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oitentaeoitosim

01
Fev18

Zelos XII

Jorge

     

 

Abundam, nas sociedades hodiernas, leis, posturas, regulamentos, estatutos, normativos, ordenamentos, ordenações, ritos, praxes, regimes, códigos, regras de etiqueta, regras e muitas diretivas disto e daquilo, de regulamentação da vida social, em tempos de paz (para tempos de guerra por ora estão estabelecidas disposições dissuasoras).

As disposições sociais supostamente brotam de princípios universais da condição (condução?) humana e de sequentes leis-quadro fundamentais. Os articulados, a atuação de zeladores, o processamento de causas dolosas, as coações previstas e as penas aduzidas derivam naturalmente de tais fontes.  

Nos países mais favorecidos pela superestrutura globalizada, os enquadramentos normativos parecem mais operosos, um qualquer desvio pode ser a morte dum artista. As manigâncias e contravenções (evasão fiscal, criminalidade violenta e assédio sexual, v.g.) acabam nas praças públicas de todo o mundo, seja em periódicos, em magazines, em livros, em filmes, na Net e até no mundo das artes, porque convém deixar bem lembrado que o crime – a descoberto - não compensa, por isso mesmo levam que contar pela medida grande.

(Por lá, a má culpa vende-se bem, mas convém não exagerar que ela pode trazer cizânia atracada ao bojo; a boa ordem foge a exageros, naturalmente.)

Por sua vez os caídos em desgraça (com vida de estadão garantida, de preferência), em países desfavorecidos, ou em países assim-assim, já não permanecem muito tempo nas bocas do mundo (uma destrinça a ter, de futuro, em conta na diferenciação escolástica dos agrupamentos países). Nestoutros países e no plano interno o desassossego também é garantido a quem se atreveu a mijar fora do penico, quase sempre até à ignoscência final, naturalmente.

No caso das plagas lusitanas, muito boa gente diz que há muitas e boas disposições sociais, adequadas à frugal confraternização social e ao cosmopolitismo tão do agrado dos íncolas. Não fossem certos achaques culturais - a espórtula, a cunha, o abanar altivo de ombros, a varridela para debaixo do tapete, o topete de alguns e muita bonomia doutros – e a vendada Justiça estaria nas suas 7 quintas, na paz do Senhor, naturalmente

Por cá, episódios dolosos, crimes que envolvam figurões da praça, com cabedais suficientes para fazer render o peixe, têm tendência a distender-se ao Juízo Final; aos malfeitores comuns as tribulações são abreviadas, naturalmente.

Por cá também, as venturas e desventuras dos maus da fita vendem bem e as audiências televisivas repercutem isso mesmo, enquanto as ações dos bons da fita ficam em recato.

A virtude não se compadece com espalhafato, antes é mais solicitada pelo recato. Daí que a virtude seja naturalmente mais trombeteada nas entregas de prémios e de comendas, ou por altura de passamentos.

Se à malta não valer a capacidade inata de destrinça entre bem e mal, poderá valer, em situações comezinhas do quotidiano, a navegação à vista desarmada, numas quantasem questões de moral e bons costumes públicos.

Eurico é um velho perieco – logo, pouco dado a altas cavalarias - que se ufanava de nunca ter atirado uma beata, ou uma cusparada ao chão, sempre arrumara a sua viatura à maneira, sempre passeara o cão atrelado, de saco na mão e nunca fora inconveniente para a vizinhança. Há dias, andou de cuecas no metro, mas esqueceu-se de se tapar, à saída. Detido para inquirições, Eurico andou, por uns dias, nas bocas do mundo que desfizeram nele, para seu grande desgosto naturalmente.

(Uma rádio local aludiu ao caso do Eurico, um jornal regional aludiu ao caso, numa minúscula caixa, sem dogmatismos; um jornal nacional obscuro e outro estrangeiro do mesmo calibre foram mais generosos, no espaço concedido, com foto a acompanhar.)

Doutra sorte, Pietro atira lixo a-torto-e-a-direito para a rua, arruma o carro em 2ª ou 3ª linha, ou sobre os passeios, põe o cão a deambular na via pública sem rebuço, a qualquer hora, para alívio do bicho, está sempre a causticar a vizinhança, sem que alguma coima tenha travado os maus fígados (aos zeladores do cumprimento dos normativos estão relegados para o cumprimento de valores mais altos que sempre se alevantam). Um videoamador captou-o a defender um sem-abrigo: «ele tem direito a ser sem-abrigo», ponto final». Agora anda aos ombros.

(Pietro, hoje-por-hoje, é convidado de jornais, rádios e tevês, à escala nacional que não olham aos pecadilhos do senhor; na estranja, ou já se não fala no assunto, ou é assunto muito longe de encerrar, naturalmente.)

A civilidade é um pau de 2 bicos, naturalmente. 

PS – Um dia, António, tuga dos 4 costados, passeava numa área pública, duma cidade chinesa. Tinha acabado de atirar uma beata ao chão (atitude banal, por casa), quando alguém lhe puxa pela flanela da camisa e se lhe dirige com ar de poucos amigos. Uma senhora, fiscal municipal, apontava a um cartaz, redigido em língua chinesa (era chinês para António), que mandava punir o lançamento de beatas e bisgas para o chão, naquele rincão. A senhora fez questão de dar a entender que não saia dali sem o dinheirinho para saldar a contravenção e de imediato colocou um recibo à frente do nariz de António. A este não restou outra solução, a não ser pagar e mais não bufar. Quando se afastou do local do crime, estranhou que na sua terra natal, nunca tivesse enfrentado sobrerronda com tal função.

 

ZELOSXII.jpg

«O diretor suspendeu-me! – A escola é o único sítio do mundo em que te dão tempo livre por  mau comportamento.»

 

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