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oitentaeoitosim

20
Fev18

Vidas (3)

Jorge

Quando a escolha é entre cobardia e violência, aconselharei a violência.

M. Gandi

 

I - João nasce de um caso de 2 paixões assolapadas, a da mãe e a do pai. Morre-lhe a mãe à nascença e o pai põe-se a milhas, sem nunca mais dar novas, tão pouco mandados.

     Ignorado pelos familiares mais diretos do pai, recolhe a casa onde viviam avó e avô maternos, na companhia de 3 filhos que se tinham deixado ficar para tios.

     Quando a avó e o avô partem para o Outro Lado, João fica entregue aos cuidados dos tios, dos quais passou a ser o ai-jesus.

     Faz-se infante e depois adolescente, sempre amparado na trindade de tios que levam vida desafogada.

    Ao primeiro melro que se atreve a chamar-lhe de filho de tríade, João esfacela-lhe o trombil, ficando o provocador de olho deslocado, cana do nariz partida e queixo descaído, caraterísticas anatómicas que sobrevivem nele, facilmente identificados à vista desarmada.

     O episódio vale a João, 5 dias de suspensão na escola (palco do episódio) uma tremenda reprimenda do pastor da sua congregação e muitos calduços dos tios que, no intuito de reforço das defesas do rapazola, o inscrevem num ginásio competente as manhas e artimanhas da luta livre, ali à beirinha de casa, da qual se tornou exímio praticante.

     Por estas e por outras – e também porque a fama o precede – João tem vindo a eximir-se com sucesso a várias formas de bullying.

 

II - Lena nasce de uma paixão efémera, da mãe e do pai. Quando solta os primeiros vagidos, já o pai cavara do rincão natal, para bem longe, donde nunca mandará novas, tão pouco mandados.

     Lena fica ao encargo da mãe, frequentadora da alta-roda, vem registando sucesso na gestão de negócios e manobras financeiras.

    Um dia, a mãe de Lena decide pôr a sua vida em ordem e arruma os trapinhos com outra senhora de classe alta, por quem se apaixonara perdidamente.

   Lena faz-se infanta e adolescente, tendo à sua disposição todas as comodidades desejadas da vida e nunca nada lhe falta.

     À primeira pucela que se atreve a chamar-lhe filha de díade, Lena arranca pela raiz madeixas volumosas de cabelo louro tingido, pelo que a atrevida nunca mais terá dispensado a cobertura de chinós das melhores proveniências e marcas.

     Na sequência do facto ocorrido na rua, a Lena pouco sucede de especial, a não ser uma reprimenda, en passant, do polícia, do oficial de justiça e do magistrado do Ministério Público que tomam conta do ocorrido.

     Desde então, Lena torna-se praticante de umas quantas artes marciais, em vários ginásios das suas redondezas, da qual se converte exímia praticante.

    Por estas e por outras – e também porque a fama o precede – Lena tem vindo a eximir-se com sucesso a vários tipos de bullying.

 

III - Estela nasce de procriação assistida. O pai e a mãe biológicos desentendem-se e cada um segue a sua vida e nunca mais se cruzaram na vida.

     Estela bem tenta encontrar a mãe que a gerou, sem sucesso; é institucionalizada, por especial intercessão de um seu tio-avô que era prior, num lar operado por freiras carinhosas, onde se faz infanta e adolescente.

     Nos primórdios da vida adulta, regressa ao mundo laico, quando é adotada por uma senhora virginal, de idade provecta, a quem Estela se dedica de-alma-e-coração.

    Ao primeiro gabiru que, na fábrica onde trabalha, se atreve a chamar-lhe filha de mónade e Estela parte-lhe as costelas todinhas, de forma que, ainda hoje em dia, o atrevido mantém certas dificuldades em, deglutir, andar e evacuar.

     Na sequência do sucedido, ocorrido na fábrica onde trabalhava, Estela, já uma jovem linda e bem-sucedida, fica 2 semanas com termo de identidade e residência e paga uma indemnização ao atingido que fica a padecer de ginofobia, até hoje.

    A partir de tal episódio, Lena dedica-se ao pugilismo, na coletividade desportiva mais próxima da sua habitação e converte-se em exímia praticante.

    Por estas e por outras – e também porque a fama o precede – Estela tem vindo a eximir-se com sucesso a vários géneros de bullying.

        

IV - Moisés é o benjamim duma família pouco menos que remediada, mas numerosa – 3 raparigas, 3 rapazes e o pai – que sobrevive à custa do empenhamento titânico diário de todos os seus elementos.

     A mãe tinha partido, depois do parto de Moisés, com um primo afastado, visita habitual da casa térrea, cheio de notas; cansado de lhe dar música, o familiar faz um ultimato à senhora que cede a muito custo e ambos vão constituir outro ninho, em cascos-de-rolha.

   Faz-se infante e adolescente nestas condições, no desconforto dum lar apertado e da comiseração alheia.

    À matulona que um dia lhe faz frente e insinua que ele é, afinal, filho de mãe desnaturada, Moisés assenta-lhe duas taponas velhas, e, não satisfeito, desfaz-lhe no cocuruto um computador acabadinho de lhe ser emprestado, no centro social do bairro. Curiosamente a atingida refez-se rapidamente do incidente, deliciando-se com o estudo de informática.

     A reação vale a Moisés a expulsão, a título definitivo, da frequência das instalações do centro social lá do bairro; para além disso, leva pancada, a-torto-e-a-direito, duns grandalhões que gramam a vítima da sua fúria ocasional.

    Curiosamente Moisés e Clementina, a vítima, não resistem à atração exercida pelas tecnologias de informação e tornam-se peritos na coisa e acabam de associar-se numa startup que promete.

     Apesar da fama que o precede, Moisés sabe que novas formas de bullying os aguarda, ao virar da esquina.

Vidas 3 (2).gif

«Diz-se que a música facilita a produção. Toca a trabalhar, ou começo a cantar!» ( Sorry for copying...)

 

 

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