ainda do local em que se habituara a dar banho à minhoca. Foi pior a emenda que o soneto, o fim da picada.

 

. Veio o senhor da associação da restauração (quê?) ao parlatório e disse que, se as taxas do imposto que subiram recentemente baixassem de supetão, os gerentes dos restaurantes, casas se pasto, snack-bares, bistrôs, sef-services, cafés, tascas manhosas e finas e correlatos não teriam margem para infletir os preços ora praticados. Presume-se que por razões fortes inimputáveis a empresários: o aumento das rendas das casas, o aumento dos preços dos farináceos, das hortaliças, do pão, dos combustíveis, das rações, do peixe, da mensalidade dos colégios, ou porque para trás mija a burra, ou porque não se pode abrir mão de direitos conquistados. À boa maneira da terra, mais explicações ficarão para dia-de-São-Nunca, ao anoitecer (comer e calar é o que está a dar), quanto mais falas, mais te enterras! Teve ainda tempo de olhar por cima da burra os jornalistas que miravam o palácio.

 

 

. O soto-ministro disse que, «em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão». Compôs sorriso matreiro, enigmático, matador mesmo. Muita gente ficou de cara à banda, pois não se lhe reconhecia a queda para ditos desditosos. Era respeitado pelo seu perfil de mordomo requintado - daqueles que abdicam do riso indiciador de pouco siso - afinal saiu na rifa um choninhas da corporação punga, de pouca prestança, que se dá ao disfrute no usurpo e no estupro de pobres de espírito. Cuide-se, da próxima vez! À uma, porque nem só de pão vive o Homem, também se petisca massas, frutas, hortaliças, legumes, sobremesas e cafés, só para dar alguns exemplos. Às duas, quem abocanha que nem pisco está fora do aprisco. Os indivíduos que se alambazam que nem abades ou sofrem de adefagia - esses sim – podem não fugir à ralhação ou ao ralhete, mas são uma minoria, dentro da maioria. Às três, porque não é forçoso que a falta do pão-de-todos-os-dias leve forçosamente a contendas: fulano que não gosta de pão integral, beltrano que não atina com a fruta-pão e sicrano que é um pão-duro não dão para tal peditório. Às quatro, os grotas, do high-life, por dessuetude e estatuto, não embarcam no balão; para a alta-roda, a falta de marisco e de caviar penalizam mais. Às cinco, a falta de dinheiro para compra de marisco ou caviar é um indicador social de estabilidade; descanse, senatorial e encanecida figura, que por aí o gato não vai às filhoses (o consumo de pão não risca). Às seis, há alternativas às zangas de comadres: sempre se pode recorrer ao apedrejamento, ao canelão, a um torneio de bisca-lambida, a um duelo, à roleta russa mesmo.

Cuide bem, Vexa, dos dentes (não lhe vá cair algum com as graçolas), não vão até os tementes mais fervorosos - transidos pelo cipó e fartos de sobras – pôr-se a escoucinhar.

(Já agora que ninguém nos ouve, mais fere a má palavra – e o sorriso trambiqueiro - que espada afiada).

 

. O país está quase a sair da recessão, bastam mais 3 meses de ganhos da nação, similares aos do 2º trimestre do ano e livramo-nos da peçonha da besta, das algemas dos credores, da síndrome da possessão (possessos estávamos a ficar com o palavreado dos paus-mandados). Melhor seria que se mantivesse, no 4º trimestre, um crescimento da economia de 1,1%, isso seria ouro sobre azul. Ninguém vai dormir sossegadamente até dezembro. Os grooms (o «teddy ministrador» esse subiu ao sétimo céu!) deliciaram-nos com a boa nova - um geladinho em pleno período veranil cai sempre bem -, o olhar a sorrir, a altura a aumentar, a empáfia a brotar de todos os poros, a esperança a gorgolhar, amparada na fé e na caridade. A história não para. Caso tenha sobrevivido até à data a sensação que a história congelou nas façanhas dos grandes feitos ultramarinos é porque não se sabia desta façanha. Temeu-se pela rica saudinha dos anunciadores da boa-nova, não lhes fosse acontecer o mesmo que à rã da fábula, a do estoiro. Aqui também a imaginação popular se pôs a operar: o fim do crescimento da dívida pública ou do crescimento sem fim da dívida pública, o adeus ao pagamento de juros truculentos ou à truculência dos juros em pagamento sem fim à vista, o ponto final da reforma do estado ou do estado das reformas que estarão a ser feitas ou por fazer já não passavam apenas de vãs promessas … Custou, mas foi! A economia e as finanças ficarão num brinquinho, quem sabe (a felicidade é impagável e vem a caminho)?!

Ficou na gaveta o anúncio do fim da linha para a austeridade, para os sacrifícios impostos, para os recursos ao TC e outras minudências assacadas ao pessoal. Fica para a próxima! Não se pode ter tudo de uma só vez, é preciso dar tempo ao tempo!

 

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