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oitentaeoitosim

01
Jul18

Professante

Jorge

 

Debaixo de belas palavras, pode estar o engano.

Adágio (adaptação)

 

    Para o Sr. Miguel Sousa Tavares (MST, doravante) há uma paixão assolapada pela educação que carateriza os sucessivos governos da nação, os alunos, os pais dos alunos e até os contribuintes, como ele, e que é tratada com desdém pelos profes (leia-se professores do ensino básico e secundário, oficial entenda-se).

    Assim argumenta o Sr. MST, no «Expresso», do dia 22/6/2018:

   . Os profes andam constantemente em lutas, em protestos, em manifestações, em greves.

   . Assim, os profes protestam por conta dos horários de trabalho, das aulas de substituição, da avaliação do desempenho, da contagem do tempo de serviço, das promoções automáticas, da integração nos quadros em concurso, das salas de aula onde fazia frio, da abertura do ano letivo sem que milhares de escolas estivessem prontas e por-aí-fora.

    . Os sucessivos governos têm cedido aos profes, senão vejamos:

    1 - Horários – No horário obrigatório estão incluídas horas de trabalho caseiro, até perfazer as 35 (tempos houve em que o horário das docentes e dos docentes se limitava às horas de aulas efetivas, vejam só o desplante!); foram criados inclusive «horários zero», em benefício de profes atingidos pelo «cansaço» e «desmotivação (?); estarão para avançar as reformas antecipadas (bonificadas?).

     2 - Salas de aulas em que fazia frio - Elas acabaram, em todas as escolas; mais, além do aquecimento e do ar condicionado, todas elas dispõem de relvados sintéticos e mais uma série de mordomias dignas de países do primeiro mundo.

     3 - Avaliação do desempenho - Deu lugar a uma autoavaliação de anedota.

     4 - Integração nos quadros do MEC - É feita sem concurso, conta apenas a antiguidade.

     5 – Escolaridade obrigatória e nº de alunos por turma - Para encaixar todos os profes nas escolas oficiais, alargou-se a escolaridade obrigatória (!) e diminui-se o nº de alunos por turma (?), façanhas só atingidas por países do primeiro mundo; assim se compreende que, em anos letivos anteriores em que se verificou a diminuição de entradas na faculdade, o nº de profes tenha aumentado (isso também tem a ver com o absentismo progressivo da malta docente).

     6 – Programas e manuais escolares – São linearmente delineados por profes que chegam ao ponto de impor os conteúdos dos exames que são feitos - pela amostra deste ano -, com ou sem notas finais publicadas previamente.

---

     Depois de tanta cedência, de tantas benesses, concedidas, depois de tanta massa empatada, o ensino dos profes tem melhorado? A crer no crescimento da procura de explicações, é caso para duvidar... Mais, metade das criancinhas de 11 e 12 anos não sabe apontar Portugal no mapa o seu país e quanto à história das Descobertas estamos conversados...

    Daí que, para que os profes não possam mais fugir à paixão pelo ensino, o Sr. MST reivindique que os sindicatos (um monte deles!) antes se atrevam a avançar com sugestões para melhorias do ensino dos programas, do acompanhamento dos alunos e se deixem apenas de lérias e da acumulação de lordismos.

  (Pobrezinhos, mas honrados! Já não lhes basta saber que colhem o respeito da maioria das comunidades escolares?)

----

     Em abono da verdade, reconheço que o Sr. MST poderia ter carregado mais nas tintas, caso estivesse ao corrente destas seguinte 3 indicadores: a) - que os estudantes portugueses têm uma carga horária bem pesada, comparativamente à maioria dos países europeus e de um ou outro da Ásia, segundo um estudo revelado em 2017; b) - em Portugal há um profe a tempo inteiro para cerca de 10 alunos, um indicador mais baixo que a média dos países da OCDE, em 2014; c) - Portugal é um dos países da Europa em que mais se chumba, até ao 6º ano (2016). Escaparam de boa, os profes!

    Outrossim, as estatísticas mostram isto: no período 2005-15, os alunos portugueses de 15 anos que fizeram o exame PISA colheram dos melhores resultados dos discentes da UE; em Portugal, os alunos imigrantes obtêm resultados satisfatórios, contrariando o sucedido na generalidade dos países de chegada; os profes portugueses, no período 2005-15, contaram-se entre os docentes da OCDE que registaram maiores perdas nos seus salários.

    Digo eu que a solução final do Sr. MST (deixem-se de andar sempre com lamúrias e  pedinchas, a gente fala depois de) rescende a bafio e traveste-se de descaro, tal a pretensão de ensinar o padre-nosso ao senhor vigário.

    (É de palmatória, não é?)

    Aliás, o Sr. MST junta-se, voluntariamente, como de outras vezes, ao coro de mandantes da governação que não vão na conversa dos profes. No protesto mais recente dos profes (não mesmo vontade de os provocar?), os decisores políticos dizem que não há guito para repor a contagem do tempo e o bago perdido, durante quase 10 anos, durante os quais os profes marcaram passo. Para todos eles,  «não há nada para ninguém», assim se verga a frivolidade de desapaixonados.

    (Achei castiça a tirada do senhor ministro da tutela, segundo a qual o tango deve ser bailado a 2, apaixonados naturalmente, ele que tem todo o ar de pezudo!).

    Daí que, ou muito me engano, no caso vertente, vão ver Braga por um canudo. A bancocracia instilada já não cede a pretensas vagas de fundo de meritocracia social.

    (Essa de fazer greve e pouco largar para o patrão é de mestre, ó profes!).

    Com as férias à porta, a vontade reivindicativa dos profes pode esmorecer. Parece garantido que já se aposta nisso, o lazer bem dispensa chatices...

   A propósito, nunca ouviram dizer que a paixão nada remedeia, ou soluciona?!...

-----

PS – Continua a fazer sentido, numa sociedade representativa, a imposição legal da comparência de todos os intervenientes no processo do ensino/aprendizagem dos alunos, no momento da avaliação final, no fim do 3º período escolar? Um sorteio de avaliadores que perfaçam a maioria simples até acrescenta alguma emoção à cena...

professante.jpg

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