Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

oitentaeoitosim

03
Out13

Cenas do País Tetragonal (IV)

Jorge

O nosso primeiro diz que lamenta perdas de vidas, por conta dos fogos florestais (uma praga que devora recursos da gente, sem dizer água-vai), no cumprimento de uma tarefa cívica, tantas vezes inglória. Só que muita gente entende que este emendar de mão vem a destempo. E está deslocado no tempo, porque havia transcorrido um mês sobre a primeira infausta ocorrência, uma vida derretida num incêndio ruim como dragão de S. Jorge. É inimaginável o horror duma morte assim, a angústia cruel de morrer sem escapatória, entre chamas que derretem o corpo e a alma. Presumivelmente as guerras medievais, com pez e alcatrão à mistura, a guerra química dos tempos modernos podem trazer episódios trágicos semelhantes (é sempre a arraia miúda a ser mais atingida), relevam do mesmo cenário. Das 2, uma: ou se esqueceu, ou fez-se esquecido. A sabedoria diz que dor compartilhada é dor aliviada e não é nada meiga com os que não sentem…

---

O Estado arranja uns sestércios, cotrins e cequins  - jaziam a sono solto no colchão de palha, na iminência de qualquer urgência -, para amparar empresas privadas. Aceite-se que o empresariado está mais talhado para fazer os enchidos, pô-los ao fumeiro e depois fazê-los chegar a bem aos pratos (verbos-de-encher nunca!) O Estado, por interposto menestrel, encarregará da distribuição do pilim e da supervisão da dívida uns gestores de conta privativos. Consta dos tratados mais modernos: o Estado não tem vocação para gerir dinheiros, a competição exige atributos excelsos que escapam à dita instituição (não é preciso repetir muitas vezes!) Agora, das 2, uma: ou aqui há gato, ou não há gato nenhum metido nisto. Ao povão diz-se que os interesses públicos estarão acautelados, não há aqui rabos-de-palha, nem rabos-de-fora nisto. Só que, andam por aí, umas quantas mentes capciosas que veem nesta montagem um sinal de que os mercados teriam gerado, em surdina, um sucedâneo de suópes e pêpêpês! Raciocínio viciado!, dizem os apaniguados, até porque já pôs rodas a caminho, com destino à santa terrinha, uma extensa fila de camiões atulhados de baús, prenhes de subsídios da união!...

---

Um senhor telefona para uma estação de rádio, a protestar contra o que lhe parecia ser mais uma situação de filhos e enteados, tratados diferentemente. Um treinador de futebol deu barraca (nunca se viu ganhar tanto, quem tanto mal treina e fala a língua pátria), provocou e impediu a atuação de stewards e spotters, uma vez terminada mais uma jogatana de futebol. Passou-se o mister, por isso mesmo deveria ter sofrido as consequências do seu ato impensado. Das 2, uma: ou ia preso, ou preso ia. Então, por que raio continuou solto como um passarinho, deu entrevistas aos media, voltou para casa nas calmas e dormiu na paz dos anjos com a legítima, depois do tantarantam? Isto não pode ser assim, 2 pesos, 2 medidas, filhos e enteados não dá, o igualitarismo no trato não pode levar tratamentos de polé. Não fosse ele um grande teorizador de futebóis, fosse, pelo contrário, um caramelo que não acerta 2 toques seguidos numa bola, sim! um zé-dos-anzóis e outro galo cantaria, ia de cana e não se falava mais no assunto. Não há paninhos quentes que o absolvam, o que ele mesmo merecia era ter levado com um pano encharcado na face. Vai-se a ver a atividade do senhor, e não era ele empresário?! Que mal (in)formado está!...

---

Diz-se que nos casos das pêpêpês e nos suópes (rebebéu, pardais aos ninhos!), houve falhas da supervisão do Tesouro, ou do governamento. Muita maçaroca terá levantado voo para mercados incertos (não são os que recebem candidatos), ficaram algumas carecas a descoberto que foram rapidamente encarapuçadas. Agora vendeu-se mais uma empresa pública (em que ficamos, o Estado sabe ou não sabe administrar, ou ainda há um ou outro administrador público que se safe?) e o Estado fica a sindicar. Das 2, uma: ou o Estado vinculou recentemente especialistas nas artes de supervisão (as galinhas apressadas veem nascer pintos carecas),ou há mais especialistas em atirar areia para os olhos (às escâncaras). Há realidades  - de tão comezinhas e óbvias - que entram pelos olhos dentro, como há dedos marotos que pretendem substituir-se à realidade…

---

O ministro disse que abrir um inquérito, a averiguar das razões pelas quais decidiu deixar ao critério das escolas primárias a língua dos brichotes. Não, não é assim. Regresso ao início, o senhor ministro decidiu abrir um inquérito, a saber das razões pelas quais houve muito menos matrículas nas instituições do ensino superior neste ano da graça. Aquilo não podia estar a acontecer, as bolsas sociais para a estudantada universitária davam bem para cobrir propinas, sabatinas, sebentas, noitadas, trajes académicos, farras e diretas. Então, que se estava a passar? Ia-se passando, o ilustre. Foi, quando recebeu um relatório com uma frase só: «É a crise, ó esperto das dúzias!». Não quis acreditar: mandou suspender reitores (sobretudo aqueles que usavam trajes e adereços do tempo do rei 15), mandou baixar a massa salarial dos lentes, reforçou o efetivo das turmas, mandou cavar batatas à maioria dos contínuos e ordenou que todos os inculpados fossem passeados na praça pública, com paragem final no pelourinho da terra. E ainda dizem que as praxes universitárias não mudam…

---

O governante aclarou a garganta, cuspiu o pigarro e falou de mansinho, como se acoitasse uma pomba ferida de morte, um rafeiro, ou uma rês tresmalhada (tadinhos!). Anunciou a boa nova: ia ser criada uma comissão liquidatária da burocracia, essa peste que retarda os bons projetos para a economia da terra. Um jornalista da antiga escola, de mão firme no ar, logo atalhou a conversa, se afinal a exterminação da dita cuja não era incumbência do próprio. Não se fez de desentendido o encarregado de negócios do povo: «O micróbio da maleita criou resistências aos métodos tradicionais e biológicos, importa tentar outras mezinhas, a bem dos próprios nacionais». Grande alho!...

---

Gualdina aceita ser candidata à junta de freguesia da terra. O marido, um potentado da terra, mandou que se fartou até lhe dizerem qua já bastava. Ele achava que não. Fazendo jus ao espírito criativo do seu povo, o desenrascanço, pede a Gualdina que assuma o poleiro na sua lista, ele ficaria logo atrás. Obediente e orgulhosa do seu homem, assim o faz, mesmo sabendo que teria de abdicar, assim que fossem transmitidos os resultados ao órgão coordenador. Representantes dos velhos movimentos feministas e mais recentes movimentos de educação do povo através das telenovelas ficam pelos cabelos e ela nas tintas (ó p’ra mim!), na mais completa autarcia. Dá-se a conhecer em todos os lugares, lugarejos, e vilas, apela ao voto contra o tribunal constitucional, contesta as delimitações das autarquias vizinhas, não promete mundos e fundos, mas gosta de ir por aí. Chega-se o dia da votação e a sua lista é coroada, com metade dos votos da metade dos eleitores inscritos. No dia seguinte, pede o divórcio. No auto de partilhas, fica consagrado que a presidência é sua…

---

Um homem sequestra familiares seus, na própria casa, à força de arma ilegal de fraco alcance e diz à boca cheia «daqui não saio, daqui ninguém me tira». Cedo piaste, não vais a bem vais a mal, a autoridade cumpre, a força impõe-se! Vem a terreiro a esposa - ela própria uma vítima -  e diz que o seu homem sofre de distúrbios mentais, que o queriam internar à força e ele que não. Um segundo senhor invade propriedade alheia e leva que contar: o pessoal da casa, posto a pau, corre os ferrolhos, acantona o invasor e sai tunda. De semelhante varejo resulta que o segundo homem fica que nem Cristo crucificado. Uma vez expiada a culpa, por assalto intentado (a propriedade é fetiche, senhor), o invasor recorre aos tribunais, a fazer queixa da intensidade da surra, desmesurada, há bater e bater! O seu pedido de indemnização terá sido liminarmente recusado (antes ali estivessem os magistrados que não acham que uma borracheira interfira na labuta). Contra tal decisão, batatas, lá se vai embora, de rabinho entre pernas! Um terceiro senhor leva uma tosa nas urnas, refugia-se no palácio da trindade, ameaça continuar a aliviar os bolsos de quem lhe aparecer no raio de ação das armas legais que detém, propõe-se rebentar com o tribunal sopremo, pede meças a quem o queira desbancar (quantos são?) e faz constar que «daqui não saio, daqui ninguém me tira» e ninguém mexe uma palha! Não há força que lhe resista, só a honradez

Pensamento do dia: a democracia implica haver-se com os votos da maioria e fazê-la pagar por isso.

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub