Quinta-feira, 07 de Maio de 2020

 

Agostinho perorava:

- Os bancos e correlatos são templos onde se celebram ritos pristinos, de vetusta patente, onde se incensa César, seus tributos e atributos. A ministrante e apóstolo são muitos os chamados, pouquíssimos os escolhidos, nem todos têm vocação para guardar um bom segredo que faz a alma do negócio.

(Lá dizia o outro, armado em pensador: poucos são os indivíduos habilitados por capacidades de levar a vida em plenitude, o amor pelo dinheiro.)

Que sim, diziam paternalisticamente as pessoas estacionadas, naquele cantinho do jardim.

- Os bancos e correlatos seguem à risca a máxima que incita a ficar com a melhor parte, quando se reparte, para não ser tomado por agalhas. Dessa arte é mister que sejam muitos os comungantes e adjuvantes, poucos os mandantes, ou o mundo não seria aquele que se conhece.

(Passos largos são apenas sugeridos a quem não tenha estatura meã e perna curta para o ofício.)

Que sim, diziam paternalisticamente as pessoas que, naquele cantinho do jardim, seguiam sobretudo as peripécias dum jogo de cartas.

- Os bancos e correlatos gerem valores, moedas, ações, bilhetes, certificados, letras, títulos, fundos, património material, património imaterial, a partir de refúgios de acesso reservado aos poucos que têm arte para baralhar e dar cartas e depois realizar lucros pingues.

(Segredos sobre a arte de acumular muita massa, sem sujar as mãos e os pés, só se revela a amigos que são sempre contam pelos dedos de ambas as mãos, quando não de uma só) uma, ou quando muito, das 2 mãos).

Que sim, diziam paternalisticamente as pessoas que, naquele cantinho do jardim, seguiam sobretudo as peripécias duma partida de cartas, rijamente disputada.

- Os bancos e correlatos têm-se na conta de instituições filantrópicas: gabam-se de conceder empréstimos, a qualquer hora, em qualquer lugar e a qualquer indivíduo que dê garantias, mas raramente perdem (só nas derrocadas). Neste caso, tentam despejar para cima de acionistas indefesos, ou impõem taxas e taxinhas aos clientes simples da ocasião.

(Se não és bom comerciante, recomenda a sabedoria que feches a loja.)

Que sim, diziam paternalisticamente as pessoas que, naquele cantinho do jardim, seguiam sobretudo as peripécias duma partida de cartas que terminava à melhor de 3.

- Aos bancos e correlatos interessa tanto a gestão de dívidas soberanas, como a administração de poços de petróleo, de minas de ouro, de minas de diamantes, de minas para coltan, de circuitos de distribuição de bens materiais e imateriais, etc…Os seus gestores forçam engenharias financeiras, requerem sigilos, requisitam experts em diversas matérias, exigem paraísos fiscais e não enjeitam, em momentos de azar, perdões fiscais e/ou subsídios, sempre na perspetiva de ampliação da fortuna, com pouco despesismo associado, isso fica para o Estado.

(Na arca do avarento, o diabo jaz dentro.)

Que sim, diziam paternalisticamente as pessoas que, naquele cantinho do jardim, seguiam sobretudo as peripécias duma partida de cartas, rijamente disputada, que terminava à melhor de 3.

- Portanto, os bancos e correlatos são manobrados por uma cáfila de passarões de arribação que se consomem a comer as papas na cabeça de centenares, ou de milhares, ou de milhões de indivíduos. Essa malta não passa de unhas-de-fome, filhos diletos de belzebu, azeiteiros ramelosos e por mim passo bem sem eles.

(Quem perde a vergonha fica senhor do mundo!)

Que sim, diziam paternalisticamente as pessoas que, naquele cantinho do jardim, seguiam sobretudo as peripécias duma partida de cartas, rijamente disputada, que terminava à melhor de 3 e valia uns púcaros grátis aos vencedores, tomados na tasca mais próxima.

Em cena surge Damião que o conhecia de ginjeira, em tempos tivera de lhe pagar juros leoninos, daquela vez em que precisou da sua ajuda para ocorrer a um gasto de saúde imprevisto. Damião volta a encher Agostinho de impropérios, claro que não era a primeira vez, seu isto, seu aquilo, bandido, patifório, emprestaste-me dinheiro, mas tive de pagá-lo mailos juros com língua de palmo.

(Merda, tinha sido a única vez que se armara em onzeneiro, emprestara aquele dinheiro ao Damião que pagou nos prazos, honra lhe seja feita, depois apostara em cavalos errados e, há muito, que não passava da cepa torta!)

Que não, disseram em coro as pessoas que, naquele cantinho do jardim, seguiam sobretudo as peripécias duma partida de cartas, rijamente disputada, que terminava à melhor de 3 e valia uns púcaros grátis aos vencedores.

Agostinho estará a pregar noutra freguesia, ou entrou de quarentena, nunca mais lhe puseram a vista em cima.

Vidas 4.jpg

Computador estúpido, sempre a dizer «tem correio»

 

 



publicado por Jorge às 20:15
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