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oitentaeoitosim

04
Dez16

Preito I

Jorge

Sou saudosista.

Do tempo da velha senhora, não! Custa-me a admitir que o verbo e os recursos económicos de uma comunidade possam ser exclusivo de ungidos mandantes sem rebuços.

(O «populismo» d’agora tem disto!)

Sou saudosista, repito.

Entrado na idade, também alimento o preconceito que no «meu tempo é que era», fazia-se assim-e-assado, bem melhor que hoje!...

(À falta de argumentos mais poderosos, cá vai disto!)

Sou saudosista, repiso.

Papo tevê a-torto-e-a-direito e acho que ela já teve melhores dias, com menos. Serve-me ela conversas moles, entrevistas às-3-pancadas, doses maciças de pilhérias forçadas, inenarráveis, boçais, com acompanhamento de palminhas, de beijinhos, de contubérnio forçado, enlaçados ou enroupados em música pimba, com pessoal a dar ao beque, em sorteios de popós e de dinheiro, para «ajudar a passar o tempo», numa consagração do dolce far niente do jet set.

(Ressaibos do bucolismo popularucho, tipo ancien régime?)

Sou saudosista, repito e repiso.

Eu acho que, a certa altura do campeonato, os audiovisuais até chegaram a oferecer, a espaços, oportunidades de meditar, de divertir, de informar, com alguma pinta; agora é só formatar, como se todos sofrêssemos de audimudez ínsita.

(Os espetadores, agora, vão valendo por uma variável estatística.)

Já sabem que sou saudosista, ora pois!

Por vezes busco em canais de reminiscências um grãozinho que exiba uma diferença ilustradora. É dado adquirido que os meios de informação, diversão e preenchimento de tempos livres na atualidade esforçam-se ao máximo por cortejar quem mais dá e mais obtém, o resto é cantigas...

(Às vezes até duvido que tenha sido diferente...)

Assim e por ser saudosista, vejo e revejo a rtp-memória.

Há dias, estava numa dessas, quando dou de caras com um programa cómico de dignidade suficiente. Aí descubro (é o termo!) um senhor ator, dono duma capacidade histriónica fantasticamente espontânea. Quedei-me por ali divertido com as suas caretas, as poses, os trejeitos castiços e com a pinta de dominar os textos, eu que não o conhecia de lugar algum! Mais tarde aprendi que já não teria hipóteses de o conhecer, ao vivo. Olhe que doeu!

(Juntou-se ao Sr. Solnado, outro invulgar entertainer que não deve enjeitar a sua companhia...)

Não fosse eu saudosista e não estaria aqui a dar testemunho disto: sempre que o vejo, dou o meu tempo por bem empregue, um bem-haja pela companhia, Sr. Pedro Alpiarça.

Ainda hoje o senhor contribuià distância para a minha boa-disposição e  a lidar com a vida que é cara, mas inclui todos os anos uma viagem em volta do Sol, como dizia o Sr. Maupassant, com pouco riso e muito siso.

(Os tempos não estão para brincadeiras – suponho que daí de cima tenha uma visão mais completa –, mas ajuda a aguentar saber rir dos nossos males, com distinção, fugindo com arte a palhaçadas fúteis e estapafúrdias).

 Ainda bem que, às vezes, me armo em saudosista.

Já agora, perdoe-me a pergunta, Sr. Pedro Alpiarça, foi o amargor da vida que o fez partir de súbito?

 

PS: Duma das vezes em que procurei um programa em que entrasse o senhor Pedro Alpiarça, na rtp-memória, pus-me a catucar o meu filho, entregue a ocupação diferente, ali ao lado, a ver se me acompanhava na experiência. Não ficaria muito feliz, caso soubesse que não o incluiu na lista de favoritos.

 palpiarca.jpg

 

Nunca  se sabe aquilo que basta. Talvez baste um poema, uma coisa mínima, viva, nossa, uma coisa sub-reptícia para empunhar diante do implacável acordo das formas exteriores. Também pode ser que nada baste. E nesse caso tanto faz escrever um romance ou cem poemas ou apenas um poema, ou ler ou emendar o céu astronómico ou manter-se parado no meio de um jardim húmido e silencioso, à noite. Até pode suceder que a morte não seja bastante.

     Herberto Helder, in Público, Dezembro 1990

ou cem poemas ou apenas um poema, ou ler ou emendar o céu astronómico ou manter-se parado no meio de um jardim húmido e silencioso, à noite. Até pode suceder que a morte não seja bastante.

     Herberto Helder, in Público, Dezembro 1990

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