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oitentaeoitosim

11
Jul13

Cenas do País Tetragonal (I)

Jorge

Fraldário

    No País Tetragonal vivia-se à rasca, sujeito às flatulências típicas da incontinência estrutural macroeconómica que sopravam de bombordo. Nisto vem o harmosta número e diz: «Todos temos de fazer sacrifícios!» Na dele, iria obrigar os colaboradores a dar mais horas ao patrão e imporia a-torto-e-a-direito maiores coimas, dízimos e préstamos, que os onzeneiros rapaces estavam à porta e queriam cobrar, a bem ou a mal.

    Nisto, mandou proceder à coleta de tributos junto dos descamisados produtores de riqueza, deixando de fora ostensivamente os grandes detentores dos fatores de produção, de mais-valias e grossas maquias.

    Caiu mal ao burguesismo militante tal exclusão social - logo agora que eram cada vez mais, por conta da titilação dos bolsos, da Bolsa e da indústria do entretenimento - que não havia direito e veio para a rua mostrar o seu descontentamento, com grande aparato.

    Os cívicos das forças de segurança, a ramona, os 3 ramos das forças armadas não tiveram mãos e mocas a medir, tantas ou tão poucos foram os desacatos. Os manifestantes chegaram ao cúmulo de parar a construção de um novo porto para contentores, o levantamento de aeronaves e a circulação nas pontes e os banhos em praias fluviais não-vigiadas.

    A luta sobra por muitas luas. Os mais pintados fizeram questão de pôr os impostos em dia, outros pagaram as tenças que se venceriam nos 10 anos seguintes e os profissionais liberais apresentaram declarações tributárias condizentes com os rendimentos. Em cerimónia solene, presidida pelas autoridades eclesiásticas, na praça central, assinaram um compromisso solene de evitar os despedimentos coletivos, de não enviar para a estranja os pés-de-meia (em cofres de bancos, nos colchões seria aceitável), de aderir à taxa Tobin. Férias, só dentro de fronteiras e na ruralidade. Puseram-se a vestir como frades mendicantes, a comer que nem piscos, a usar o cilício da Opus Dei e tapar a cabeça com cinzas.

    O hájibe não esteve pelos ajustes, porrada para cima deles outra vez e ameaças de deportação! Quem se julgavam eles, para maquinar contra a segurança pública, contra os supremos interesses do Estado?! Iriam malhar com os ossos na pildra, a-pão-e-a-água, caso persistissem nas manobras contra a coesão social e a ordem pública.

    Eles perceberam «púbica» e desistiram.

 

Tá na cara

   No País Tetragonal as coisas iam mal. Com tanta coisa para pagar – água, luz, pão, bananas, rendas, medicamentos – muita gente não sabia para onde se voltar, nem como se coçar. Os áugures, valendo-se das penas de aves autóctones que de arribação (as autóctones corriam o risco de extinção) chegaram à conclusão que o país tinha-a arranjado bonita: uma trinca de Adamastores tinha-se outra vez plantado no cabo das Tormentas.

   E foi o cabo-dos-trabalhos tirar da ideia da cabeça a muitos dos habitantes do País Tetragonal que abdicassem de ir visitar o dito promontório. Num abrir e fechar de olhos esgotaram-se as marcações para aquelas imediações.

   A repórter bate à porta e surpreende uma reunião familiar, cujo ponto único da ordem de trabalhos era os para preparativos de férias:

- Vão de férias? – inquire a angélica figura.

- Estávamos a falar mesmo disso. Ainda vamos ter de pedir algum emprestado, mas tudo se conjuga para ir laurear a pevide. Apertámos bem os cintos, passámos fame e cortámos na roupinha, empenhámos o carro e o imposto de circulação, nos últimos meses, mas vamos de férias - esclarece o chefe da família.

- Vão revisitar o cabo das Tormentas?

- Isso não, que a gente tem medo de trincas, que não de adamastores.

- O país está a ficar deserto à conta...

- A sério? Nós vamos todos à Turquia, conhece? – responde o ancião.

- Eu nunca lá estive, ainda não passei do Marão – devolve, lesta, a iniciada jornalista.

- Aqui todos vergam a mola, mas para o essencial vai chegando.

- Vão de férias, por quanto tempo?

- Vamos e voltamos no mesmo dia, qua as manifes não permitem muitas aterragens.

- É a crise! – comenta a telerrepórter.

- Nem por isso! - dispara lampeiro o geronte.

 

Dá tanto jeito, o magano!

Reprodução de um diálogo registado numa escuta levada a cabo no País Tetragonal:

- Nós temos o direito de mandar.

- Porquê?

- Recebemos um mandato popular quando o maralhal foi às furnas, às urnas, digo.

- Mas, quando vocês foram às urnas, queriam 4 anos para endireitar o pau, perdão, a espinha?

- Acordos de cavaleiros, de cavalheiros e amazonas, digo, não são para defraudar.

- E disseram ao que vinham?

- Dissemos, mas os credores convenceram-nos, com bons modos, que fazer o contrário era o melhor, como dizia a Mariquinhas.

- Mas, fosse o partido opositor autor de tal guinada, merecia ficar 4 anos?

- Não sou bruxo, nem credor, só de paus-mandados percebo algo.

- Nunca vos passou pela cabeça arrumar a trouxa e zarpar?

- Não estamos de cócoras, mas queremos a salvação do nosso, do país, quer-se dizer… Os da oposição mal conhecem o kamasutra.

- Se vocês não ficam 4 anos os credores ficam abespinhados?

- Os logreiros são quem mais ordenha, ordena, perdão e de contas percebem eles.

- Afinal, quem logrou o mandato popular?

- Eles não vão nessa festa de escanções, digo, de eleições.

- É dinheiro em caixa, não acha?

 

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