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oitentaeoitosim

30
Jan17

Verismo III

Jorge

    Neste país, sempre que a tradição se impõe, está estabelecida, para as famílias, uma repartição funcional castiça: a mãe de família – ou quem as suas vezes faça - encarrega-se da formação dos rebentos, da gestão graciosa do lar, estando nesta incluída a confeção de alimentos; o páter-famílias – ou alguém no seu lugar – vai em busca do numerário que cubra as necessidades normais e também as imprevistas do agregado.

    (Entre marido e mulher não se mete colher.)

    Todavia, o tempo que é composto de mudança tem vindo a impor mexidas neste modus operandi: as mulheres, aos poucos e poucos, por obras valerosas ou doutro jaez, foram-se libertando da ditadura da menina-de-cinco-olhos, do espanador, da vassoura, do ferro e da tábua de engomar, das linhas de passajar, do tanque e/ou máquina de lavar e do avental – pelo menos graciosamente - seja em famílias convencionais, ou por convencionar.

    (O meu rei é que me dá de comer.)

   O processo de liberação já ia longo, quando assenta praça e arraiais a culinária gourmet (que é outra loiça!), dirigida a quem tem mais barriga que olhos, orientada por chefs, gente formada a preceito em escolas que pretendem elevar aos céus os negócios e a excelência culinária - abaixo o enfarta-brutos! -, homens na sua maioria que tomam de assalto as cozinhas, dispostos a não deixar por mãos alheias os seus méritos insuspeitos na arte de bem mimar os donos e donas de carteiras recheadas de massa, estejam aqui, ou venham de além-mar.

    (Dinheiro e fruta servem para comer.).

    Aí se reforça a tendência da transferência de mulheres para outros sectores de produção - onde a lei beatificamente impõe «salário igual para trabalho igual», mas a tradição acrescenta um desconto para quem se assuma mulher -, ou então deixam-se ficar com os pés dentro das habituais tamanquinhas e dispõem-se a auxiliar no abastecimento de víveres, na copa, na cozinha e nas salas da janta das casas de repasto, com menos pago, obviamente!

    (A boda e a batizado não vás sem ser convidado.)

   Estrelas Michelin do país são pespegadas nas portas de restaurantes, de referência - respeitinho às hierarquias, nem todos os restaurantes podem alinhar com um chef que, muitas vezes, fazem o seu tirocínio por baixo! -, orientados por homens que passam a fazer parte do imaginário cultural do pessoal e recebem colinho, a- torto-e-a-direito, dos média e das redes sociais.

    (Morfar bom e barato, nem no Crato.)

    Até os livros de culinária passam a ser mais editados e com autoria garantida de homens, o que releva da capacidade deles na gestão de negócios, em manusear investimentos e aplicações financeiras, tarefas nas quais as mulheres se deixam perder, quando à partida estariam mais habilitadas a tomar decisões sobre diferentes afazeres em simultâneo.

    (Investir, comer e coçar, vai do começar.)

    O revivalismo é uma injunção típica dos tempos decorrentes, pelo que não admiraria que um machismo travestido não possa a estar a fazer das suas, em países que são desenvolvidos ou estão a levantar cabeça, afastada que a presunção que uma qualquer deidade ou entidade externa esteja a intrometer-se no caso.

     (A cozinha refinada leva à farmácia.)

   Também já se ouviu dizer que o novo cenário estará a dar grande gozo a muitas mulheres trabalhadoras, ao verem homens ataviados em aventais e de barrete enfiado – adereços que os aproximam doutras corporações muito respeitáveis -, a investir, aflitos, entre tachos, sertãs, condimentos, toalhetes, talheres, etiquetas, etc.

     Nas largas bolsas de território deste país, em que a tradição cultural não sofreu grande mossa – é ainda questão de fé que a mulher ganhe menos que o homem, que a esposa seja mais nova, ou da mesma idade e que o marido detenha menor altura, por exemplo -, os chefs até podem suplantar as donas-de-casa fora de portas, que dentro de portas, os doces, as sobremesas, os pratos favoritos são da autoria de mães e avós. Fosse a fome um dos eixos do mundo e estava o caldo entornado...

    (O pão nunca cai com o lado da manteiga para cima.)

 VerisIII.png

«O segredo está em engolir sem mastigar. Assim, entram grandes nacos de comida na circulação sanguínea; isto faz com que as tuas artérias se alarguem, forçando assim a  presença de mais sangue no cérebro, o que te torna mais inteligente e com melhores hipóteses de sucesso.»

 

 

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